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"Ideias Feitas", hoje um pouco mais especial, porque eu, Ricardo Conceição, estou em Nova Iorque numa emissão especial que estamos a fazer para acompanhar os 25 anos do 11 de setembro. Olá, Alberto. Bem-vindo a esta emissão.
Olá, Ricardo.
E este é um tema incontornável.
É, parece que sim. Eu estive em Nova Iorque agora há poucos dias, há 10 dias ou 12.
Exatamente.
E acho que não tem nada a ver com o 11 de setembro, mas gostaria só de notar que acho a cidade, mas já acho isso há alguns anos, a cidade vai perdendo alguma da vida que tinha ou do tipo de vida que tinha, ganha uma vida diferente. As coisas fecham mais cedo, não sei se notaste isso, em relação a não sei há quanto tempo já não ias a Nova Iorque, não faço ideia.
Já há demasiado tempo.
Há muito tempo. Não sei se notas isso. Eu noto que a cidade está mais chocha. E isso acho que não tem nada a ver com política. Se calhar, não sei, se há mais assaltos, não noto isso, não é uma coisa que eu pense muito no meu dia a dia e mesmo quando viajo. Não sei se os empresários desataram a fazer contas e concluíram que abrir de noite não compensa, mas a cidade que nunca dormia, é uma cidade que começa a dormir demasiado para o meu gosto. E isso é a parte não política da coisa, ou pelo menos não diretamente política da coisa. A Covid ou as medidas que se tomaram a pretexto da Covid, teve de certeza alguma coisa a ver com isto, mas não terá esgotado as possibilidades todas. Não terá sido só a Covid, com certeza. Agora, na parte política, aquilo que me apraz dizer, como é costume afirmar-se, sobre os 25 anos do 11 de setembro, é que um dia antes do 11 de setembro de 2001, acho que não haveria muita gente a prever que num futuro próximo ou mais ou menos próximo, um muçulmano poderia ser eleito líder de Nova Iorque, apenas porque não viria a propósito.
E deu muita polêmica a presença dele hoje aqui nas cerimônias.
Deu polêmica, presenças, risos. Ainda agora acabei de ver um vídeo dele a rir-se com a senhora Ocasio-Cortez, enquanto eram lidos os nomes das vítimas. Era aí que eu ia chegar. Um dia antes do 11 de setembro, ninguém preveria que um muçulmano fosse eleito maior de Nova Iorque. Um dia depois do 11 de setembro de 2001, acho que não haveria mesmo ninguém, seria completamente impossível ocorrer a alguém que num futuro próximo isso acontecesse. Foi eleito 25 anos depois, um muçulmano, ou quase 25 anos depois, um muçulmano foi eleito maior de Nova Iorque. Simbolicamente, isso seria apenas curioso se o muçulmano em questão não fosse este muçulmano em particular, um muçulmano que sempre se recusou a condenar o jihadismo, o muçulmano que nas suas sucessivas evocações do 11 de setembro sempre privilegiou o discurso em volta da islamofobia ou contra a islamofobia, naturalmente, e muito menos a evocação da memória das vítimas do 11 de setembro, dos mortos, dos atentados, como ainda hoje, através daquela conversa muito bem disposta que ele estava a ter, se voltou a confirmar. Ou seja, já nem vou falar das relações familiares do senhor, porque ele não pode, naturalmente, ser responsabilizado inteiramente por elas, mas sabemos o que o pai dele escreveu sobre o jihadismo, sabemos as posições da mulher do senhor Mandani sobre até o sete de outubro em Israel, sabemos essas coisas todas. E isso já não é apenas curioso. Eu acho que é um sinal de uma certa abdicação, no caso de Nova Iorque, da cidade e dos eleitores da cidade, que livremente cristãos, ateus, judeus, votaram no senhor Mandani, mas também é um sinal da abdicação do próprio Ocidente, e Nova Iorque é uma cidade bastante representativa do Ocidente, quero parecer. E acho que o Ocidente abdicou, desistiu, submeteu-se mais ou menos aos seus inimigos ou a simpatizantes, como é o caso dos seus inimigos. Isso é preocupante? Eu acho que é. Acho que a forma como o Ocidente está a lidar, ou uma parte do Ocidente está a lidar com as ameaças que o cercam, vai fazer com que haja uma reação contrária e essa reação contrária nem sempre é reação moderada, amável e racional, que nós todos gostaríamos que fosse, porque as coisas funcionam assim, se puxa muito a um lado, se estica muito duma ponta, vai se esticar também depois demasiado da outra. E é isso que eu acho que se pode refletir ou é uma das muitas possíveis reflexões que podemos fazer nos 25 anos do 11 de setembro. Eu imagino que já esteja na altura de entrar no noticiário e que já me estejas a querer calar, com toda a razão, Ricardo, não por censura, mas pelos constrangimentos do tempo.
Não, hoje é um dia muito especial. É um dia muito especial, até porque nós estamos aqui em Nova Iorque a viver in loco. É sempre importante também vir aos locais e perceber e sentir os cheiros e as cores para perceber melhor esta realidade.
Ainda assim, deixa-me só concluir.
Obrigado, Alberto. Bom fim de semana.
Deixa-me só dizer só uma frase, muito rápido, Ricardo. Ainda assim, Nova Iorque é uma cidade extraordinária. Ainda continua a ser. Ainda não tem transportes públicos gratuitos, nem creches gratuitas, nem supermercados gratuitos, como o senhor mayor prometeu, mas ainda assim é uma cidade, para quem não conhece, eu recomendo vivamente.
É um processo.
Não preciso de ir, Ricardo. Não preciso ir. Desculpa.
É realmente uma cidade fantástica.
Ainda tem muita coisa boa.
Eu estou a dizer que é uma cidade boa para vir, nem que seja para beber café.
Cafés não faltam, de facto. Cafés agora não faltam. Estão a ser um bocadinho mais sofisticados que os de antigamente e mais acéticos.
Um abraço, Ricardo. Bom fim de semana e boa viagem de regresso.
Já toda a gente tem aqueles lápis de cor que pedi, certo?
Eu não, professora.
Sara, então! Toda a gente tem.
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Rádio Observador, são 18h58 em Portugal continental e na Madeira, menos uma hora nos Açores, 13h58 aqui em Nova Iorque