Sinto que devia começar pela salgalhada em torno dos exames nacionais. Mas, se vamos por aí, também sinto que devia começar a fazer mais exercício, só que entretanto convenci-me de que sentar-me e levantar-me da cadeira algumas vinte vezes por dia conta como mais do que suficientes agachamentos.
Mais importante ainda é o facto de me parecer que este assunto do atraso no lançamento das notas obriga a muito estudo, coisa que, lá está, não me parece nada boa para a saúde, para mais em tempo de férias. Ainda assim, e como não vos quero falhar nas análises certeiras, recorramos ao infalível — e preguiçoso, o que é uma combinação perfeita — tira-teimas.
Quem está do lado que considera os problemas com os exames graves, mas ainda assim não existenciais? Um Ministro da Educação que aparenta ser um indivíduo razoavelmente normal. E quem está do lado que equipara os problemas com os exames ao choque epidemiológico da varíola que dizimou os astecas? A malta a quem o verão está a tornar difícil abraçar o recém-parido “stress térmico”, mas que nem por isso recuperou o fôlego — perdido como que por magia — para entoar o “Free, free, Palestine”.
Mas todos os que equiparam os problemas com os exames ao choque epidemiológico de varíola que dizimou os astecas são a malta a quem o verão está a tornar difícil abraçar o recém-parido “stress térmico”, mas que nem por isso recuperou o fôlego — perdido como que por magia — para entoar o “Free, free, Palestine”? Não.
Mas toda a malta a quem o verão está a tornar difícil abraçar o recém-parido “stress térmico”, mas que nem por isso recuperou o fôlego — perdido como que por magia — para entoar o “Free, free, Palestine” equipara os problemas com os exames ao choque epidemiológico de varíola que dizimou os astecas.
E eu acho que sei a que se deve isto: à frustração de não estar prevista, agora para o verão, nenhuma flotilha para “levar” “ajuda” “humanitária” a Gaza. Não há flotilha, não há “stress térmico”, é natural que uma pessoa fique a arder de raiva (e os vapores da tinta azul de pintar cabelo também não devem ajudar. Nem as argolas no nariz, que devem dificultar o respirar fundo). Como se já não bastasse este atraso nos resultados dos exames ser culpa do Ministério da Educação, quando toda a gente sabe que provocar atrasos em resultados de exames é um privilégio exclusivo de professores em greve. Estamos perante um caso claro de usurpação de funções não desempenhadas.
Ainda a propósito de flotilhas e boas personagens, e se querem heróicas aventuras pelo Mediterrâneo quase tão saudosas como as de Mariana Mortágua, têm a Odisseia de Christopher Nolan no cinema. Atenção, não é nenhum Scary Movie 6, mas se buscam um pouco de relax vão gostar. E ainda se aprende um bocadinho de história da Grécia. Por exemplo, depois de uma pessoa se familiarizar com as encrencas em que a Helena de Tróia, a Clitemnestra, a Circe, a Calipso e as Sereias conseguem meter um homem, fica muito mais clara a lógica de uma ilha como Mykonos.
Agora, odisseia com personagens ainda mais fascinantes do que a Odisseia de Nolan é a Odisseia de Neves, featuring o Ministro da Administração Interna e o seu fiel empreiteiro. O que soa um bocadinho a Dom Quixote e o seu fiel escudeiro, agora que falo nisso. Só que enquanto o Dom Quixote, ao olhar para os montes, via moinhos, Luís Neves, quando olha para um monte, já só lá vê uma piscina. Que, de facto, não passa de um tanque armado em bom, uma vez que uma pessoa só não lava lá a roupa à mão com Omo se estiver, também ela, armada em boa.
A verdade é que costuma dizer-se que a realidade supera a ficção, mas neste caso realidade e ficção estão a níveis muito idênticos: na Odisseia de Nolan, gerou polémica a Helena de Tróia negra; na Odisseia de Neves, tudo é polémico e muitíssimo obscuro.
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