A reverência devida aos Avós

Pertence a uma civilização decente saber olhar para os velhos. Um povo pode honrar pedras antigas, conservar os nomes dos reis, guardar manuscritos em silêncio e ainda assim falhar diante do rosto vivo onde o tempo escreveu a sua escritura mais difícil. O velho que atravessa devagar uma sala, a Avó que regressa à mesma história, o Avô cujas mãos perderam o antigo domínio: todos se erguem diante de nós como uma pergunta, mas a resposta que lhes damos raramente se pronuncia, revelando-se na nossa paciência, na nossa impaciência, na medida da atenção que estamos dispostos a conceder. Ser velho é por definição um milagre, dizia-o o cardeal português Tolentino de Mendonça. A frase possui uma severidade que o nosso tempo talvez receba com desconforto, habituado como está a admirar o que começa e a negligenciar o que perdura. A velhice não se improvisa: alcança-se através do trabalho constante dos dias, das doenças vencidas, do luto assimilado, do amor praticado depois de passado o seu primeiro esplendor. Um rosto envelhecido nunca é apenas envelhecido: é o vestígio visível da perseverança, é uma vida humana que não se retirou perante a passagem do tempo.

Cícero, ao escrever sobre a velhice, quis libertá-la da acusação de inutilidade. Viu nela conselho, gravidade, uma certa soberania da alma. Talvez a sua confiança fosse mais nobre do que a vida muitas vezes permite: a dor não desaparece porque o pensamento a ordenou com beleza. Ainda assim, compreendeu aquilo que corremos o risco de esquecer: uma pessoa não perde valor humano quando a utilidade diminui. Há formas de conhecimento que chegam apenas depois de uma longa exposição à alegria e à ruína. Os jovens possuem esperança em abundância, os velhos conheceram o seu custo. Os Avós ensinam isto sem doutrina. A sua sabedoria entrou muitas vezes nas nossas vidas como costume, quase como clima: uma cadeira no seu lugar fiel, uma voz familiar vinda da cozinha, a pergunta sobre se já tínhamos comido, a história que um dia julgámos repetida e que agora daríamos tudo para ouvir de novo. Os Avós amam pela continuidade, tornando o afeto doméstico e certo e, por isso mesmo, quase invisível. Só depois da sua ausência se compreende que certos gestos ordinários eram, na verdade, a mais bela arquitetura de um mundo.

Para quem os perdeu, o Dia dos Avós possui uma ternura estranha. Reúne os vivos e os mortos na mesma sala da memória, recordam-se as mãos, o andar, as pequenas frases, o cheiro de uma casa, a paciência que parecia inesgotável porque a infância supõe que o amor pertence à natureza. Depois, o tempo retira os corpos e deixa os dons. O que fica connosco não é consolo no sentido fácil: é a única herança digna desse nome. O amor deles continua como uma forma de ver, uma disciplina secreta do coração. Não há, porém, dignidade na cegueira sentimental. A velhice pode ser dura, por vezes cruelmente dura, pode trazer dependência, solidão, humilhação, o lento estreitamento do mundo. Chamar-lhe milagre nunca deveria significar enfeitar o sofrimento com palavras suaves: significa reconhecer que, mesmo na fragilidade, subsiste uma exigência que impõe reverência. Os velhos atravessaram mais da noite humana do que nós e, por conseguinte, merecem mais do que afeto cerimonial, mais do que gratidão anual, mais do que uma bondade apressada praticada no limite da inconveniência. Uma sociedade incapaz de honrar os velhos compreendeu mal a própria vida: confundiu força com plenitude e velocidade com sentido. Os idosos recordam-nos que a existência não se justifica apenas pela produção, pelo encanto ou pela novidade, mas que uma vida se torna inteira pela duração, pela fidelidade, pelo misterioso amadurecimento através do qual a experiência se converte em misericórdia.

Amar os Avós depois de eles partirem é aceitar que o amor possui uma forma para além da presença. Torna-se lembrança, conduta, gratidão e, quase sempre, um silêncio que nos acompanha. Olhar os velhos com ternura é também honrar aqueles que perdemos, porque em cada rosto idoso há qualquer coisa deles: a mesma proximidade da partida, a mesma majestade de quem permaneceu, o mesmo apelo discreto a ser visto antes que o tempo se feche. Ser velho é também um milagre porque chegar nunca esteve garantido. Aqueles que alcançam essa margem longínqua transportam mais do que anos: transportam a prova de que um ser humano pode ser ferido pelo tempo e ainda assim tornar-se digno de veneração. Neste dia, a homenagem mais alta não é o grande discurso: é a atenção, é o antigo ato de escutar, é o amor, enfim tornado paciente.