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Quando o presidente Donald Trump sacudiu o cenário político dos Estados Unidos em 2016, sua ascensão foi frequentemente descrita como "populista". E ele certamente desempenhou o papel de um rebelde, desafiando um sistema político falido em nome dos americanos comuns.

Dez anos depois, no entanto, Trump abandonou quase completamente esse personagem.

De fato, em muitos aspectos, ele se tornou o antipopulista.

E ele tem os números das pesquisas para provar isso.

Pesquisas realizadas este mês pela Reuters e pela Ipsos mostraram que o índice de aprovação de Trump caiu para o nível mais baixo de todos os tempos: 33%. Isso significa que apenas um em cada três americanos aprova seu desempenho no cargo.

Mas talvez o dado mais revelador seja a queda contínua na porcentagem daqueles que aprovam sua gestão "fortemente". Esse índice vem caindo há algum tempo. E, na pesquisa mais recente, situa-se em apenas 13% de todos os americanos e 35% dos republicanos.

Isso significa que um a cada oito americanos acham excelente o que Trump está fazendo — um número notavelmente pequeno de apoiadores verdadeiramente devotos. E, apesar do suposto controle férreo que o presidente exerce sobre sua base, quase dois terços dos republicanos não demonstram grande entusiasmo.

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Como isso acontece?

No caso de Trump, isso acontece ao ignorar quase totalmente a opinião pública em favor de seus próprios desejos e até mesmo de seu enriquecimento pessoal, uma tendência que ele parece disposto a manter mesmo na reta final das eleições de meio de mandato, momento em que muitos políticos ficam muito alertas ao que agrada aos eleitores.

A ordem de Trump de impor tarifas de 50% ao Canadá é um exemplo disso.

Uma pesquisa da CNN realizada nesta primavera mostrou que 65% dos americanos afirmaram que as tarifas de Trump tiveram um impacto negativo em suas finanças pessoais. E mesmo quando as tarifas, de modo geral, não eram tão impopulares no ano passado, as taxas iniciais impostas ao Canadá já eram muito malvistas; entre 60% e 64% dos americanos se opuseram a elas desde o início.

Então, o que Trump faz a 70 dias das eleições de meio de mandato? Abraça uma guerra comercial com o Canadá, naturalmente. Na última terça-feira (25), Trump chegou a ameaçar mudar o nome do Lago Ontário para Lago América como parte da disputa — ecoando sua suposta intenção de renomear o Golfo do México para Golfo da América. Cerca de dois terços dos americanos também se opuseram a essa última mudança.

O vice-presidente JD Vance entrou na onda na segunda-feira ao rotular erroneamente o Canadá como um "estado" e chamar isso de "ato falho" — evocando as ameaças de Trump de transformar o Canadá no 51º estado. E por que não? No caso, segundo uma pesquisa da Faculdade de Direito da Universidade Marquette, realizada no ano passado, 75% dos americanos se opunham a ideia.

Os comentários positivos recentes de Trump sobre centros de dados também são intrigantes para um suposto populista.

Talvez não haja questão populista mais clara no momento do que a oposição aos centros de dados. Até 7 em cada 10 americanos se opõem à presença deles em suas comunidades, vendo-os em grande parte como algo que empresas de tecnologia poderosas estão impondo a eles.

Mas, mesmo enquanto seus colegas republicanos se voltam fortemente contra eles, Trump os abraça. Ele chama os centros de dados de "grandes, fortes, ousados ​​e máquinas de fazer dinheiro" e de "vacas leiteiras" (fontes de lucro garantido). Ele disse que as comunidades deveriam recebê-los bem e elogiou sua arquitetura, descrevendo-os como "os edifícios mais incríveis que já vi". Ele até criticou republicanos por apoiarem moratórias que proíbem a construção de centros de dados.

Mas esses não são, de forma alguma, os únicos exemplos do antipopulismo de Trump:

  • Pesquisas mostram que 6 em cada 10 americanos dizem que Trump "foi longe demais" ao alterar instituições como o Kennedy Center, e apenas 9% dos americanos acham apropriado dar o nome de Trump a prédios públicos enquanto ele ainda é presidente. No entanto, o líder americano está tentando novamente colocar seu nome no Kennedy Center.
  • Ele continua concentrando-se intensamente em suas reformas em Washington, D.C. — muitas vezes mostrando-as para as câmeras, como fez na segunda-feira com o novo heliponto da Casa Branca. Isso ocorre apesar de uma pesquisa do Washington Post do mês passado mostrar que os americanos viam esses tipos de projeto de forma negativa, numa proporção de dois para um.
  • A guerra com o Irã claramente não era o que os americanos queriam desde o início; eles se opunham à intervenção numa proporção de dois para um em pesquisas realizadas antes do conflito. E a suposta postura antiguerra de Trump era um elemento central de seu populismo. No entanto, seis meses após iniciar essa guerra, Trump agora ameaça prolongar o conflito até as eleições de meio de mandato.
  • Ele manteve, neste mês, seus ataques às vacinas — desprovidos de embasamento factual —, mesmo com pesquisas da KFF mostrando que seis em cada dez americanos reprovam a forma como o governo tem lidado com a questão.
  • Até poucas semanas atrás, Trump parecia não querer abrir mão de seu fundo de US$ 1,7 bilhão contra a "instrumentalização política" [do sistema de justiça], recursos que, segundo a Casa Branca, poderiam ser destinados a réus envolvidos na violência de 6 de janeiro de 2021. Isso ocorre apesar de uma pesquisa do ano passado mostrar que 83% dos americanos se opunham à decisão de Trump de perdoar essas pessoas — quanto mais de pagá-las.

O problema na maioria desses exemplos não é apenas o fato de Trump estar concentrado em seus projetos pessoais impopulares. O problema é que ele foca neles em detrimento — e muitas vezes à custa — do que as pessoas realmente desejam: um foco total em questões econômicas e na acessibilidade de custos.

Em vez disso, ele fala repetidamente sobre como estamos vivendo uma "era de ouro" econômica, embora apenas 4% dos americanos entrevistados na nova pesquisa Reuters-Ipsos tenham classificado a economia como "muito forte".

E as pessoas perceberam isso; pesquisas mostram que uma ampla maioria acredita que ele está negligenciando questões cruciais, como a inflação.

Tudo isso levanta a questão: o que os eleitores fazem quando um presidente praticamente abandona até mesmo a aparência de interesse em atender aos desejos da população — e, em vez disso, realiza uma série de ações que ele próprio deseja, mas que deixam desconfortáveis ​​até mesmo grandes segmentos de sua base de apoio?

Isso prepara o terreno para um teste notável de lealdade partidária nas eleições primárias de 2026.