A dúvida é simples: como é que se compete com um motorista da Uber que pode estar a ganhar menos do que o salário mínimo para adquirir e manter o seu próprio carro, limpá-lo e prestar todos os outros serviços?
Nada é mais importante para a Tesla do que o ambicioso plano para os "robotaxis" autónomos. Mas, mesmo com a organização do evento do serviço Cybercab, desta quinta-feira, ainda tem um longo caminho a percorrer para alcançar a concorrência num setor onde poucos conseguiram obter lucros.
Não está muito claro o que, exatamente, a Tesla vai lançar, esta quinta-feira, e a empresa não está a revelar muito mais além dos convites para o evento privado. Mas foi há dois anos, num evento glamoroso de Hollywood, que o público teve a oportunidade de ver pela primeira vez o Cybercab, num evento glamoroso em Hollywood e , desde então , têm-se visto protótipos em cidades por toda a América .
No entanto, mesmo que a empresa consiga realizar o feito tecnológico que seria a implementação do serviço completo do Cybercab, poderá deparar-se com um problema muito maior: os lucros.
A Tesla não respondeu aos pedidos de comentários.
Aquém das expectativas
A empresa tem vindo a operar um serviço de robotaxis com o seu SUV Model Y desde junho de 2025, por vezes com um funcionário da empresa ao volante. Mais recentemente, alguns dos seus táxis robóticos têm circulado sem condutor.
Pode dizer-se que o CEO da Tesla, Elon Musk, apostou o futuro da empresa no sucesso do Cybercab. No ano passado, previu que o serviço de táxis robóticos da empresa estaria disponível para metade da população norte-americana até 2025 e, em janeiro, afirmou aos investidores que a empresa acabará por “fabricar, por ano, um número de Cybercabs várias vezes superior ao de todos os nossos outros veículos juntos”.
Contudo, a Tesla só oferece viagens sem supervisão em seis cidades do Texas e da Flórida, e os investidores podem ter-se tornado mais céticos em relação às previsões confiantes de Musk.
As ações da Tesla (TSLA) registaram uma subida de apenas 7% nos últimos seis meses e encerraram a sessão de quarta-feira com uma queda superior a 20% no acumulado do ano.
“Investir é apostar no futuro”, afirma Bryant Walker Smith, especialista em veículos autónomos e investigador associado do Centro para a Internet e a Sociedade da Faculdade de Direito de Stanford. “A Tesla é muito boa a vender esse futuro. Mas, pelo menos no que diz respeito à condução autónoma em qualquer lugar e a qualquer hora, a empresa tem tido muito menos sucesso na sua concretização.”
E se a Tesla quiser ter sucesso, ainda tem um longo caminho a percorrer para ultrapassar um rival fundamental: a Waymo, o serviço de veículos autónomos da Alphabet, empresa-mãe da Google.
A Waymo anunciou em março que estava a realizar até 500.000 viagens pagas por semana nos seus veículos sem condutor e que esse número tinha duplicado no ano anterior. A empresa lançou o serviço em mais três cidades - Denver, San Diego e Tampa - na terça-feira, elevando para 14 o número de cidades onde disponibiliza viagens sem condutor. E a empresa afirmou que, até março, tinha realizado 220 milhões de milhas (cerca de 354 milhões de quilómetros) de viagens sem condutor para os clientes desde o seu início, em 2018.
A Tesla, por outro lado, referiu em julho que tinha acumulado 380.000 milhas de viagens (cerca de 611 milhões de quilómetros) sem supervisão nos seus robotáxis, o que representa menos de 0,2% do total declarado pela Waymo.
Rentabilidade e desafios regulamentares
Mesmo que a Tesla lance o serviço Cybercab a nível nacional, nem sequer é certo que este venha a ser rentável. O desafio é menos tecnológico e mais económico, aponta Smith.
“Se não tivermos em conta os custos de desenvolvimento e de hardware, ficam os custos operacionais correntes”, afirma. “Como é que se compete com um motorista da Uber que pode estar a ganhar menos do que o salário mínimo para adquirir e manter o seu próprio carro, limpá-lo e prestar todos os outros serviços pelos quais a Waymo e a Tesla poderão, em última análise, ter de pagar dinheiro a pessoas reais?”
Também poderá revelar-se difícil convencer os americanos a abdicarem dos carros particulares e a utilizarem apenas serviços de partilha de boleias, sejam estes conduzidos por pessoas ou sem condutor, afirmou Smith.
E mesmo para aqueles que decidirem adquirir apenas viagens, em vez de um carro próprio, “conquistar quota de mercado num mercado de serviços de transporte já saturado” será um desafio, realça Anthony Townsend, investigador associado sénior da Cornell Tech University e autor de “Ghost Road: Beyond the Driverless Car”.
Até ao momento, nem a Waymo nem o serviço de robotáxis da Tesla divulgaram resultados financeiros.
A Waymo afirmou que vê um “caminho” para a rentabilidade, mas não indicou quando é que isso será alcançado. A Alphabet inclui a Waymo no seu segmento “Other Bets”, que registou um prejuízo de 3,9 mil milhões de dólares no primeiro semestre deste ano, com receitas de apenas 793 milhões de dólares, o que representa uma descida em relação aos 823 milhões de dólares do ano anterior.
A Tesla insiste que terá uma vantagem em termos de custos face a concorrentes como a Waymo, uma vez que os seus automóveis são mais baratos. Utiliza apenas câmaras para orientar o carro, em vez dos lasers e do radar que fazem parte do sistema de condução da Waymo. Mas também tem enfrentado muito mais dificuldades para obter a aprovação regulamentar necessária para expandir o serviço. Qualquer empresa de veículos autónomos enfrenta o desafio de um labirinto regulamentar, lembra Townsend.
“Também ainda não é claro qual das empresas tem o modelo de negócio mais sólido”, culmina.