Bloqueio anestésico pode aliviar enxaqueca? Entenda a técnica | G1

Michelle havia sido internada no sábado (1º) para realizar exames que investigavam episódios recorrentes de enxaqueca.

O procedimento foi feito diante da persistência das dores.

Mas como esse tipo de bloqueio funciona? Onde o anestésico é aplicado, quanto tempo o efeito pode durar e em quais casos a técnica costuma ser indicada?

Entenda mais abaixo.

O que é o bloqueio e como ele age?

O bloqueio anestésico consiste na aplicação de uma pequena quantidade de anestésico local perto de um nervo que participa da transmissão da dor. Em alguns casos, o médico também pode usar um corticoide junto com o anestésico.

➡️ Apesar do nome, a técnica não envolve uma injeção no cérebro nem exige qualquer abertura do crânio. A agulha atravessa apenas a pele e deposita o medicamento ao redor do nervo escolhido.

O objetivo é interromper temporariamente os sinais de dor que passam por aquele nervo. Com menos estímulos chegando ao sistema nervoso, os circuitos que ajudam a manter a crise podem reduzir sua atividade.

Isso não significa que a causa da enxaqueca tenha seja eliminada. O bloqueio funciona principalmente como uma tentativa de interromper o ciclo da dor, sobretudo quando a crise se prolonga ou não responde aos medicamentos habituais.

"O bloqueio anestésico tem finalidades específicas: como ‘ponte’ para retirada de remédios de crise e alimentos estimulantes; na desintoxicação do paciente no início do tratamento", explica Thaís Villa, neurologista especialista em enxaqueca e outras dores de cabeça.

"Para tratar um paciente em crise, sem que ele precise ir ao pronto-socorro ou voltar a tomar medicações que provocam dor rebote; para potencializar a eficácia dos tratamentos preventivos; entre outras indicações individualizadas de cada paciente, portanto, a frequência de realização é determinada caso a caso", acrescenta a especialista, que é doutora pela Unifesp e idealizadora do Headache Center Brasil.

📝 Na prática, o procedimento pode ser usado para:

  • diminuir a intensidade da dor;
  • interromper uma crise prolongada;
  • reduzir temporariamente a frequência dos episódios;
  • ajudar o paciente enquanto outro tratamento começa a fazer efeito.

O alvo mais frequente é o nervo occipital maior, localizado na parte de trás da cabeça. Ele sai da região superior do pescoço e leva sensibilidade a uma grande área do couro cabeludo.

Também podem ser bloqueados nervos que passam pela testa, pelas sobrancelhas, pelo canto interno dos olhos e pelas laterais da cabeça.

☝️ A escolha depende principalmente de onde a dor se concentra. Uma pessoa com dor predominante na nuca pode receber um bloqueio diferente de outra que sente a crise ao redor dos olhos ou na testa.

Embora a expressão “nervos cranianos” seja usada para descrever o procedimento, parte dos nervos tratados fica ao redor do crânio ou tem origem na região cervical. Por isso, também se utiliza o termo “nervos pericranianos”.

Materiais de hospitais universitários ligados ao sistema público de saúde do Reino Unido, o NHS, citam o bloqueio como opção para alguns pacientes com enxaqueca, cefaleia em salvas, neuralgia occipital e outros tipos de dor de cabeça ou na face.

A enxaqueca é uma doença neurológica, e não apenas uma dor de cabeça comum. Além da dor pulsante, pode causar náusea, vômito e maior sensibilidade à luz, aos sons e aos odores.

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Quando é indicado e como o procedimento é feito?

O bloqueio costuma ser considerado quando a dor é intensa, frequente ou prolongada e não melhora com os tratamentos usados normalmente. Também pode ser uma alternativa quando o paciente não pode tomar determinados medicamentos ou apresenta muitos efeitos colaterais.

Entre as situações em que a técnica pode ser avaliada estão:

  • enxaqueca;
  • cefaleia em salvas;
  • neuralgia occipital;
  • dores relacionadas ao pescoço;
  • crises prolongadas;
  • algumas dores de cabeça após traumatismos.

Uma crise de enxaqueca pode durar de algumas horas a até três dias. Quando se prolonga por mais de 72 horas, o quadro pode ser classificado como status migranoso e normalmente exige avaliação especializada.

