Suspeito que na discussão de temas como imigração e segurança das fronteiras haverá um antes e um depois das imagens da maré humana a invadir Ceuta. Tal como, mas no que respeita aos refugiados, houve um antes e um depois das imagens de um menino sírio deitado de bruços, sem vida, numa praia da Turquia. Onze anos separam estes dois momentos, o Mediterrâneo inteiro também, mas há uma coisa que os une: a Europa continua a ser o destino de milhares, de milhões de migrantes e, nessa mesma Europa, a experiência destes anos fará com que em 2026 não se repitam alguns dos gestos de 2015, designadamente os braços abertos de Angela Merkel. A carta de 22 líderes europeus a distanciarem-se de Pedro Sánchez e das suas políticas permissivas é disso exemplo, e só se lamenta que o nosso primeiro-ministro não se tenha juntado à lista.
Não tenhamos nem criemos ilusões: Marrocos pode ter deixado que aquela maré humana se formasse, Marrocos pode ter visto que estava a acontecer e não ter avisado Espanha, Marrocos pode até ter muitas razões para querer enviar um recado político para Madrid, mas não foi o reino alauita que organizou a enchente, não se tratou de uma espécie de nova “marcha verde”. Da mesma forma que nenhuma máfia tem poder suficiente para levar de repente 60 mil jovens a lançarem-se à água para nadarem até Ceuta, como alegou o primeiro-ministro espanhol.
(Já agora: só mentes delirantes, politicamente doentes, como as dos parceiros de coligação de Sánchez, fanáticos de extrema-esquerda, é que conseguiriam ver naqueles bandos de miúdos com camisolas do Messi e de Ronaldo a mão de Israel…)
Não tapemos também o sol com uma peneira: o que trouxe tanta gente tão depressa àquela baía foi a percepção de que Espanha é hoje o mais permissivo dos países europeus no que respeita a políticas de imigração, foi a esperança de que, colocado um pé em solo espanhol, meio caminho estaria andado para um dia se conseguir aquilo que Pedro Sánchez ofereceu este ano mesmo, mais um processo excepcional de regularização de imigrantes ilegais.
O governo socialista espanhol foi incompetente nesta crise? Foi, não há forma meiga de o dizer. Foi incompetente porque as chegadas a Ceuta não começaram no dia da “grande invasão”, já tinham começado alguns dias antes e os serviços locais de imigração (Ceti) já estavam submersos de candidatos a uma entrada na União Europeia. Foi incompetente porque ainda antes de tudo acontecer já tinha sido alertado pelo governo da cidade de Ceuta e feito orelhas moucas, sendo que quando tudo aconteceu também demorou a reagir e ainda mais a mobilizar as forças armadas. Foi ainda incompetente porque não detectou, ou então ignorou, o fervilhar das redes sociais marroquinas onde se trocavam mensagens sobre como nadar até Ceuta e até se vendiam fatos especiais de natação. Foi por fim incompetente ao desvalorizar as consequências de uma sentença judicial que abria as portas do mar a quem quisesse chegar ilegalmente a Ceuta, ignorou sobretudo as sugestões para erguer um cordão de contenção na baía e assim criar uma barreira física que dissuadisse os nadadores.
Porém, neste processo, a incompetência é o menos. O que Ceuta mostrou foi como todas as escolhas políticas têm consequências, e esta foi apenas mais uma consequência das políticas de “portas abertas” de Pedro Sánchez, um líder tão empenhado em mostrar que é diferente dos outros, e sobretudo diferente de Donald Trump, que até se foi gabar para o New York Times do seu modelo e contrapô-lo ao “modelo MAGA”. A prosápia explodiu-lhe agora dentro de casa.
Acontecimentos como os de Ceuta – tanto as dezenas de milhares da semana passada como o gotejar constante de todos os dias – não acontecem senão porque os que chegam têm uma esperança real de que aquela seja a melhor porta de entrada para a Europa, ao mesmo tempo que foram ganhando a convicção de que, mesmo que sejam detidos pelas autoridades, será extraordinariamente difícil repatriá-los — até porque haverá sempre um advogado de “direitos humanos” por perto.
