Bronzear à meia-noite talvez continue fora de questão, mas ter luz solar depois de o Sol se pôr está mais perto de deixar de pertencer à ficção científica. Uma empresa de Silicon Valley prepara-se para testar um “espelho” em órbita capaz de refletir luz para pontos específicos da Terra — e a ideia de prolongar artificialmente o dia está a levantar questões bem menos luminosas.
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A Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) aprovou o lançamento do Eärendil-1, protótipo desenvolvido pela Reflect Orbital. A ideia é testar uma tecnologia que poderá, no futuro, permitir a clientes pagar para receber luz solar refletida do espaço.
Uma das aplicações previstas passa pelos parques fotovoltaicos: prolongar a exposição à luz depois do pôr do sol e, dessa forma, estender o período de produção de eletricidade.
Mas a aprovação está a gerar contestação entre cientistas e astrónomos, segundo o ‘Unilad Tech’, que cita especialistas ouvidos pelo ‘The Verge’. E uma das preocupações é surpreendentemente simples: o que acontece se alguém olhar para cima no momento errado?
Olhar para o “espelho” pode ser perigoso?
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Especialistas alertam que a intensidade da luz refletida poderá representar um risco para os olhos de quem olhar diretamente para o satélite enquanto este estiver em funcionamento.
A preocupação é ainda maior no caso dos astrónomos amadores. Olhar inadvertidamente para a superfície refletora através de um telescópio poderá concentrar a luz e provocar lesões oculares permanentes, segundo os especialistas citados.
A própria Reflect Orbital reconheceu a existência de um potencial risco ocular associado ao sistema.
Robert Massey, vice-diretor executivo da Royal Astronomical Society, classificou essa admissão como “bastante chocante” e considerou “extraordinário” que a autorização tenha avançado apesar dessa possibilidade.
A FCC entendeu, porém, que o “pequeno risco” de danos oculares permanentes deveria ser ponderado face aos benefícios de permitir que empresas dos EUA testem tecnologias inovadoras no espaço.
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Há ainda outra preocupação: segundo a publicação, não estão previstos avisos específicos à população sobre os momentos em que o dispositivo estará a refletir luz, algo particularmente relevante para quem observa o céu através de telescópios.
E se começarmos a transformar a noite em dia?
Os possíveis efeitos não terminam nos olhos.
A alternância natural entre luz e escuridão ajuda a regular o ritmo circadiano humano, associado ao sono e a diferentes processos fisiológicos. A introdução de fontes intensas de luz em períodos normalmente escuros poderá, por isso, ter consequências caso uma tecnologia deste género venha a ser utilizada em grande escala.
Também os ecossistemas poderão ser afetados. Há espécies que dependem dos ciclos naturais de luz para se orientar, alimentar, reproduzir ou migrar, e alterar artificialmente esses períodos poderá interferir com os seus comportamentos.
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O Eärendil-1 é apenas um protótipo, pelo que não significa que cidades inteiras estejam prestes a ganhar horas adicionais de “dia”. Mas a experiência abre caminho a uma tecnologia que, se for ampliada, poderá transformar a própria escuridão num recurso alterável a partir do espaço.
Astrónomos temem pelo céu noturno
É na astronomia que surge outra das grandes frentes de contestação.
Os observatórios terrestres já enfrentam dificuldades provocadas pelo número crescente de satélites em órbita, cujas passagens podem deixar rastos nas imagens. Um equipamento concebido especificamente para refletir grandes quantidades de luz poderá aumentar ainda mais a interferência.
Cientistas receiam que sistemas deste género aumentem o brilho de fundo do céu, dificultando a observação de estrelas, galáxias e outros objetos extremamente distantes e pouco luminosos.
Roohi Dalal, responsável de políticas públicas da American Astronomical Society, foi particularmente longe ao considerar que uma utilização desta tecnologia em larga escala poderá representar “provavelmente o fim da astronomia ótica terrestre”.
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Os críticos apontam ainda para possíveis dificuldades na deteção de asteroides próximos da Terra, caso a qualidade das observações seja prejudicada. Isso não significa que este protótipo vá impedir a descoberta de objetos perigosos, mas ajuda a explicar o receio perante uma eventual multiplicação destes equipamentos.
E se a noite passar a estar à venda?
É talvez aqui que a experiência deixa de ser apenas uma curiosidade tecnológica.
A Reflect Orbital quer demonstrar que é possível transformar luz solar disponível em órbita num serviço direcionável: escolher um ponto na Terra, refletir luz para esse local e, eventualmente, cobrar por isso.
Para parques solares, a proposta tem uma lógica económica evidente. Para cientistas, astrónomos, ecossistemas — e simplesmente para quem está debaixo desse céu — levanta questões bastante mais complicadas.
O Eärendil-1 deverá ajudar a perceber se a tecnologia funciona. Mas a discussão já ultrapassou essa pergunta.
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Porque, se conseguirmos realmente trazer um pouco de dia para dentro da noite, haverá outra decisão a tomar: quem pode comprar essa luz — e quem terá direito a continuar no escuro?