Veja como ajudar seu filho a passar no vestibular - 15/08/2026 - Educação - Folha

Aos domingos, Ana Júlia Saint Martin, 17, tenta deixar de lado a rotina que ocupa boa parte dos outros dias da semana. Aluna do terceiro ano do ensino médio, entre aulas e estudos individuais, ela se prepara para os vestibulares da USP e da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), com o objetivo de entrar no curso de direito. Nos fins de semana, ainda há espaço para simulados e provas, além do descanso necessário.

Em meio à rotina de estudo, os pais se tornaram parte do processo. Mas o apoio, na família, não significa perguntar sempre se ela já estudou ou cobrar mais horas de dedicação. Quando percebem que a filha está cansada, Camila Saint Martin, 45, e Darlan Oliveira, 51, fazem o contrário e recomendam que ela desacelere.

"Eles sempre me incentivaram nos estudos, mas também sempre incentivaram que eu me cuidasse", conta Ana Júlia. "Quando eles percebem que eu estou muito cansada, falam: ‘Filha, desacelera, tira um tempo para você’."

A experiência da estudante ajuda a ilustrar um dos desafios das famílias na preparação para o vestibular, que é encontrar um ponto de equilíbrio entre participar da rotina dos filhos e não aumentar a pressão de um período já marcado por expectativas, insegurança e autocobrança.

O apoio da família pode influenciar a forma como o jovem atravessa essa etapa. O desafio é oferecer suporte sem controlar, estabelecer limites sem invadir e incentivar os estudos sem fazer da aprovação uma obrigação.

"O apoio da família é determinante no desempenho do vestibulando", afirma o psicoterapeuta e orientador profissional Leo Fraiman. Segundo ele, a questão é encontrar o equilíbrio. "Como é que eu ajudo meu filho a se sentir seguro, incentivado, sem me omitir e sem invadir?"

A pressão nem sempre aparece em discussões ou cobranças explícitas. Pode estar em perguntas repetidas todos os dias —se o filho já estudou, dormiu bem ou fez o simulado— ou no vestibular se transformando em assunto permanente da casa.

Fraiman afirma que esse comportamento, mesmo quando motivado pela preocupação, pode aumentar a tensão do estudante. "Tem que ter uma espécie de combinação: ‘Filho, como você quer que eu te acompanhe? Você quer que eu pergunte todo dia ou prefere que a gente converse uma vez por semana?’."

Essa é uma preocupação compartilhada por Darlan, pai da Ana Júlia. "Não ficar o tempo todo puxando assunto de vestibular e Enem, tema de redação, isso cai, isso não cai, ficar pressionando. É respeitar o espaço do filho, entender que ele precisa realmente de espaço para ter o momento de estudo, ter o momento de descanso, ter um momento de dar risada, ter um momento de passeio."

Camila conta que esse acompanhamento também exige conhecer o momento vivido pela filha e perceber quando ela precisa de uma coisa ou de outra. Para a mãe, estar presente não significa apenas falar sobre estudos, mas também observar as necessidades que aparecem ao longo da rotina.

"Conhecemos nossas crias. Então sabemos quando ela quer conversar, quando não quer, quando ela está precisando ficar quietinha, está precisando sair ou quando está precisando de um abraço", explica Camila.

O professor Lucas Vieira, gerente pedagógico do Elite Rede de Ensino, explica que controlar cada hora da rotina ou interpretar qualquer momento de lazer como falta de comprometimento pode provocar culpa.

"Às vezes o estudante já passou a manhã, a tarde toda estudando. Aí ele quer assistir a uma série, a um filme, e os pais: ‘Mas você vai assistir filme? Você não vai estudar?’ Isso acaba gerando uma culpa no jovem", afirma.

Por isso, descanso e atividades fora dos estudos não devem ser tratados como tempo perdido. Um passeio, uma ida ao cinema ou uma visita a familiares podem ajudar o estudante a se desligar temporariamente dos estudos e voltar à rotina mais descansado, exemplifica Vieira.

Além da cobrança por desempenho, os especialistas alertam para as expectativas que colocam sobre a aprovação e a escolha profissional dos filhos.

Vieira afirma que é comum encontrar estudantes preocupados não apenas com o próprio resultado, mas com o que acontecerá se não conseguirem entrar na universidade na primeira tentativa. Em alguns casos, a pressão vem das condições materiais e também da expectativa de corresponder a um projeto idealizado pelos pais.

Para o professor, os responsáveis devem evitar projetar nos filhos as próprias frustrações ou desejos profissionais. "O papel é orientar, deixar claro quais são as condições, mas também dar espaço para que ele possa de fato se preparar com qualidade."

Fraiman explica que os pais podem ajudar os filhos a conhecer profissões e refletir sobre o próprio projeto de vida, mas não devem decidir por eles. "É muito difícil achar motivação para estudar algo que não se conecta com meu projeto de vida."

Para Ana Júlia, esse equilíbrio também depende da capacidade do próprio estudante de falar sobre o que precisa. Ela ressalta que os pais não vão acertar sempre e que é importante comunicar quando quer espaço, apoio ou quando algo a incomodou.

"Você é uma pessoa totalmente diferente dos seus pais. E saber entender quando eles erram, mas também saber pedir o apoio quando precisa, saber pedir o espaço quando precisa, e saber impor os limites da relação com a família", opina a estudante.