A Europa chamou-lhes extremistas. Depois deu-lhes razão

Durante anos, os partidos tradicionais trataram imigração, fronteiras, identidade e integração como assuntos perigosos. O resultado foi previsível: entregaram-nos à direita radical.

A Europa passou décadas a repetir que era preciso travar a extrema-direita para salvar a democracia. Fez cordões sanitários, policiou palavras, transformou perguntas incómodas em suspeitas morais e tratou uma parte crescente dos seus próprios eleitores como se fossem um problema a corrigir.

O resultado está à vista.

A direita radical não desapareceu. Cresceu. Cresceu em França, na Alemanha, em Itália, nos Países Baixos, na Áustria e em tantos outros países. Cresceu não apenas porque sabe explorar medos ou simplificar problemas complexos — sabe fazê-lo —, mas porque os partidos tradicionais abandonaram o terreno onde esses medos e problemas eram discutidos.

Durante anos, o centro político europeu fingiu que bastava condenar uma preocupação para a fazer desaparecer. Em sociologia não funciona assim. As pessoas não deixam de se preocupar com fronteiras porque lhes chamam xenófobas. Não deixam de reparar na transformação dos seus bairros porque lhes dizem que a diversidade é automaticamente uma virtude. Não deixam de sentir pressão sobre a habitação, os serviços públicos ou os salários porque alguém escreve um comunicado sobre tolerância.

Quando o sistema responde a inquietações reais com superioridade moral, não pacifica a sociedade. Humilha quem as exprime. E quem se sente humilhado procura quem o represente.

A direita radical não caiu do céu

A maior ilusão do debate europeu é a de que a direita radical apareceu subitamente, como uma doença estranha que infectou sociedades antes saudáveis. Não. Ela foi alimentada por falhas reais: incapacidade de integrar, perda de confiança, distância entre elites e cidadãos, fragmentação social, ausência de controlo percebido e a sensação de que decisões irreversíveis são tomadas sem consulta.

Cas Mudde tem razão quando recusa explicar estes partidos apenas através da palavra “extremismo”. Eles encontram apoio porque falam de imigração, segurança, soberania, identidade nacional e desconfiança das elites — temas que existem antes de qualquer partido os explorar.

O erro não está em criticar as soluções da direita radical. Muitas são simplistas, injustas ou impraticáveis. O erro está em fingir que, por serem exploradas pela direita radical, as perguntas deixaram de ser legítimas.

Não deixaram.

A questão é brutalmente simples: se uma democracia liberal não consegue representar preocupações que uma parte relevante do país considera centrais, alguém acabará por representá-las. E esse alguém não será necessariamente moderado, prudente ou responsável.

O mito da diversidade automática

A Europa escolheu acreditar numa ideia infantil: diversidade produz integração. Basta reunir pessoas de origens diferentes no mesmo território, celebrar a pluralidade e esperar que uma comunidade política apareça por milagre.

Não aparece.

Uma sociedade pode ser diversa e coesa. Mas pode também ser diversa, desconfiada e fragmentada. Pode ter dezenas de comunidades, todas com direitos formais, e não possuir uma cultura cívica suficientemente forte para lhes dar um destino comum.

Não basta viver lado a lado. É preciso viver uns com os outros.

E isso exige integração. Não exige que todos tenham a mesma comida, o mesmo apelido, a mesma religião ou a mesma memória colectiva. Mas exige algo mais importante: regras comuns que não sejam negociáveis consoante a origem cultural de cada um.

A igualdade entre homens e mulheres não é uma particularidade ocidental opcional. A liberdade de expressão não deve recuar perante ameaças religiosas. O direito de abandonar uma religião não pode ser relativizado em nome da “sensibilidade cultural”. A lei civil tem de prevalecer sobre qualquer autoridade religiosa. E ninguém deve poder transformar a crítica de ideias em blasfémia punível.

Quem chama a isto “assimilacionismo” está a fugir ao debate. Uma democracia liberal não pode funcionar com códigos jurídicos, morais e políticos paralelos. Uma sociedade que abdica de exigir um núcleo comum deixa de integrar; limita-se a administrar separações.

A esquerda abandonou o seu eleitor

A esquerda europeia nasceu para representar trabalhadores. Falava de salário, renda da casa, serviços públicos, emprego, estabilidade e dignidade material. Hoje, parte dela fala sobretudo de identidades, linguagem, representação simbólica e minorias.

Nada obriga uma esquerda a abandonar a defesa de minorias. Mas há um preço quando ela passa a olhar para o eleitor popular tradicional como um resíduo incómodo de uma época ultrapassada e para uma minoria como a nova clientela política.

O trabalhador que vive num bairro pressionado pela falta de habitação, que vê escolas e centros de saúde sobrecarregados, que sente insegurança ou concorrência salarial, não se tornou automaticamente racista por levantar perguntas. Pode apenas querer que alguém admita que a mudança tem custos e que esses custos não são distribuídos de forma igual.

É fácil celebrar a abertura quando se vive longe das consequências mais intensas da abertura. É fácil defender que não há limites quando não se depende de uma creche pública, de uma urgência hospitalar ou de uma renda que consome metade do salário.

A esquerda descobriu tarde demais que não se pode construir uma política de solidariedade ignorando aqueles a quem se pede solidariedade. E agora espanta-se por encontrar parte da sua antiga base eleitoral do outro lado do espectro político.

O cordão sanitário fez propaganda gratuita

O cordão sanitário parece moralmente nobre. Na prática, pode funcionar como uma campanha publicitária permanente para os partidos que pretende isolar.

