"A proteção da vida privada não desaparece à porta dos tribunais"

Antes de falar sobre os pontos que constam na acusação, José Sócrates disse querer esclarecer alguns pontos: "Considero que a ideia de jogo limpo é a ideia máxima que deve presidir à nossa doutrina penal".

"A renúncia dos meus advogados foi decidida por eles", esclareceu José Sócrates, que se apresentou hoje sem advogado, considerando "uma gravíssima injustiça" sugerir que as sucessivas renúncias foram ideia sua. "Se acham que isto foi tudo preparado, encenado, estão enganados", acrescentou.

Durante cerca de meia hora, além de repetir aquilo que foi considerado como lapso de escrita na acusação do Ministério Público, a propósito do crime de corrupção para ato ilícito - que constava na acusação como ato lícito -, de repetir que considera injusta a sua pronúncia para julgamento, o ex-primeiro-ministro voltou ainda a falar sobre o facto de o ex-presidente do Banco Espírito Santo (BES) Ricardo Salgado continuar em julgamento mesmo depois do diagnóstico da doença de Alzheimer.

José Sócrates quis ainda apontar o dedo ao tribunal e ao Ministério Público a propósito da inquirição de Célia Tavares, a 18 de junho, tendo considerado que a sessão "foi transformada em matéria de exposição e de julgamento público".

"Eu ouvi o interrogatório com um sentimento de repugnância. A palavra é náusea", disse o ex-primeiro-ministro, que falou ainda num "assassinato de caráter" relativamente a Célia Tavares, que disse ter tido uma relação com José Sócrates entre 2012 e 2014, confirmou ter recebido envelopes com dinheiro, entregues pelo motorista do ex-primeiro-ministro, João Perna, também arguido neste processo.

Para demonstrar que "a proteção da vida privada não desaparece à porta dos tribunais", José Sócrates decidiu ainda fazer um resumo do filme alemão "A Vida dos Outros": "Qual é o paralelo, perguntam. Na RDA, como aqui, o Estado acha que pode possuir a vida privada das pessoas e usá-la quando for mais conveniente para ferir as pessoas. Passou a possuir a intimidade dos outros e usou-a para me atingir pessoalmente e para atingir a memória que me é querida de uma relação privada. O problema é que o Estado passe a considerar a sua própria intimidade".

O antigo primeiro-ministro socialista é um dos 21 arguidos deste processo e responde, entre outros crimes, por três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.

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