Alive: Foo Fighters dão "lição de história", Skunk Anansie de moralidade

Há nove anos que os Foo Fighters não agraciavam Portugal com a sua presença. A espera chegou ao fim no último concerto da digressão europeia dos norte-americanos, os mais aguardados do segundo dia do NOS Alive - e o primeiro com lotação esgotada. Se o grupo encabeçado por Dave Grohl trouxe uma "lição de história" aos festivaleiros, os Skunk Anansie apostaram na moralidade e na política, sem descurar na irreverência. Apesar da qualidade a que nos habituaram, Wolf Alice não convenceram miúdos e graúdos à beira mar plantados na expectativa do reencontro com os veteranos do rock, que se esticou além das duas horas e 15 minutos previstas. Afinal, a saudade era mútua. 

"Estão prontos? Esta é a última noite da nossa digressão europeia, e que sítio para a terminar. [...] Passou muito tempo",  admitiu Dave Grohl, em jeito de prefácio do que estava por vir.

Durante cerca de duas horas e meia, não houve vivalma que não berrasse, pulasse ou cantasse - ou tudo ao mesmo tempo. A própria banda comprovou que os 30 são os novos 20, tendo levado os festivaleiros numa viagem aos primórdios da sua formação, em 1994. 

"Ninguém para; vamos, vamos, vamos", gritou Grohl, como viria a fazer ao longo de todo o concerto, pautado por temas como "The Pretender", "Times Like These" e "Best of You". Não houve, aliás, qualquer espaço para o novo álbum, "Your Favorite Toy", ou não fosse isto uma "lição de história". Ao introduzir cada elemento, que interpretaram canções dos grupos a que pertenceram antes do advento dos Foo Fighters, fotografias de outros tempos eram projetadas no ecrã, evidenciando que os rapazinhos de outrora mantêm a pedalada da juventude. Indiscutível foi ainda o sorriso estampado no rosto de Pat Smear que, suspeitamos, refletia tantos outros naquele recinto à pinha.

Se "Marigold" lembrou a vinda de Grohl e Smear, ainda nos Nirvana, a Portugal, em 1993, "Aurora" serviu de homenagem ao baterista Taylor Hawkins, que morreu na sequência de uma overdose, em março de 2022. "Interpretamos esta canção todas as noites. Esta canção é para o Taylor Hawkins", introduziu o vocalista. Por falar em amigos, "Big Me" foi dedicada a uma nova amizade travada por Grohl naquela mesma noite, de seu nome Alessandro [possivelmente Alexandre, até], segundo conseguimos perceber.

Mas, porque tudo o que é bom acaba depressa, duas horas e meia voaram. "Adorava ficar aqui a tocar para vocês o resto da noite, mas a Zara Larsson vai atuar às 1h15. Vai ser a nossa dance party", brincou, ainda que não tivesse aparente vontade de deixar o palco. "Muito obrigado por esta noite. Foi lindo", sublinhou.

Antes, Skunk Anansie não pouparam na pujança e fizeram questão de mostrar desde o início ao que vinham, com "This Means War". A guerra, essa, chegou ao clímax com "God Loves Only You", cuja introdução despejou política, moralidade e direitos no palco principal. De facto, Skin não se coibiu nas críticas aos "novos cristãos", que perseguem quem não vive "como eles querem, porque foi isso que Deus lhes disse para fazer, certo?", lançou.

"No final, ou devo dizer no início, atacam as mulheres e os direitos das mulheres porque, afinal de contas, trata-se de obter poder, independentemente de como tenham de o fazer. Escrevemos esta canção para todas as pessoas que têm de defender perfeitos desconhecidos, porque acreditam que esses perfeitos desconhecidos merecem o mesmo amor, liberdade, direitos e igualdade de toda a gente. É isso o que significa realmente ser religioso. A religião deveria de ser sobre amor, não guerra", argumentou a vocalista, munida com uma suástica rasurada na t-shirt e sangue nas gengivas.

Os britânicos não deixaram de lado hinos como "Because of You" e "Hedonism (Just Because You Feel Good)", ao quais a multidão respondeu em uníssono, sem surpresas. "Adoramos estar em Portugal. Há 32 anos que vimos cá e vocês continuam fantásticos", garantiu Skin, antes de mergulhar no mar de gente, enquanto "I Can Dream" ecoava.

Wolf Alice tiveram a ingrata tarefa de anteceder o grupo mais aguardado do dia e, infelizmente, notou-se. No entanto, não foi por falta de esforço do baixista Theo Ellis e da vocalista Ellie Rowsell, isso é certo.

"Estão entusiasmados para ver Foo Fighters? Bem, mas nós somos os Wolf Alice e estamos aqui agora, por isso vamos fazer um exercício. Sintam o amor. Se vieram com os vossos melhores amigos, abracem-nos", atiçou Theo Ellis.

No ativo desde 2010, o quarteto londrino composto também por Joel Amey e Joff Oddie regressou a Portugal com "The Clearing" (2025), mas a mescla de baladas, da garra do rock e do mainstream pareceu não convencer. Aliás, nem "Lisbon" [Lisboa], do disco "My Love Is Cool" (2015), conseguiu a proeza de despertar os festivaleiros, muitos dos quais mais preocupados em terminar as suas refeições, sentados no relvado. Depois de "Don't Delete the Kisses", a banda apressou-se a deixar o palco, sem juras de amor, ao contrário do que dita a canção.

Não podemos despedir-nos sem mencionar The Warning, o trio de irmãs de Monterrei, no México, que solidificou que o rock and roll no feminino está vivo e recomenda-se. Na despedida da digressão europeia, a banda formada em 2013 por Daniela, Paulina e Alejandra Villarreal trouxe ao palco principal do NOS Alive temas dos aclamados "ERROR" (2022) e "Keep Me Fed" (2024), num cheirinho do álbum que lançarão ainda este ano. Alternando entre o espanhol e o inglês, as jovens arrancaram palmas, coros e gritos aos festivaleiros, muitos dos quais já a postos para Foo Fighters, ainda que o sol continuasse bem alto.

"É a nossa primeira vez cá [no NOS Alive], mas espero que não seja a última", introduziu a vocalista e guitarrista Dany Villarreal que, ao cair do pano, sublinhou não ser "um adeus, mas um até já".

O último dia do festival, que acontece já este sábado, será marcado pelo regresso dos Buraka Som Sistema. Don West, Teddy Swims, Lorde e Florence + The Machine também pisarão o palco principal e, no palco Heineken, o destaque vai para Noiserv, Pixies e Alessi Rose.

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 Daniela Filipe | 08:10 - 10/07/2026