Opinião
Nota Editorial
O discurso de Montenegro no Pontal foi penoso. Sem energia, cheio de chavões estafados, como aquele trocadilho guterrista à volta de números e pessoas, procurou disfarçar o óbvio a partir da glorificação de um suposto legado. A margem de manobra estreitou, não há dinheiro para pequenos vícios, como o de dar bónus aos pensionistas. Mas o pior de tudo não foi isso. O pior foi mesmo a tentativa patética de pretender uma espécie de imunidade ética através do crescimento do PIB. Montenegro disse-nos, sem afirmar, que o debate sobre responsabilidades políticas é coisa menor perante o sucesso económico. Como se uma democracia funcionasse por compensação moral. Não existe um saldo em que boas contas públicas anulem problemas de transparência, conflitos de interesses ou erros políticos. Ao pedir que o País fale “menos das pequenas coisas” e mais dos sucessos da governação, Montenegro esquece que as chamadas “pequenas coisas”, a “maledicência”, foram suficientemente fortes para colocarem ministros sob intensa pressão. Não foram os jornalistas que inventaram os casos. Não foi a oposição que os fabricou, foi o próprio Governo. Quando um governante se queixa da atenção excessiva dada aos casos, está mais incomodado com quem faz perguntas do que com o que lhes deu origem. E esse autismo parece vir para ficar, levando a sério aquela promessa (ameaça?) de que esta AD está “para durar”. Tenhamos medo, muito medo.
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