A ação, apresentada em 2024, foi encerrada por meio de um acordo no início de setembro. O Grindr concordou em pagar aos autores da ação um total de 26 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 179,3 milhões), mas ressalta que isso não constitui admissão de responsabilidade. A empresa continua contestando as acusações, e não houve decisão judicial sobre o caso.

O que acontece com nossos dados?
Esse caso é apenas um entre muitos que levantam uma questão maior: o que realmente acontece com as informações que confiamos diariamente aos aplicativos?
Para os usuários, um aplicativo é, antes de tudo, apenas uma ferramenta. Mas é comum que essas plataformas sejam sustentadas por serviços de nuvem, ferramentas de análise, redes de publicidade e outros prestadores de serviço. Eles armazenam, transferem, cruzam e analisam dados, muitas vezes contra os interesses dos usuários.
Jan Penfrat, especialista em políticas digitais, afirma que muitas das grandes empresas de tecnologia querem "tornar o mais difícil possível para usuários e autoridades reguladoras compreender quais dados são coletados em nossos dispositivos, por quais agentes e para qual finalidade".
Continua após a publicidadeTodos conhecem a situação: um aplicativo, como um serviço de mensagens, é instalado rapidamente e, quando pede permissão para utilizar dados pessoais, os usuários muitas vezes simplesmente clicam em "sim".
Números armazenados em servidores sem autorização
Mas o problema está nos detalhes. Quando você instala o WhatsApp, por exemplo, concede acesso a todos os contatos armazenados no smartphone. Os números de telefone são transferidos para os servidores, inclusive os de pessoas que não usam o WhatsApp e que não deram autorização para que seus dados fossem compartilhados.
"Tudo isso alimenta um perfil gigantesco", afirma Penfrat, que trabalha na European Digital Rights (EDRi), uma rede europeia de ONGs e especialistas que faz campanha pela defesa dos direitos e das liberdades fundamentais no ambiente digital.
Empresas como o Google utilizam então esses dados para vender serviços de segmentação de audiência.
"Isso significa que um fabricante de carros ou roupas pode dizer: gostaria de atingir determinados públicos e quero que minha publicidade apareça nas buscas do Google, no Gmail ou em qualquer um dos centenas de milhões de sites de terceiros que incorporam publicidade do Google", explica Penfrat.
Continua após a publicidadeA venda de perfis de dados
O Google é apenas uma das muitas empresas que oferecem perfis de dados. Há dois tipos de informações que alimentam esses perfis. Uma delas é composta pelos dados que cada usuário fornece voluntariamente ao preencher informações em seu perfil ou enviar fotos privadas.
Mas, além disso, muitas grandes empresas de tecnologia vêm há anos fazendo inferências a partir dos dados que recebem. "Se elas têm acesso aos meus dados de localização e sabem onde costumo estar à noite, podem presumir que esse é o meu endereço residencial", diz Penfrat.
"Se, por exemplo, for em uma área muito cara da cidade, elas podem imediatamente fazer inferências sobre minha renda. Se perceberem que mantenho a geolocalização ativada e frequento regularmente uma boate gay, concluirão que provavelmente faço parte da comunidade LGBTQIA+. E tudo isso vai diretamente para o perfil."
Regulação rígida na Europa
A União Europeia já possui uma das legislações de proteção de dados mais rigorosas do mundo. O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês) busca proteger os dados pessoais e a privacidade dos cidadãos.
Continua após a publicidadeOutras leis digitais da UE, como a Lei dos Mercados Digitais (DMA) e a Lei dos Serviços Digitais (DSA), pretendem impedir que as grandes empresas de tecnologia abusem de seu poder sobre empresas e usuários. Companhias dos Estados Unidos também precisam obedecer a essas normas caso ofereçam serviços a pessoas na Europa ou monitorem seu comportamento.

A Comissão Europeia aplicou diversas multas por violações dessas regras. Em 2025, multou a Apple em 500 milhões de euros (aproximadamente R$ 3 bilhões). A Meta, controladora do Facebook, recebeu outra multa de 200 milhões de euros (R$ 1,2 bilhão).
O Google teve de pagar 890 milhões de euros (R$ 5,3 bilhões) em multas neste ano. Parece muito, mas uma comparação com o lucro líquido da Alphabet, controladora do Google, coloca o montante em perspectiva. Em 2025, o lucro líquido da empresa foi de cerca de 117 bilhões de euros (R$ 692 bilhões).
"Para uma empresa como Google ou Amazon, são valores que podem ser obtidos em apenas alguns dias", afirma Penfrat. "Eles simplesmente incluem isso no orçamento."
Dependência de serviços digitais dos EUA
Como resultado, não é tão simples para a União Europeia adotar mecanismos realmente eficazes de fiscalização. As gigantes da tecnologia contam com infraestruturas globais, enormes recursos financeiros e modelos de negócios complexos. As autoridades europeias precisam primeiro superar esses obstáculos.
Continua após a publicidadeA isso se soma a dependência europeia de serviços de nuvem, sistemas operacionais, plataformas digitais e, cada vez mais, infraestrutura de inteligência artificial, áreas amplamente dominadas por empresas americanas.
Penfrat critica Bruxelas por não demonstrar vontade política para agir de forma mais firme contra essas companhias e para equipar melhor as autoridades europeias de proteção de dados.
