Histórias de Amor Moderno: “Uma mulher com a pulga atrás da orelha consegue ser muito persistente. E pode ser capaz de fazer o impensável"

Rita. Assim, sem apelido e sem descritivo. Nada. Nem Rita Escritório ou Rita Prima, ou ainda Rita Miguel. Uma Rita assim tão vaga só podia significar uma Rita íntima. Não sei de que modo, mas com certeza seria próxima. 

As mensagens iam chegando. De vez em quando, lá se acendia o ecrã, com o símbolo do whatsapp e uma Rita sem rosto. Perguntei, Fernando, quem é a Rita? “Ah, não é ninguém.” Ninguém, diz ele. Não deve haver no universo pior resposta. Pelo menos, uma que denuncie mais o peso e a importância de alguém que queremos esconder. “Pois, foi o que pensei”, respondi eu, “que fosse ninguém, porque não tem apelido nem descrição, é só uma Rita à solta, sem rumo, tão perdida que vai dar ao teu telemóvel”. Olhou-me, com um ar agastado, “bom, não vamos começar”, disse ele, e enfiou de novo os olhos no telefone, a fazer scroll.

As mensagens da Rita Por Identificar deixaram de chegar. Desapareceu. O que não desapareceu foram as minhas suspeitas. A minha curiosidade manteve-se e agravou-se, cada dia mais intrigada com aquela “Jane Doe”, Rita sem nome, Rita ninguém. Então, decidi perguntar. Perguntar não ofende. “Fernando, a Rita nunca mais mandou mensagens?” Fez uma pausa. “Quem é a Rita?” Sorri e não insisti. Registei, com uma pontinha de orgulho, o progresso sensível do meu marido na arte de se desviar das balas. Mas não fiquei menos intrigada.

Uma mulher com a pulga atrás da orelha consegue ser muito persistente. E pode ser capaz de fazer o impensável. No meu caso, o impensável seria mexer nas coisas que não são minhas, vasculhar a privacidade do meu compenheiro de vida desde há muitos anos, devassar o seu objeto mais íntimo. Sei que o que fiz está errado. Em minha defesa, posso garantir que não o fiz por motivações mesquinhas, mas antes por desespero e medo de o perder. E, sim, por ter uma curiosidade insaciável.

"Pretty Woman" (1990)

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O esquema era intrincado e o disfarce estava bem conseguido, há que admiti-lo. A Rita não era Rita nenhuma. “Rita” era um nome de código. A “Rita” chamava-se Paulo.

Não foi fácil chegar a esta conclusão. No telefone, no whatsapp, no email, não havia traço ou vestígio daquela Rita sem apelido. Primeiro, pensei que tudo tivesse passado, que o Fernando tivesse passado à frente, que, sentindo a iminência da minha descoberta e com receio de ser desmascarado, tivesse decidido acabar com o que quer que existisse entre ambos e a houvesse eliminado por completo da sua vida, apagando inclusivamente o seu rasto. O problema é que a curiosidade de uma mulher acossada não deixa ninguém em paz. Muito menos autoriza a existência de uma paz podre.

Desse por onde desse, eu precisava de saber que Rita era aquela. Foram várias as investidas, muitas as incursões pelo telefone do Fernando, de cada vez que ia para o duche, ou que tirava uns minutos para ir para o quintal brincar com o cão, ou em qualquer outra situação em que deixasse o telefone ao abandono no balcão da cozinha. (A password de acesso ao telefone é fácil: 1755, ano da maior tragédia da história de Portugal. Havia nesse código qualquer coisa de premonitório, de anunciado.)

Corri-lhe o Instagram e ponta a ponta. Nada. Nem uma Rita. Mas, durante uma dessas visitas secretas e muito pouco éticas, dei pela chegada de uma mensagem. Só que a mensagem não entrou na caixa de mensagens, nem na principal, nem na geral, nem sequer na dos pedidos. Abri as definições: havia outro perfil. O meu marido tinha uma faceta alternativa chamada “Nando1755”. Revirei os olhos com a obsessão pela Terramoto e depois entrei no perfil. Era lá que estava a mensagem. “Paulo Solitário”, assim dizia o nome do remetente. Abri.

Um Ano Especial (2006)

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A conversa ali guardada era longa. Demasiado longa para conseguir sequer resumi-la aqui. Basicamente, o Fernando e o Paulo trocavam mensagens há quase um ano. Como as mensagens eram muitas, não consegui ler tudo de uma só vez. O meu trabalho foi o de um prisioneira que escava um tunel da cela até à rua usando uma colher de café. Um dia de cada vez, meia dúzia de parágrafos por dia. Assim fui lendo e reconstituindo na minha cabeça a história de amor entre Fernando e Paulo. Sendo que o primeiro era meu marido e eu não podia denunciar-me enquanto não chegasse ao fim da epopeia.

Mas cheguei. Foram tantos os esquemas e os planos que engendraram que mais pareciam miúdos a programar uma escapadinha pela janela a meio da noite para se encontrarem debaixo de uma varanda clandestina qualquer. Chegava a ser comovente.

A passagem em que decidem trocar mensagens pelo whatsapp para não darem demasiado nas vistas estando sempre no instagram prendeu-me a atenção. Paulo seria “Rita” nos contactos de Fernando. Este, por sua vez, seria “Liliana” no de Paulo. “Porque é que não usaram nomes de homem para os disfarces”, perguntei-lhe, dias mais tarde, quando o confrontei com tudo o que tinha descoberto. “Não queríamos que pensassem que somos gays”, foi a resposta. É quase enternecedor. Rita para um, Liliana para outro, não fosse alguém descobrir o affair e desconfiar da masculinidade destes homenzarrões.

“Nunca aconteceu nada entre nós”, afirmou Fernando. Jurou-me, a pés juntos, garantiu-me pelo mais sagrado, pela saúde dele próprio e pela saúde da mãe dele! Nunca, nunca se tocaram, nunca se beijaram. E só se viram duas vezes na vida e em público, num lugar com muita gente. “Sabes que eu sou homem, Júlia. Eu sou muito homem.” Sorri, incrédula, confusa. Desmotivada. Sem forças para mais.

O Sexo e a Cidade

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Pensei em mandar mensagem para o Paulo. Perguntar-lhe o que tinha, de facto, acontecido. O que tinha havido entre eles. Até onde tinham ido, o que tinham feito. Mas para quê? Não havia mais nada para saber ali. Nada para descobrir. O meu homem andou, durante os últimos largos meses, a flirtar com outro homem. Acreditando nas mensagens trocadas entre ambos, apaixonaram-se. Planeavam fazer uma vida juntos. Que mais é que eu queria saber? Se tinham ido para a cama? Se tinham tocado nos sexos um do outro? Que importância tinha isso, diante de tudo mais?

O Fernando desapaixonara-se de mim de uma forma tão séria e profunda que fora em busca de amor num Paulo Solitário. E isso era tudo o que importava saber. Não nos resta futuro. Não vale a pena insistir numa relação que não tem salvação.

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