Não podemos aceitar

Opinião Nota Editorial

Vigora entre nós uma espécie de anestesia coletiva face à guerra civil da estrada. A brutal violência quotidiana a que assistimos escapa a qualquer escrutínio moral e político. Demasiados condutores transformam a estrada num espaço de afirmação pessoal: velocidade excessiva, ultrapassagens impossíveis, telemóveis na mão, álcool, drogas, desrespeito pelas distâncias de segurança, agressividade perante quem cumpre as regras. Na esfera mediática e na própria sociedade, porém, normalizámos tudo. Um condutor que circula a 180 km é, muitas vezes, descrito como alguém que “gosta de andar depressa”. Há um léxico de complacência que mascara comportamentos potencialmente homicidas. A morte de dois jovens militares na A1, seja qual for a sua causa, ganha, por isso, um significado que ultrapassa a tragédia individual. Eles não morreram apenas porque decidiram ajudar alguém. Morreram porque, nas nossas estradas, até um gesto solidário pode ser mortal. Isso diz muito sobre o ambiente rodoviário que construímos. E isso é qualquer coisa de muito doentio num País que aceita a estrada como uma lotaria diária. Chamamos ‘acidentes’ ao que é o resultado previsível de comportamentos irresponsáveis. Aplicamos a palavra fatalidade para aliviar consciências. Como se a velocidade fosse uma força da natureza. Como se a condução agressiva fosse um fenómeno meteorológico. Como se a imprudência fosse destino. Não é aceitável. 

A extinção dos dinossauros

Opinião Colunistas A Partir das Imagens

As notícias em ciência parecem muitas vezes misturar cálculos rigorosos, muita análise meticulosa e algum sentido de humor.

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A força interior

Opinião Colunistas Antena Paranoica

Revi agora a entrevista de Daniel Oliveira a Carlos Lopes, primeiro campeão olímpico português e rival do saudoso Fernando Mamede, a ‘melhor máquina humana’ que conheceu Moniz Pereira, treinador de ambos. Mamede foi recordista europeu dos 10 mil metros, numa corrida em que bateu o próprio Lopes, mas nunca logrou êxitos idênticos porque, com adversários ao lado, a ‘máquina’ colapsava e ficava para trás.

À procura de astros

Opinião Colunistas Segunda opinião

Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

22 de agosto de 2026 às 00:30

O eclipse suscitou um fenómeno de partilha, euforia coletiva e astrofilia, refletindo a longa caminhada humana. A palavra tem um étimo grego (“ekleipsis”) que significa abandono, e exprime a ideia de os deuses nos deixarem à mercê de guerras e calamidades ao dissimularem o sol. As civilizações antigas interpretavam o eclipse como prenúncio de castigo divino. Freud serviu-se dele para explicar a angústia neurótica através de uma metáfora antropológica, distinguindo o temeroso homem primitivo do sucessor moderno, cujo conhecimento permite antecipar e reagir sem ansiedade ao fenómeno. Porém, mais do que a ausência de angústia, o eclipse originou uma efervescência coletiva (no sentido de Durkheim) que pôs a comunidade a olhar para o céu, comungando uma emoção sem barreiras sociais, políticas ou culturais. O eclipse real gerou o efeito oposto ao eclipse humano da sociedade descarnada e despida de afetos, antecipada por Antonioni há mais de sessenta anos. Para além de objeto científico e artístico, é um bom tema de reflexão para os nossos políticos. Conseguirão despir a pele de símbolos astrológicos para se converterem em astros genuínos?

Ansiando por Jesus

Opinião Colunistas Spray Milagroso

Um mês e meio depois da eliminação da equipa portuguesa no campeonato do mundo de futebol já se pode dar por terminado o período de luto que decorreu dessa última participação desportiva e perorar livremente sobre a aventura americana sem ofender ninguém até porque o sujeito que mereceria mais ofensas já não mora cá. Deixemos o espanhol em paz e vamos à História. Desde 2004 não houve grande torneio europeu ou mundial em que, sabe-se lá porque instintos patrióticos ou desvairado otimismo, a seleção nacional não fosse considerada, pelos especialistas do burgo, como candidata ao triunfo final. Entenda-se por especialistas do burgo a soma de todos os nossos compatriotas que se interessam por estes assuntos. Formam uma multidão. Feitas as contas todos estes entusiasmos deram-nos um título de campeões da Europa, em 2016, duas Ligas das Nações e uma final pateticamente perdida em casa em 2004.

