A cantiga é uma arma... contra os judeus

Certos artistas fazem arte e ajudam-nos a atravessar a vida de forma mais agradável. Mas há “artistas” que sobem ao palco convictos de que a sua missão é reeducarem o público, sinalizarem virtude, exibirem superioridade moral.

O espectador entra para ouvir música e recebe o ralhete de que é uma péssima pessoa, se não subscrever as crenças do “artista”.

Portugal conhece bem a espécie. Durante o PREC, os baladeiros cantavam para  “consciencializar”, “mobilizar”, “denunciar” e outros verbos que, em português corrente, significavam explicar ao Zé da mercearia que ele era um atrasado se não decorasse a linha correcta do Comité Central.

Na época, desaparecida a censura da DGS, algumas aves canoras, ligadas às amplas liberdades marxistas e maoístas, apressaram-se a substituí-la pela obrigação de todos passarem a ter o direito de ouvir os seus ditirambos ideológicos. De preferência quietos, calados e virados para a frente.

O “Grupo de Acção Cultural – Vozes na Luta”,  expressão mais delirante desta vocação pedagógico-militar, infestava fábricas, quartéis, campos e assembleias. Onde quer que  houvesse gente, apareciam os bardos virtuosos. José Mário Branco berrava que  “A Cantiga É Uma Arma” contra a “burguesia” e o cantor passava a ser um artilheiro cultural em missão de combate pela virtude.

Em “Alerta!”, a humanidade dividia-se entre operários e camponeses de um lado, e a burguesia exploradora do outro. A salvação era a “democracia popular e ditadura proletária”, uma proposta do tipo  “entrecosto vegetariano”.

As cançonetas eram panfletos com refrão e o “povo” ouvia por dever revolucionário. Quem desafinasse passava a  reaccionário, “fássista”, ou “pequeno-burguês” e era cancelado, não nas redes sociais, mas por saneamento, a pontapé ou à bomba, se  fosse necessário.

Cinquenta anos depois a gola alta foi substituída pelo keffieh e pela melancia, mas a arrogância é a mesma. A cada “cause du jour”  importada das catacumbas woke, reaparece o “artista” com as certezas impenetráveis do adolescente com acne, que ouviu um slogan na sua bolha de alucinados e concluiu que a Humanidade esperava por ele. Não sabe muito, mas berra. Não estudou o assunto, mas pontifica e produz palavras que, repetidas em coro, lhe dão a agradável impressão de estar do lado certo da manada.

Recentemente, Jerry Seinfeld  tornou-se um mafarrico ontológico por não ser “antissionista”.  Em Lisboa, de repente, seis participantes menores do MEO Commedia a La Carte Fest, descobriram, ao fim de largos meses, que Seinfeld é judeu. Debitaram os salmos do “genocídio”, exibiram indignação tribal e subiram, na sua imaginação, ao altar da virtude. O activista moderno não tolera uma anedota que lhe toque na catequese, porque estraga o sermão e a possibilidade  de explicar o planeta aos deploráveis que pagaram o bilhete.

Seinfeld não vinha discursar sobre Gaza, vinha apenas fazer piadas, mas o humor é insuportável para o fanático porque relativiza, baixa a temperatura e recorda ao moralista que ele não é Moisés a descer do Sinai, mas apenas um bípede com microfone e estratosférica ignorância.

É a pureza por proximidade e não tarda aí o dia em que até o electricista do espectáculo terá de provar as suas credenciais “antissionistas”.

Imaginemos a Comissão de Virtude e Pureza reunida para analisar o processo:

– O suspeito montou uma ficha eléctrica no mesmo edifício onde actuará um judeu favorável a Israel?

-Sim.

– À mesma hora? No mesmo dia?

-Não.

– Gravíssimo. Cancele-se o suspeito e desinfecte-se o recinto, ou então saímos nós, pode ser que o Qatar depois nos monte um espectáculo só para nós.

Há tempos, Salvador Sobral mostrou uma sonora  versão da relação entre o artista iluminado e o público mentecapto. Num concerto insinuou que, se emitisse uma flatulência, seria igualmente ovacionado. O público aplaudiu e demonstrou a tese de que o “povo” é cretino e o “artista” é brilhante por o tratar como tal.

No estrangeiro, a pedagogia artística está também em alta.

