Há também relatos de falhas no acesso à plataforma, falta de folhas de continuação e de docentes que nunca chegaram, até ao momento, a receber itens para classificar
A poucas horas do fim do prazo para a classificação dos exames nacionais do Ensino Secundário, ainda há relatos de problemas no processo. Há professores que dizem ter sido convocados nas últimas horas e docentes que continuam a receber itens para classificar. Há ainda relatos de dificuldades de acesso à plataforma. A denúncia é feita pelo movimento SOS Escola Pública.
“Há relatos de colegas que estão a receber itens para corrigir. Um colega ontem [segunda-feira] relatou que recebeu mais 71 itens para classificar. Ou seja, tem 24 horas para o fazer”, relata à CNN Portugal Goreti Costa, representante do movimento. “Além disso, a plataforma tem estado intermitente desde ontem. Não é um processo estável.”
Esta última informação é corroborada pelo movimento Missão Escola Pública, que, à hora de almoço, relatou que a plataforma estava em baixo.
Goreti Costa, do SOS Escola Pública, conta ainda que “há colegas que estão a reportar que não têm as folhas de continuação”. “E depois há diferentes formas de atuar dos supervisores: uns dizem para classificar como está, outros dizem para finalizar o processo. Finalizar o processo significa que os itens concluídos vão ser somados à nota do aluno. Os itens que não estão completos ficam por corrigir e calculo que sejam distribuídos por outro professor classificador que tenha acesso à resposta completa”, acrescenta.
Há também professores que ainda não receberam qualquer item para corrigir. “E há muitos colegas a relatarem falta de respostas por parte do Júri Nacional de Exames. As pessoas colocam na plataforma a informação sobre o erro e não recebem qualquer tipo de respostas. Além disso, ontem [segunda-feira], professores classificadores do 9.º ano receberam itens para corrigir do secundário”, revela ainda.
O movimento SOS Escola Pública continua, em parceria com a plataforma METAPROF, a monitorizar o processo. A representante do movimento conta que passou “a manhã a atender telefonemas de colegas a relatarem problemas” no processo de classificação dos exames nacionais. “Não somos contra os erros, nem contra a digitalização. Estamos contra processos que não foram devidamente testados. Se tinha sido testado em dois ou três momentos durante o ano letivo, com uma disciplina, depois com outra, provavelmente não havia estas falhas”, defende.
Goreti Costa fala em falta de rigor “em todo o processo” dos exames nacionais este ano. É professora de espanhol e revela que, nas provas orais, havia professores de português a classificar os alunos de espanhol: “O que é que um professor de português sabe de gramática espanhola?”
A representante do movimento SOS Escola Pública atribui estas falhas à extinção dos vários organismos do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI). “Retiraram as pessoas que estavam nos organismos e colocaram-nas nas escolas para resolver o problema de falta de professores. Mas essas pessoas tinham o conhecimento técnico e científico para processos como este. E nem sequer houve poupança de dinheiro. O dinheiro que estava investido em pessoas está agora a ser investido em empresas privadas. Foram buscar empresas privadas que não têm conhecimento nem técnico nem científico”, acusa.
“E o que me incomoda verdadeiramente é falta de decoro com que se atiram as responsabilidades sempre para os mesmos”, remata, referindo-se ao ministro da Educação, Fernando Alexandre, que tem apontado falhas às escolas e aos professores.
O processo de aplicação dos exames nacionais está envolto em polémica desde o início. Logo no primeiro dia, foi a questão do exame de português, que era semelhante à de um manual de preparação para os exames editado pelo grupo Leya. Depois o processo de digitalização tem vindo a apresentar falhas sucessivas, levando Ministério a esticar o prazo para os professores classificadores fazerem o seu trabalho e a adiar a afixação das notas.
O MECI anunciou também, já esta terça-feira, o adiamento em dois dias do prazo para inscrever os alunos do 10.º e 12.º anos, dado que as notas das provas nacionais serão divulgadas mais tarde.