Agora mesmo isto está a ser comprovado. A maioria dos que arriscaram chegar a nado desistiu e voltou para Marrocos quando percebeu que ninguém os acolhia em Ceuta, que todos os comércios se tinham fechado, que a população se tinha trancado e que, sem comida e sem abrigo, o melhor era retroceder. As autoridades pouco mais fizeram do que indicar-lhes o caminho, sem terem de voltar a atirar-se ao mar. Mas isso não aconteceu com todos. Muitos ficaram junto às instalações do Ceti, a dormir no cimento dos passeios. Outros, muitos dos menores, ficaram como indocumentados, um estatuto que tem sido motivo permanente de quezílias políticas entre as regiões espanholas.
E porque é que tantos acreditam que Espanha é o bom ponto de entrada? Porque o governo de Pedro Sánchez tem preferido deixar entrar quase todos os que chegam, muito à semelhança do que fazia em Portugal o governo de António Costa, e exactamente com o mesmo tipo de argumentos: os imigrantes fazem crescer o PIB e as contribuições dos imigrantes equilibram as contas das pensões. É certo que a maioria dos que têm chegado – os imigrantes já correspondem a 15% da população espanhola – vêm da América Latina e possuem as afinidades culturais e linguísticas certas para facilitar uma rápida integração. Tudo muda de figura quando os que chegam são magrebinos ou africanos vindos do outro lado do Sahara.
A cereja no topo deste bolo foi a recente decisão de legalizar meio milhão de imigrantes, um número que depois subiu até acima de um milhão, uma decisão que criou tanto mal-estar na Europa (por contrariar as políticas) que agora os outros líderes não perdoaram a Sánchez – sendo que entre esses outros líderes está a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também ela socialista como Sánchez. Essa decisão tornou-se ainda mais controversa quando Irene Moreno, a líder de um dos partidos extremistas que sustentam o governo de Sánchez, veio defendê-la invocando a “teoria da substituição” e dizendo que a sua intenção era mesmo colocar estes imigrantes a votar para expulsar “os fachas”. Isto numa altura em que o próprio Sánchez está a dar o direito de voto a milhões de netos de espanhóis que nenhuma relação já têm com Espanha…
Não deixa de ser extraordinário como a esquerda perdeu completamente a noção de como uma imigração descontrolada afecta sobretudo as classes mais baixas e como essa mesma esquerda perdeu qualquer noção da importância das fronteiras como garante da unidade dos Estados e do seu funcionamento democrático, tal como, em nome de utópicos e inexistentes “direitos universais”, a esquerda parece esquecida que não há garantia de direitos individuais fora dos Estados liberais e democráticos.
A esquerda não era assim no tempo de Karl Marx, que em textos que escreveu sobre a questão irlandesa, notou que reinava nos grandes centros industriais da Inglaterra “um profundo antagonismo entre o proletário irlandês e inglês: o operário inglês vulgar odeia o irlandês como um concorrente que faz baixar os salários”. Mas é assim hoje, pois a infecção woke levou a que acredite que, mais importante do que atender às ansiedades dos mais fracos, devemos é penitenciar-nos pelos alegados crimes dos nossos antepassados. E que temos também de acolher todos os pobres do mundo pois a sua pobreza é culpa nossa, e temos de acolhê-los sem que eles tenham sequer de aceitar as nossas regras e os nossos valores, pois já não acreditamos na nossa superioridade moral, antes pelo contrário.
Nos últimos onze anos a Europa pagou caro os erros de 2015 e já são muitos os países – da Grécia à Dinamarca, da Itália à Suécia – a mudar de políticas e a perceber que a retórica da compaixão é muito perigosa se desguarnecer fronteiras físicas que são a expressão de uma comunidade política, e se minar os alicerces morais da forma de vida europeia e ocidental. Ceuta, a praça forte que a nossa “Ínclita Geração” tomou de assalto faz agora precisamente 511 anos, aí está a prová-lo, para quem ainda tivesse dúvidas.
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