Macklemore, que eu pensava ser defesa central de um clube da segunda liga irlandesa, mas afinal é rapper, contratado para abrir concertos de Ed Sheeran, decidiu que a sua missão era debitar “fri-fri palestine” entre dois rap e acusar Israel de “genocídio”.  Naturalmente, babujou a habitual absolvição preventiva de que criticar Israel não é antissemitismo. O antissemita moderno raramente começa por dizer “odeio judeus”. Prefere explicar, sem se rir,  que odeia o único Estado onde vive a maioria deles. De resto, o antissemitismo do senhor Mac já tem barbas de doze anos e volta sempre ao catecismo do “apartheid”, ocupação, 75 anos, “genocídio”, e isso.

Foi obviamente corrido do espectáculo e Ed Sheeran lá teve de explicar o elementar: que o seu público comprou bilhetes para ouvir música, não para receber doses cavalares de propaganda do Hamas.

Mas o activista não reconhece o direito à neutralidade. Se não repetimos a propaganda jihadista e se distinguimos Hamas de civis palestinianos,  somos cúmplices. O mundo do artista doutrinador é simples, como todos os mundos fabricados por ignorantes.

Roger Waters é a versão geriátrica e obsessiva da doença. Há anos que transforma Israel na explicação universal do mal, apoia o Hamas, o Hezbolah, etc.  Grupos que, convém lembrar,  não são bandas de garagem de estética alternativa, mas organizações  jihadistas que desprezam judeus, mulheres, homossexuais, dissidentes, liberdade religiosa e quase tudo aquilo que permite aos “artistas” existirem sem medo no Ocidente. Waters, claro, nega ser antissemita. Indivíduos que passam décadas a tratar o Estado judeu como encarnação cósmica do mal, ficam chocados quando alguém nota o padrão.

O Eurofestival, naturalmente, não escapou. Vários países e artistas têm anunciado boicotes por causa da participação de Israel. A Irlanda e a Espanha, por exemplo, dois bastiões do antissemitismo europeu, anunciaram que não voltariam a participar, se o judeu não voltasse ao guetto. Os mesmos países que, historicamente, partilharam o palco das lantejoulas com ditaduras, autocracias, regimes duvidosos e amizades petrolíferas, descobrem de repente que a pureza moral se mede pela presença de Israel no alinhamento.

Tudo isto revela sobretudo hipocrisia e cobardia. O doutrinador repete as palavras certas no momento certo, diante das pessoas certas, para receber o aplauso dos idiotas úteis, a protecção da tribo, e a sensação de importância. É um cobarde movido apenas pelo instinto de manada.

A palavra “genocídio” tornou-se o crachá moral da temporada. Dispensa factos, números, análise jurídica, contexto militar, responsabilidade do Hamas, reféns, túneis, escudos humanos, intencionalidade, proporcionalidade, guerra urbana, Irão, jihadismo, antissemitismo, e a velha questão de saber por que motivo os mesmos artistas que descobrem uma paixão ardente por direitos humanos quando há judeus envolvidos, perdem a voz perante a China, o Irão, a Síria, o Sudão, a Rússia ou o Afeganistão.

Deve ser coincidência. A História está cheia destas coincidências.

A arte sempre falou de injustiça, guerra, religião, poder e morte. Mas Shakespeare não distribuía fichas partidárias à entrada, Goya não pintava comunicados e Mozart não interrompia o andamento para verificar se a assistência condenava devidamente o imperador. Uma obra pode conter uma ideia, mas quando existe apenas para transportar um ódio, não passa de um embrulho.

Diz-se por vezes  que homens fortes fazem tempos fáceis, tempos fáceis fazem homens fracos, homens fracos fazem tempos difíceis e tempos difíceis fazem homens fortes. A nossa cultura parece atolada na fase dos tempos fáceis a produzir criaturas patéticas, convencidas de que desconforto é opressão, desacordo é violência, humor é agressão e repetir “genocídio” num palco é sinal de coragem. Não é. É apenas a pose fútil de quem nunca teve de pagar um preço sério pela liberdade que usa para elogiar os seus inimigos.

Os baladeiros diziam que a cantiga era uma arma. Os herdeiros dizem o mesmo com outros penteados. A diferença é que agora a arma, além de sermões, estribilhos e indignação hipócrita, dispara boicotes, censura, narcisismo, desistências e cancelamentos.  Felizmente a pontaria continua péssima. Julgam estar a atingir o espantalho da semana, mas acertam quase sempre na música, no humor, na inteligência e na paciência do público.

De resto, o Commedia a La Carte fica muito melhor com Seinfeld, Herman José, César Mourão, Vasco Palmeirim e outros, do que com a medíocre fauna de flotilheiros amigos do Hamas.