Arde Madrid, arde Bordéus. Já ardeu o equivalente a cinco Lisboas e tudo aponta para "condições muito piores nas próximas horas"

Cerca de 300 mil pessoas foram forçadas a sair de casa ou impedidas de sair. Incêndios sem precedentes não têm fim à vista e a ajuda começa a chegar de todo o lado, até de Portugal

Está longe de ser a coisa mais importante, mas é um sinal claro de quão grave está a situação em França. O Tour de France, a volta em bicicleta mais importante do mundo, foi encurtada por causa da situação aflitiva que se vive no sul do país, nomeadamente à volta de Bordéus.

Para se ter uma ideia, à volta de uma das maiores cidades de França já arderam cerca de 32 mil hectares. O mesmo é dizer que arderam aproximadamente três cidades de Lisboa, sendo que o pior é que não há previsão para colocar um fim às incontroláveis chamas que estão a impactar a vida de centenas de milhares de pessoas.

Os organizadores do Tour justificaram a decisão de encurtar a prova para aliviar os sistemas de emergência, que estão totalmente assoberbados pela imensidão dos fogos no sudoeste de França.

De resto, parte das forças de segurança que o Ministério do Interior tinha destacado para cobrir a prova de ciclismo foram já realocadas para ajudar no combate aos incêndios. Não é apenas apagar as chamas ou contê-las, mas também socorrer as populações, coordenar evacuações e assistir quem precisa, num esforço conjunto que está a exigir algo a que as autoridades francesas não estão habituadas.

Assim, a etapa final do Tour de France, que como é hábito vai terminar em Paris, foi encurtada de 133 quilómetros para 89.

“No espírito de solidariedade nacional com as regiões e populações afetadas, foi decidido ajustar a rota da etapa final entre Thoiry e Paris”, pode ler-se no comunicado do Ministério do Interior.

Perante a gravidade da situação, o governo francês não hesitou em convocar também as Forças Armadas para ajudarem no combate às chamas. Para já foram chamados 1.500 militares, que vão ter a missão específica de “apoiar a evacuação das localidades que ficam nas áreas ameaçadas pelos fogos”.

A braços com uma situação que as autoridades já admitiram não ter precedentes, França conta ainda com a ajuda de vários países da União Europeia. Portugal enviou dois aviões, por exemplo, mas também Roménia, Croácia, Suécia, Chéquia, Eslováquia, Alemanha ou Suíça estão a participar ativamente na coordenação de esforços.

O mesmo está a acontecer em Espanha, outro país que vive uma situação sem precedentes. Antes de o sol nascer este sábado já assistíamos àquele que é o pior incêndio de sempre na região de Madrid. São já cerca de 25 mil hectares ardidos à volta de Madrid nos últimos dias. Se lembrarmos as contas comparativas com Lisboa, é como se tivesse ardido uma área equivalente a cinco vezes a capital portuguesa, que tem cerca de 100 quilómetros quadrados, ou 10 mil hectares.

Ao contrário da esperança das autoridades, a descida das temperaturas durante a noite não foi suficiente para o que era preciso. As chamas continuam a avançar e mais e mais pessoas estão a ser retiradas à volta da capital.

Retiradas de uns sítios e obrigadas a ficar em casa noutros. Em San Martín de Valdeiglesias e Valdemaqueda, a cerca de 60 quilómetros de Madrid, as ordens são para confinamento total, com as autoridades a tentarem eventuais rotas de fuga que podem acabar numa tragédia semelhante à vista há uns dias em Almería, onde 13 pessoas morreram a tentar escapar do fogo por caminhos que não foram indicados para o efeito.

Ao todo são 28 mil as pessoas confinadas na região de Madrid e também em Ávila, de onde já foram retiradas outras 73 mil pessoas que tiveram de deixar tudo para trás perante o avançar das chamas.

Os dados vêm também da presidente da Comunidade Autónoma de Madrid, que não tem sido parca nos avisos. Um deles olha para o futuro de forma algo pessimista. De acordo com Isabel Díaz Ayuso, a expectativa é que a evolução da meteorologia "possa levar a condições muito piores nas próximas horas".

Um número de pessoas retiradas até aparentemente pequeno quando comparado com os 197 mil residentes que tiveram de deixar as suas casas em França, de acordo com os dados do Ministério do Interior.

Um número conjunto que aproxima das 300 mil as pessoas que foram obrigadas a sair de casa ou estão confinadas nas suas habitações. Um número que, muito provavelmente, deve subir nas próximas horas.

Outro dado vindo de França é o de vítimas. Mortos não há, mas 54 bombeiros e nove civis ficaram feridos, embora nenhum deles corra risco de vida. O primeiro-ministro francês deve convocar nova reunião de emergência do Conselho de Ministros para as próximas horas.

Voltando a Espanha, as chamas não estão na cidade de Madrid, mas os efeitos já lá chegaram. O Ministério da Saúde emitiu um alerta relacionado com a qualidade do ar para a capital espanhola, aconselhado a população a utilizar máscaras.

Os níveis estão “bem acima dos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS)”, de acordo com a ministra da Saúde.

“Se forem lá fora e houver fumo ou cinzas, utilizem máscaras FFP2/95 e óculos para proteger os olhos”, aconselhou Mónica García, que também pediu à população que tenha atenção a sinais como dificuldade em respirar, dor no peito ou falta de ar.