Enquanto as empresas norte-americanas continuam a injectar quantias maciças de capital nos seus planos de expansão, as autoridades europeias já começam a pensar no cenário oposto. O Banco Central Europeu (BCE) publicou um aviso claro sobre o actual entusiasmo em torno da Inteligência Artificial, sugerindo que uma correcção nos mercados financeiros é altamente provável e que o seu impacto será sentido à escala global.
O fantasma da era dot-com
Num artigo assinado por cinco economistas e investigadores, a instituição financeira argumenta que as actuais avaliações do mercado de acções nos Estados Unidos estão próximas do pico histórico. Os investidores esperam ganhos de produtividade sem precedentes, mas os especialistas europeus traçam paralelos com revoluções tecnológicas do passado, como o boom ferroviário do século XIX, a electrificação nos anos 1920 ou a ascensão da internet. A grande questão levantada pelo BCE é se os preços actuais reflectem uma aposta racional ou se estamos a assistir a um “remake” da bolha das dot-com.
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O entusiasmo em torno desta tecnologia não se limita aos mercados financeiros, reflectindo-se de forma agressiva na economia real e no consumo. Vemos gigantes tecnológicas a integrar estas ferramentas directamente no hardware, como acontece com os novos smartphones equipados com processadores de última geração e IA nativa. Ao mesmo tempo, o mercado de infraestruturas cresce a um ritmo alucinante, impulsionado pela estreia de plataformas de código aberto destinadas à criação de aplicações inteligentes. Até o sector da educação se adapta rapidamente, oferecendo novas especializações online para formar profissionais capazes de optimizar processos empresariais com estas ferramentas.
O impacto silencioso na Europa
Embora o mercado de acções europeu continue a ser dominado por empresas da “velha economia” e a adopção da IA na zona euro seja descrita como constante mas pouco espectacular, o BCE sublinha que um eventual rebentar da bolha não poupará o Velho Continente. As famílias da União Europeia têm uma exposição a acções tecnológicas dos EUA avaliada em cerca de 440 mil milhões de euros, muitas vezes sem terem plena consciência desse facto. Além disso, fundos de pensões e seguradoras partilham um nível de risco semelhante.
Como os mercados norte-americano e europeu estão historicamente interligados, uma queda abrupta nas avaliações de Wall Street acabaria por arrastar a Europa. Os economistas do BCE recomendam que os investidores e as instituições se preparem para esta correcção. Se a bolha rebentar, as consequências podem ultrapassar os mercados de acções e prejudicar a economia não financeira, deixando os decisores políticos com poucas opções fáceis para conter a instabilidade gerada.