Sremska Mitrovica, Sérvia (Lusa) — Os destroços de um barco a vapor que remonta ao início do século XX apareceram no rio Sava na Sérvia, numa altura em a Europa enfrenta seca e num calor extremos e prolongados.
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O casco enferrujado de uma embarcação famosa conhecida como Slovenian emergiu no início deste mês no rio perto da cidade sérvia de Sremska Mitrovica, a 70 quilómetros a noroeste da capital, Belgrado.
Embora algumas partes já tivessem surgido à superfície anteriormente, os residentes locais afirmam que os destroços nunca estiveram tão expostos.
“Já passaram vários anos desde a última vez que foi visto, pelo que há bastante interesse”, afirmou o historiador Andrija Popovic, diretor do museu da cidade.
“É realmente algo que não se vê todos os dias”, acrescentou sobre a embarcação, que foi batizada pelos meios de comunicação sérvios como o “Titanic do Sava”.
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O navio sobreviveu a duas Guerras Mundiais antes de afundar. Segundo Popovic, o Slovenian foi construído em 1913 num estaleiro em Budapeste, Hungria, na altura parte do Império Austro-Húngaro.
Media cerca de 54 metros de comprimento e foi inicialmente batizado de Vag, o nome húngaro do Vah, o rio mais longo da Eslováquia. Movido por um motor a vapor, o barco rebocava carga pesada entre Budapeste e outras cidades ao longo do Danúbio.
Durante a Primeira Guerra Mundial, a embarcação suspendeu em grande parte as suas rotas, acrescentou Popovic.
Com o fim da guerra e o desmantelamento do Império Austro-Húngaro, a propriedade do barco passou para o recém-formado Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos — que mais tarde se tornaria a Jugoslávia — como parte das reparações de guerra, explicou.
“Foi nessa altura que passou a chamar-se Slovenian”, disse Popovic, acrescentando que permanece um mistério “o motivo pelo qual este nome foi escolhido”.
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Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, o Slovenian — e o seu novo país — ficou sob ocupação da Alemanha nazi.
Depois de as forças antifascistas jugoslavas terem libertado Belgrado em 1944, utilizaram o barco para transportar feridos e equipamento enquanto empurravam as tropas alemãs mais para oeste, disse Popovic.
A embarcação transportava combatentes feridos quando atingiu uma mina alemã no final de abril de 1945, explicou Popovic. “Afundou-se e permanece no mesmo local desde esse dia.”
Mas o Slovenian não é a única relíquia a emergir dos rios europeus em secagem. Navios de guerra, ossos de mamute e partes de construções antigas têm emergido das águas em queda do Danúbio, do Reno e de outros rios devido à seca abrasadora que também tem perturbado o comércio e o abastecimento de energia e água.
Um nível historicamente baixo no rio Danúbio afetou gravemente as centrais nucleares na Hungria e na Roménia e interrompeu o tráfego ao longo da segunda maior via fluvial da Europa.
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Uma seca de vários meses devastou a agricultura desde os Países Baixos até à Bósnia e provocou escassez de água que se estende até aos Alpes.
Na fronteira oriental da Sérvia com a Roménia, destroços enferrujados de navios alemães sobressaem das águas baixas do Danúbio.
Alguns ainda carregados com armas, os navios pertenciam à frota do Mar Negro da Alemanha nazi, que foi deliberadamente afundada perto do final da guerra, à medida que as tropas alemãs se retiravam da Roménia e as forças soviéticas avançavam no continente europeu.
Em Itália, a pior seca em 70 anos expôs os pilares de uma ponte antiga sobre o rio Tibre, outrora utilizada por imperadores romanos, mas que caiu em desuso no século III.
À medida que as águas do Danúbio baixavam na Bulgária, os investigadores ficaram entusiasmados ao encontrar e recuperar uma mandíbula, presas, uma escápula, costelas e outros fragmentos ósseos pertencentes a um mamute-lanudo extinto, enterrados nas profundezas da areia.
A Europa é o continente que regista o aquecimento mais rápido do mundo, com as temperaturas a aumentarem ao dobro da taxa da média global desde a década de 1980, segundo o Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas da União Europeia.
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Metade da União Europeia e do Reino Unido enfrentava condições de seca no final de julho de 2026, de acordo com o Observatório Europeu da Seca da UE, com 9% do território no nível de “alerta” mais grave.
Os cientistas alertam que as alterações climáticas estão a agravar a frequência e a intensidade do calor e da aridez.
O especialista sérvio em hidrologia Dejan Vladikovic afirmou que a seca atual resulta da combinação da falta de neve no inverno com uma primavera extremamente seca.
“O que nos espera no futuro (…) é que estas situações se tornem mais frequentes”, afirmou. “Estamos a entrar em períodos em que isto se tornará, infelizmente, uma nova normalidade.”