Fernando Tavares lembra contratação falhada de Dallmann e aponta "falta de ambição europeia" ao Benfica

Fernando Tavares deu conta que o Benfica esteve a um passo de contratar Linda Dallmann, jogadora do Bayern Munique que na última quarta-feira mostrou toda a qualidade no Estádio da Luz, na vitória da formação germânica (3-0) diante das águias, a contar para a segunda jornada da fase de liga da Champions.

Numa extensa publicação no LinkedIn, o antigo vice-presidente dos encarnados diz que o negócio não avançou "porque a administração da SAD optou, erradamente, por abortar a operação", sublinhando também que o Benfica tem perdido grandes jogadoras nos últimos anos, "não por razões financeiras, mas sobretudo por falta de ambição europeia".

Eis a publicação na íntegra:

"Linda Dallmann e o custo das oportunidades perdidas

Na noite da passada quarta-feira em que a Linda Dallmann, jogadora do Bayern, exibiu toda a sua classe na Luz, ficou evidente aquilo que distingue a capacidade de integrar talento verdadeiramente diferenciador.

Poucos saberão que existiu um pré-acordo para que a Linda Dallmann representasse o Benfica. A atleta esteve comigo em Lisboa com uma autorização concedida pelo Bayern. Poucos saberão que vimos nela uma jogadora capaz de elevar estruturalmente o patamar competitivo da equipa. E poucos saberão também que essa possibilidade acabou por não avançar porque a administração da SAD optou, erradamente, por abortar a operação.

Não escrevo isto por saudosismo nem para revisitar decisões passadas. Escrevo-o porque o futebol, tal como a gestão, vive de escolhas. E algumas escolhas definem ciclos. Contratar a internacional alemã definiria um ciclo de qualidade e de posicionamento na Europa. Estas são as escolhas que o Benfica deve fazer. Esse é o patamar que o Benfica deve procurar, ao contrário de patamares medianos. Não se tratava de receber por empréstimo uma promessa do PSG, tratava-se de contratar uma atleta referência ao Bayern, quarto clube do ranking da UEFA.

Há atletas que preenchem um lugar no plantel. Há atletas que transformam equipas. Linda Dallmann pertence à segunda categoria. A jogagora estava motivada para representar o Benfica, aceitava vir pelos nossos números salariais e nunca percebeu tal recusa. Em poucos dias destrói-se o trabalho de um ano para “vender”, como opção profissional, o Benfica à atleta e à sua família. Para além disso, o Clube deu um péssimo sinal ao mercado, principalmente quando se pretendia, agora não se pretende, estar noutra escala de contratação.

A sua qualidade técnica, visão de jogo, inteligência táctica e capacidade de decidir nos momentos críticos são atributos raros. São características que não acrescentam apenas rendimento individual. Contagiam o coletivo, aumentam a exigência interna e mudam a dimensão competitiva de uma equipa.

Por isso, quando discutimos investimento, devemos ter a coragem de distinguir o custo do investimento do valor do investimento. O custo vê-se no momento da contratação. O valor mede-se dentro de campo. O futebol feminino europeu está a crescer a um ritmo acelerado. Quem quiser estar com aqueles que lideraram terá de perceber que a ambição constrói-se com qualidade.

Ao longo dos últimos anos o Benfica perdeu grandes jogadoras. Não por razões financeiras, mas sobretudo por falta de ambição europeia.

A distância entre estar entre os melhores e ser verdadeiramente um dos melhores mede-se muitas vezes numa decisão. Numa contratação. Numa oportunidade aproveitada. Ou numa oportunidade perdida."