Quando todos os outros partidos recusam discutir imigração com franqueza, a direita radical apresenta-se como a única que “tem coragem”. Quando os restantes partidos se recusam a negociar ou a reconhecer qualquer parcela de legitimidade nas preocupações dos seus eleitores, o partido excluído ganha o privilégio de nunca ser responsabilizado pelas dificuldades de governar.

Pode prometer tudo. Pode denunciar tudo. Pode apresentar-se como voz do povo traído. E, porque nunca governa, nunca sofre o desgaste de falhar.

A Alemanha ilustra bem este paradoxo. A Brandmauer procura impedir a normalização política da AfD. Mas, enquanto a AfD permanece fora de qualquer responsabilidade executiva, pode continuar a viver da falha dos outros. Cada crise migratória, cada incapacidade administrativa, cada bairro degradado, cada episódio de violência e cada hesitação das elites transforma-se em material para a sua narrativa.

Não é uma defesa da AfD. É uma constatação: excluir um partido não elimina os milhões de eleitores que votam nele. Apenas lhes confirma a suspeita de que o sistema aceita a democracia enquanto o resultado for o correcto.

Portugal escolheu não perguntar

Portugal é um caso particularmente revelador. Durante anos, promoveu-se uma alteração profunda da política migratória sem um debate nacional proporcional à dimensão da mudança. O país mudou rapidamente, mas o discurso público foi quase sempre conduzido como se se tratasse de uma mera questão técnica, administrativa ou moralmente fechada.

Acordos como a mobilidade da CPLP, alterações legais, mecanismos de regularização e decisões executivas tiveram consequências profundas. Foram legais? Em muitos casos, sim. Estavam dentro das competências do Governo? Sim. Mas essa não é a única pergunta.

Uma medida pode ser legal e, ainda assim, politicamente insuficiente. Pode ser constitucional e, ainda assim, ser tomada sem o grau de debate e legitimidade que uma transformação estrutural exige.

A imigração não é apenas uma estatística anual. Altera cidades, escolas, hospitais, salários, mercados de arrendamento, hábitos culturais e expectativas colectivas. Não é equivalente a uma alteração fiscal que um Governo seguinte pode revogar.

Um país tem o direito — e talvez o dever — de discutir a escala, o ritmo e as condições da imigração. Não para negar a dignidade de quem chega, mas para proteger a coesão de quem já cá vive e de quem quer efectivamente integrar-se.

A pergunta nunca foi se os imigrantes têm direitos. Têm. A pergunta é se um Estado democrático pode abandonar o direito de decidir quem entra, em que número, com que regras e com que capacidade efectiva de integração.

“Recuperar o controlo” não é fascismo

O Brexit mostrou aquilo que muitas elites preferiram não ouvir. “Take back control” não foi apenas um slogan de campanha. Foi a expressão concentrada de uma frustração democrática: a ideia de que decisões fundamentais tinham deixado de estar ao alcance do cidadão comum.

Quem decide? Onde se decide? Quem pode contestar? Quem responde pelas consequências?

Estas perguntas não são fascistas. São democráticas.

O problema da União Europeia não é apenas económico ou institucional. É também político: a distância entre quem decide e quem suporta as consequências. Quando essa distância se torna demasiado grande, a integração é percepcionada como imposição e a soberania torna-se uma palavra mobilizadora.

É possível querer continuar na Europa e, ao mesmo tempo, querer fronteiras controladas, imigração regulada, exigência de integração e maior capacidade de decisão nacional. Itália e a Polónia mostram que o nacional-conservadorismo contemporâneo não é necessariamente sinónimo de ruptura imediata com a União. Pode significar uma Europa menos ingénua, menos burocrática e menos desligada das suas sociedades.

Quem mudou: o eleitor ou o centro?

Há dez anos, pedir fronteiras controladas, imigração limitada, integração exigente e rejeição de comunidades culturais paralelas era frequentemente tratado como extremismo. Hoje, essas posições são defendidas, com diferenças importantes, por partidos que há pouco tempo teriam evitado pronunciá-las.

O que mudou?

Talvez não tenham sido apenas os eleitores. Talvez o centro político tenha avançado tanto numa direcção que começou a chamar radical a qualquer pessoa que permanecesse onde estava.

Uma opinião não se torna automaticamente extremista porque as elites alteraram o seu vocabulário. Defender que uma sociedade precisa de limites, identidade política, confiança e regras comuns não é o mesmo que defender perseguição, supremacia étnica ou autoritarismo. Misturar tudo serve apenas para evitar o debate.

E isso é politicamente perigoso. Porque, quando o centro transforma qualquer dissidência numa ameaça moral, acaba por convencer os dissidentes de que o centro não tem lugar para eles.

A extrema-direita é o sintoma

Se a direita radical cresce, é porque encontrou uma sociedade com fronteiras mal explicadas, integração insuficiente, instituições desacreditadas, cidadãos em ponto de saturação, convencidos de que ninguém lhes pergunta nada e uma elite que confunde desacordo com patologia.

Chamar “extremista” ao eleitor não resolve a crise. Apenas a torna mais profunda.

A Europa não precisa de se render à direita radical. Precisa de deixar de lhe oferecer, de bandeja, todos os temas que deveriam estar no centro do debate democrático: imigração, fronteiras, identidade, integração, soberania, habitação, segurança e confiança social.

A alternativa não é entre ingenuidade multicultural e etnocentrismo primário. A alternativa é entre uma democracia adulta, capaz de discutir os seus limites, ou uma democracia infantilizada, que finge que eles não existem até ao dia em que os eleitores entregam o poder a quem promete resolvê-los pela força.