"Acima dos ciclos políticos": o que Portugal continua a adiar

Portugal tem, oficialmente, uma nova prioridade nacional acima dos ciclos políticos: a  redução do risco sísmico. Foi o Presidente da República quem o disse, depois de reunir em  Belém especialistas em engenharia civil, geologia e sismologia, defendendo políticas públicas  “coordenadas, continuadas e avaliáveis no terreno”. A frase é solene, o objetivo é justo e a  intenção é, provavelmente, sincera. Mas há qualquer coisa de incomodamente familiar nesta  expressão. Porque, na verdade, quase tudo o que é estrutural em Portugal já foi, em algum  momento, apresentado como devendo estar “acima dos ciclos políticos”.

O risco sísmico é apenas o exemplo mais recente de um padrão nacional muito mais antigo:  identificamos o problema, reconhecemos a sua gravidade, produzimos um diagnóstico  técnico impecável e, depois, deixamos que a urgência se dissolva no calendário eleitoral  seguinte. Não é falta de conhecimento que nos falta. É continuidade.

Veja-se o próprio caso sísmico. A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões  propôs a criação de um fundo público de resseguro há mais de um ano. A proposta ficou  parada. Apenas cerca de um quinto das habitações em Portugal tem cobertura sísmica, e o  crescimento desse número tem sido residual mesmo depois de sismos que deveriam ter  servido de aviso. Sabemos exatamente o que fazer. Simplesmente não o fazemos, ou fazemo lo tarde demais, e sempre como reação a um susto, nunca como antecipação de um risco.

O mesmo padrão repete-se noutras frentes. A revisão do Regime Jurídico das Instituições de  Ensino Superior é prometida há anos, sucessivamente adiada, sempre urgente e nunca  prioritária. A reforma da ação social no ensino superior avança, mas aos solavancos,  dependente de quem está no Governo em cada momento. A modernização da administração  pública, a estabilidade fiscal necessária para atrair investimento produtivo, a execução  atempada dos fundos europeus, a preparação do país para fenómenos climáticos cada vez  mais frequentes: todos estes são, ou deveriam ser, compromissos de Estado. Todos, em algum  momento, foram apelidados de prioridade nacional. E, no entanto, continuam reféns do ciclo  eleitoral seguinte.

Há uma razão estrutural para isto, e não é apenas má vontade política. Os incentivos eleitorais  favorecem o visível e o imediato: uma obra inaugurada, uma medida com efeito no rendimento disponível do mês seguinte, um anúncio que caiba num título de jornal antes das  eleições. Um fundo de resseguro sísmico que nunca ninguém vê em funcionamento, uma  reforma legislativa cujos efeitos só se sentirão daqui a uma década, uma política de retenção  de talento que só dará frutos com duas ou três legislaturas de continuidade: nada disto rende  capital político a curto prazo. E é precisamente por isso que fica sempre para depois.

O problema não é a ausência de diagnósticos. Portugal já não sofre de falta de estudos,  comissões técnicas ou relatórios bem fundamentados sobre o que precisa de ser feito. Sofre  de incapacidade de transformar esse conhecimento em compromissos que sobrevivam a uma  mudança de governo. Cada executivo chega, revê prioridades, reformula estratégias, e o país  recomeça, outra vez, a contar o tempo a partir de zero.

O custo desta intermitência é cumulativo e silencioso. Não aparece de imediato nas  sondagens nem provoca manifestações. Mas mede-se em edifícios que continuam por  reforçar, em instituições de ensino superior presas a um quadro legal desatualizado, em  talento que emigra porque as condições estruturais nunca chegam a mudar, em infraestruturas  críticas que só recebem atenção depois da catástrofe. É a fatura que uma geração inteira paga  por decisões que nunca ninguém teve coragem, ou tempo, de tornar permanentes.

Se há algo que distingue um Estado maduro de um Estado em permanente recomeço é  precisamente a capacidade de manter um punhado de compromissos acima da disputa  partidária: não vinte prioridades, que rapidamente deixam de o ser, mas as poucas que  realmente definem se um país está, ou não, preparado para o futuro. Isso exige um exercício raro em democracias com ciclos curtos: concordar, entre adversários, sobre o que não pode  esperar.

A questão que fica não é se o risco sísmico deve ser tratado como prioridade nacional. Deve,  sem dúvida. A questão é se Portugal é capaz de tratar qualquer coisa dessa forma durante  mais do que uma legislatura. Porque continuar a repetir a fórmula “acima dos ciclos  políticos” sem nunca a cumprir não é ambição. É apenas mais um adiamento com um nome  bonito.