⚠️ Uma dor persistente, contudo, nem sempre é causada por enxaqueca. Antes de indicar o bloqueio, o médico precisa avaliar os sintomas e descartar outras causas, principalmente quando a dor é diferente do padrão habitual do paciente.

"A duração [do procedimento] é entre 3 a 7 dias ou mais, a depender da resposta individual de cada paciente. A dor melhora ou mesmo desaparece no momento do procedimento", acrescenta Villa.

O procedimento pode ser realizado em consultório, ambulatório ou pronto-socorro. O paciente normalmente permanece sentado, acordado e consciente durante toda a aplicação.

O médico identifica o trajeto do nervo por meio da anatomia e da região em que o paciente relata maior dor ou sensibilidade. Depois da limpeza da pele, uma agulha fina é usada para aplicar uma pequena quantidade de anestésico.

➡️ A aplicação em si costuma levar apenas alguns minutos. Dependendo do caso, mais de um nervo pode ser tratado na mesma sessão.

Após o procedimento, o paciente geralmente fica em observação por um período curto. Materiais dos hospitais universitários de Leeds e Cambridge (Reino Unido) indicam tempos que variam de cerca de 10 a 30 minutos.

Na maioria dos casos, o bloqueio não exige internação. A pessoa pode sentir a picada da agulha, pressão, ardência ou desconforto enquanto o medicamento é aplicado.

Também pode surgir dormência temporária, sensibilidade ou um pequeno inchaço no local. No bloqueio do nervo occipital, por exemplo, a pessoa pode perceber um pequeno volume na nuca logo após a injeção.

Ilustração mostra pontos de aplicação de bloqueios anestésicos em nervos da cabeça e da face, técnica usada para aliviar alguns tipos de cefaleia e dor facial. — Foto: Heringer, Shah e Narouze/Springer Nature

Quanto tempo o efeito pode durar?

O anestésico costuma começar a agir rapidamente. Algumas pessoas percebem melhora logo depois da aplicação, enquanto outras só sentem redução da dor após dois ou três dias.

⌛ O efeito direto do medicamento geralmente dura algumas horas. Mesmo assim, o alívio pode continuar por dias ou semanas, porque o bloqueio pode ajudar a interromper o ciclo de sinais que mantém a crise.

A resposta varia de pessoa para pessoa. Há pacientes que melhoram bastante, outros que sentem alívio parcial e aqueles que não respondem ao procedimento.

Segundo o Cambridge University Hospitals, cerca de dois terços dos pacientes com dores de cabeça crônicas ou incapacitantes apresentam algum benefício temporário com o bloqueio do nervo occipital maior. Aproximadamente um terço não tem melhora considerada útil.

📝 Os próprios serviços de saúde ressaltam que muitos estudos foram feitos com grupos pequenos. Por isso, ainda não é possível prever com segurança quem responderá melhor nem por quanto tempo o efeito permanecerá.

O bloqueio também pode ser repetido quando o alívio é parcial ou a dor retorna. Quando há corticoide na aplicação, serviços britânicos recomendam intervalos de três a quatro meses entre os procedimentos.

Quais são os riscos e cuidados?

O bloqueio é considerado pouco invasivo e, em geral, causa efeitos leves e passageiros. Os mais comuns são:

  • dor ou ardência no local;
  • dormência temporária;
  • pequeno hematoma;
  • tontura;
  • sensação de desmaio;
  • desconforto no pescoço;
  • piora passageira da dor.

⚠️ Infecções e reações alérgicas ao anestésico são raras. Quando há corticoide, pode ocorrer afinamento da pele ou queda de cabelo em uma pequena área próxima à aplicação.

Pessoas que usam anticoagulantes ou outros medicamentos que interferem na coagulação devem avisar o médico, porque podem ter maior risco de sangramento. Esses remédios não devem ser suspensos sem orientação.

➡️ O bloqueio não cura a enxaqueca nem impede necessariamente novas crises. Ele pode fazer parte de um tratamento mais amplo, com acompanhamento médico, medicamentos e mudanças de hábitos.

O uso excessivo de analgésicos também pode tornar a dor mais frequente. Dores súbitas e muito intensas, acompanhadas de alteração da visão, confusão, desmaio, febre, rigidez na nuca ou fraqueza exigem atendimento médico.