Esta crónica não é sobre cães, embora deva dizer que gosto de poucas coisas na vida tanto quanto gosto de cães. E que poucas coisas me irritam tanto quanto distinguir-lhes as “raças”. Todos os meus cachorros, actualmente cinco e ao longo do tempo uns quinze, são e sempre foram fruto directo ou indirecto de resgates da rua, com todo o interesse em ganhar os melhores companheiros que um homem pode ter e sem qualquer interesse em exibir as respectivas “raças” – ou marcas, como os carros. Ainda assim, lembro a Maia, uma cadelinha que encontrei no canil da cidade que lhe deu o nome, e que certa ocasião alguém me garantiu tratar-se de um podengo português. Seria um podengo, não importa. Importa que à Maia nem sequer faltava falar: ela falava, um dialecto cujas palavras eu não entendia mas cujo tom se adequava na perfeição à conversa que mantínhamos. Raras vezes discordávamos. Semelhante alegria durou treze anos, até a Maia morrer num acidente trágico e que não quero recordar aqui. O que não deixarei de querer recordar é que a Maia, presumível podengo português, era um conforto e uma esperteza.
Esta crónica também não é sobre cinema, apesar de seguirem dois ou três esclarecimentos irrelevantes. O primeiro é que não vejo cinema de hoje, repleto de “mensagens” e “wokismo”. Ou planos rápidos para disfarçar inépcia e agradar a um público educado no TikTok. Ou filtros e pechisbeques em 3D, que promovem um “ruído” e uma estética insuportáveis. Ou argumentos infantis e diálogos que nenhum ser humano seria capaz de emitir sem uma gargalhada. Ou personagens com as quais é impossível criar empatia e não desejar que sejam decapitadas nos minutos iniciais do filme. Christopher Nolan, realizador britânico, está longe de ser o expoente das misérias que acabei de referir. Não obstante, não lhe aprecio as fitas. Vi “Memento” e “Insomnia” com moderado prazer. Desisti de “Interstellar” e de “Inception” logo num instante e de “Oppenheimer” a meio (viajava de avião e adormeci). O sr. Nolan, que não é tonto, parece sobretudo empenhado em espantar os espectadores com a inteligência dele, exercício que não espanta este espectador em particular. Como Godard criticava em Kubrick, o sr. Nolan filma “ideias”, não pessoas. Agora deu em filmar “A Odisseia”, ideia maior e que para cúmulo coincide com a minha repulsa por “épicos” da dita “sétima arte”, contemporâneos ou clássicos, pelo que só verei semelhante produto sob sequestro. Vi imagens na Internet e, para ajudar à festa, aquela sucessão de castanhos e neblinas e escuridão pareceu-me brutalmente desfasada do sol mediterrânico e, pior, imensamente feia.
Esta crónica é sobre a notícia que varreu o país esta semana. Encontrei-a no site da Sic – nem de propósito – Notícias: “Cão de raça portuguesa é Argos, companheiro de Ulisses, em ‘A Odisseia’ de Christopher Nolan”. E de seguida noutro site igualmente “informativo”: “Há um ‘actor’ português a conquistar o mundo em A Odisseia e quase ninguém reparou”. E depois noutro: “Um dos grandes destaques da produção é Argos, o fiel cão de Ulisses, interpretado por um Podengo Português [com maiúsculas]”. E noutro: “Tom Holland [julgo que é um actor do filme] elogia cão português. Saiba o que distingue esta raça”. É, portanto, a loucura. Desde que o casal Obama levou Bo, o cão de água português, para a Casa Branca que o nosso país não era alvo de tamanha distinção. As palavras dos nossos estadistas, que repetem a cada hora a evidência de que somos “os melhores dos melhores” e que o planeta em peso nos olha com inveja, estão assim plenamente justificadas.
E para que não se pense que a projecção da grandeza pátria depende exclusivamente de cãezinhos, não é preciso procurar muito para descobrir que o cabeleireiro sueco de um documentário mexicano nomeado para os Óscares em 2018 tem um cunhado que foi vizinho de um português durante meses a fio. Ou que o tecido da camisa usada por Ryan Gosling na cena final de “La La Land” é proveniente de uma fábrica têxtil em Paços de Ferreira. Ou que o autor dos monólogos do comediante Jimmy Kimmel é sobrinho-neto de um antigo habitante da Aldeia dos Macacos, no Jardim Zoológico de Lisboa. E isto para não sairmos do audiovisual. Imaginem o impacto global que Portugal e os portugueses suscitam nos demais ramos de actividade.
É melhor nem imaginar. Na minha infância ficava abismado com a importância que os “telejornais” davam aos vagos antepassados lusitanos dos actores e actrizes das telenovelas brasileiras. Mal o Fábio ou a Jerusa aterravam na Portela, os repórteres caíam-lhes em cima e não os largavam enquanto não extraíssem dos desgraçados a informação de que estes talvez possuíssem na árvore genealógica um trisavô nascido na Lousã. Num ápice, a manchete dos vespertinos rezava: “Fábio ‘veio’ da Lousã!” Exagero? Na década de 1960, Walt Disney fez uma breve escala na fatídica Portela e a famosa locutora Maria Leonor, tendo a oportunidade de entrevistar uma das figuras mais influentes da cultura popular do século XX, apenas tentou arrancar-lhe opiniões sobre Portugal, que o pobre Walt não conhecia e não chegou a conhecer.
Claro que em 60 anos deveríamos ter mudado. Mas não mudámos sequer em 150, e Eça já lamentava esta notável necessidade de validação. Em 2026, continuamos a perseguir turistas incautos para que nos confessem a bem ou a mal apreciar o clima, a gastronomia, a hospitalidade. Continuamos a tremer de excitação se uma “celebridade” admite ter uma noção de que há um país chamado Portugal. Continuamos a reparar caso um podengo português seja filmado por um técnico de Hollywood.
Se calhar, esta patológica insegurança advém da obscuridade a que descemos após o breve período em que atravessávamos a Terra em caravelas e a retalhávamos nos mapas. Não sei. Sei que entramos em êxtase quando os estrangeiros confirmam a nossa existência, na medida em que nós mesmos não temos a certeza de que existimos. E se os estrangeiros são omissos, nós próprios preenchemos a lacuna: a história de que Ulisses, herói mítico da “Odisseia”, fundou Lisboa? Foram os portugueses que a inventaram, vai para quinhentos anos. A epopeia dos portugueses é assim peculiar, aqui que literalmente ninguém nos ouve.