Atendimento

Opinião Colunistas Segurança Interna

Não é novidade para ninguém, mesmo com a escassez de recursos, que a PSP é dos poucos serviços públicos, incluído nesta comparação os demais atores do Sistema de Segurança Interna, que presta um serviço de atendimento ao público ininterruptamente todos os dias do ano.

Cocaína e espingardas

Opinião Colunistas Sérgio A. Vitorino

A criminalização das narcolanchas em Portugal, acompanhando tarde e a más horas o que já se faz em Espanha desde 2018, gerou um novo fenómeno. De acordo com investigadores, foi detetado que algumas lanchas de alta velocidade passaram a ter como origem a Itália - para onde os especialistas dos 'estaleiros' galegos e minhotos se terão mudado. Mas isso fez com que as lanchas, usadas à mesma em Portugal e Espanha, tenham passado a incluir nas tripulações - e no pessoal das descargas em terra - gente muito pouco recomendável e que, até agora, tinha menos presença em Portugal. Membros das máfias italianas e dos balcãs viram a oportunidade de reforçar o peso no tráfico internacional de drogas, nomeadamente de cocaína vinda da América Latina em navios, transbordada para narcolanchas em alto-mar e descarregada em praias e rias da Península Ibérica. Um destaque: é gente muito mais violenta do que aquela a que estamos habituados; andam com espingardas de assalto; calibres de guerra; e não hesitam em disparar se assim entenderem. As recentes apreensões de arsenais em casas de recuo, armas e toneladas de drogas em transportes por autoestrada e de carradas de combustível, mostram que, para lá da logística, anda cá a 'barra pesada'. E isso deve obrigar a medidas pelo Sistema de Segurança Interna.

Mais do que um jogo

Opinião Colunistas Bernardo Ribeiro

Tenho a certeza de que o diretor do Correio da Manhã não me vai levar a mal por falar nestas páginas de um dos jogos mais icónicos que se celebra neste país. Falo da Liga Record. É muito mais do que um simples jogo de fantasia. Ao longo dos anos, transformou-se num espaço de encontro entre adeptos, amigos e famílias que partilham a mesma paixão pelo futebol. A competição semanal, alimentada pela escolha dos melhores jogadores e pelas classificações constantemente atualizadas, cria rivalidades saudáveis e muitas conversas que prolongam a emoção para lá dos 90 minutos.

Narrativas de sempre

Opinião Colunistas Círculos de fogo

O Médio Oriente renova as narrativas de décadas, senão de séculos: com guerras, conflitos e desconfiança. A guerra entre o Irão e os EUA é, por esta altura, o epicentro gerador de toda a incerteza regional, com repercussões globais. Como todas as guerras deste tipo, anunciam-se rápidas e clarificadoras. Tudo o que, por norma, não acontece no Médio Oriente. Parece do consenso geral, que Donald Trump está muito longe de apresentar relevantes capacidades de pensador e estratega. A condução deste conflito tem-se pautado pela incoerência, hesitação e desconhecimento, ao nível político, militar e geoestratégico. Os EUA não poderiam ter dado ao Irão, aquilo que ele nunca pensaria ter, a centralidade da gestão geopolítica na região. Todo o Médio Oriente está agora em desequilíbrio, senão mesmo em modo de desorientação. Do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho, passando pelo Levante. Velhas disputas e ódios de sempre aumentam a dúvida dos dias. O ataque preventivo efetuado por Israel, a uma base aérea na província de Idlib, prevendo ingerências turcas numa Síria dormente, faz reacender o antagonismo entre a Turquia e Israel. Ninguém escapa ao desequilíbrio e desorientação no Médio Oriente.