Há duas semanas, a Atlantic anunciou na capa o «fim da leitura». Menos de metade dos americanos leu um livro no último ano, a maior parte dos alunos recém-chegados à universidade não tem literacia suficiente, a grande maioria das pessoas não escreve ou encarrega a inteligência artificial dessa tarefa.
Diante disto, fazemos sempre uma de duas coisas. Ou cruzamos os braços, com o fatalismo de quem vê, ao longe, uma tempestade que não pode travar. Ou saímos à caça do culpado: o telemóvel, o TikTok, a geração Z, a escola e agora a inteligência artificial. As duas reações compreendem-se. As duas são inúteis.
O diagnóstico é certo. Lê-se menos numa altura em que nunca tanta gente estudou; os clássicos, outrora fechados nas bibliotecas de meia dúzia de famílias, estão hoje de graça na palma da mão, e ninguém os abre; vende-se-nos uma máquina que escreve por nós no preciso momento em que deixámos de escrever. Tudo verdade.
Mas há uma coisa que estas contas nunca fazem entrar na equação. Um punhado de pessoas que continua, sem dar nas vistas, a ler Homero e Tolstói ou a sublinhar Dostoiévski e Steinbeck à noite, depois do trabalho. Não são professores universitários. Trata-se de uma massa considerável de trabalhadores, não necessariamente de profissões liberais, ou de jovens não alinhados.
Dizer que o número é escasso para inverter a tendência é enganador. Os renascimentos culturais começaram sempre à margem, e quase sempre contra a ortodoxia do seu tempo. O renascimento europeu foi impulsionado por tradutores não académicos e por uma ecologia de patronos e estudantes que operava fora do círculo oficial. O romantismo foi liderado por leitores não licenciados e por poetas das classes mais baixas, como William Blake, John Keats e John Clare. O renascimento americano foi desencadeado por ex-pastores e amadores, com Walt Whitman e Emily Dickinson a escreverem os seus poemas entre empregos. O modernismo teve como maiores pensadores e poetas banqueiros, bibliotecários, jornalistas e até vendedores de seguros, como Wallace Stevens.
É isto que se perde quando se tratam as humanidades como uma propriedade institucional, grupal ou estatal. Não o são. As humanidades são a maneira como uma sociedade aprende a imaginar, a discordar e a dar nome ao mundo, sem corrimão. Salvará as humanidades quem se importar o bastante para o fazer, mesmo que isso o empurre para as margens. Salvará as humanidades quem carregar Rulfo, Faulkner e Camilo como um correio de droga transporta estupefacientes. Salvaremos as humanidades desconfiando de tudo o que não for quase clandestino.
Precisamos de voltar a confrontar-nos com livros, quadros, filmes e obras difíceis. Precisamos de não perceber e de fazer leituras enviesadas. Precisamos de resistir às dicotomias idiotas e empobrecidas que já nos são oferecidas mastigadas. Precisamos de refinar ideias na solidão e no silêncio, e testá-las em conversas reais.
Whitman sentiu o peso esmagador do desespero perante as «cidades cheias de tolos» e «os fracos resultados de tudo». Não sei porque é que, connosco, haveria de ser diferente.