Mafalda Castro: “Quando somos mães, amamos aquela criança, mas podemos demorar a amar a nossa nova vida”

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Quando um filho nasce, nasce uma mulher à procura de uma nova identidade. Mafalda Castro, mãe de Manuel, de 2 anos, percebeu-o desde a gravidez, contrariada por desafios que lhe ensinaram como pode ser bonito aprender a contar com os outros. Em Portugal, os estudos dizem-nos que mais de 80% das mães queixam-se de estar mentalmente sobrecarregadas, tal como aconteceu com as suas mães, com as suas avós e com quase todas as mulheres que conhecem, tenham ou não uma família. A saúde mental materna, tema amplamente discutido nas últimas semanas a propósito do caso de Lindsay Clancy, a enfermeira norte-americana que matou os três filhos pequenos e cujo julgamento Mafalda Castro também acompanhou, continua a confundir um mundo assente em mulheres heroínas, capazes de trabalhar como se não tivessem filhos e de cuidar destes como se não trabalhassem.

Aos 32 anos, a apresentadora e criadora de contéudos já faz parte de uma geração para quem a saúde mental é uma prioridade e isso não foi exceção na gravidez e no pós-parto. A Máxima conversou sobre o tema com Mafalda Castro, agora na versão 2.0.  

Camisola, SKFK.
Camisola Jacquemus, na Stivali. Saia, Elisabetta Franchi. Perneiras, Miista. Sapatos, Elisabetta Franchi.

Foto: João Janot / Máxima

És a nova capa digital da Máxima, dedicada à saúde mental. A maternidade, com todas as suas mudanças emocionais, hormonais e físicas, é um momento particularmente sensível nesse sentido, Como antecipaste estas questões? Foram uma preocupação consciente? 

Fala-se cada vez mais da ligação da saúde mental à maternidade e, por isso, logo na gravidez, eu não estava às escuras. Já tinha ouvido falar do tema e já tinha pensado sobre ele – apesar de nós termos sempre aquela coisa de achar que não nos vai acontecer a nós, “ah não, mas eu vou lidar super bem, há uma queda hormonal, mas calma, porque eu sei dar a volta, eu sempre soube”. E depois quando chega o momento é tudo bastante diferente. Mas eu tive sempre pessoas muito presentes para mim e de uma forma consistente, por isso fui sempre dizendo aquilo que eu sentia e que pensava às pessoas mais próximas da minha vida. Sinto que foi assim que ultrapassei essa fase, embora com vários desafios, obviamente.

A verdade é que em apenas alguns meses tudo muda na nossa vida, portanto é normal demorarmos algum tempo a habituar-nos, apesar de amarmos aquela criança, de amarmos tudo, demoramos um pouco a amar a nova vida. Porque chegam imensas outras coisas. Eu diria que passado uns meses [do meu filho ter nascido] comecei mesmo a amar a minha nova vida. É importante termos a consciência das transformações logo na gravidez e, se tivermos antecedentes, já sabemos que não conseguimos lidar bem com a mudança, ou com certas coisas. Acho que é muito bom ter contactos de emergência género “malta se eu estiver assim, se eu me vier abaixo, vamos marcar uma consulta, vamos ser acompanhadas”.  

Numa entrevista recente falaste sobre algumas complicações de saúde que te deixaram muito fragilizada no pós-parto. De que forma é que desconstruir a ideia de que as mulheres - e as mães em particular - têm de ser sempre umas heroínas pode fazer a diferença? Sentiste-te de alguma forma afetada por essa “pressão”?  

Essa pressão eu acho que nós pomos em nós próprias, ou seja, nunca ninguém me pressionou para fazer mais e melhor do que aquilo que eu estava a fazer, mas sentia que podia, que devia. Senti que seria melhor mãe se fizesse mais, que seria melhor mulher. Portanto, acho que é quase da nossa natureza, embora também impulsionado pelas redes sociais e por nos compararmos uns com os outros, mas acredito que as pessoas se comparassem antes, talvez não ao nível de hoje, é certo, mas sinto que já se comparavam antes de estarem tão presentes nas redes sociais. 

No pós-parto, essas complicações acabaram por afetar a minha mobilidade, portanto houve muitas coisas que ficaram para o Rui [Simões, pai do filho de Mafalda] fazer e não para mim - e senti-me em falha, sim. Com o tempo, isso passou. Foi dura essa parte e acho que serve também como reflexão precisamente para perceber que não temos de fazer tudo e não temos de conseguir chegar a todos os lados. 

Camisola, SKFK.
Camisola, Jacquemus. Soutien, Intimissimi. Top (a fazer de saia), Pinko. Collants, Calzedonia. Meias, Falke. Sapatos, Mango.

Foto: João Janot / Máxima

A ideia de perfeição está, aliás, muito presente nas redes sociais e no mundo. De que forma é que essa pressão te afeta - ou não – desde que tiveste um filho? E noutras fases da vida? 

Eu acho que me afeta na maternidade como noutra área qualquer. Tento não me inspirar, aliás, eu não me inspiro em ninguém online para a minha maternidade, não há ninguém que eu siga porque acho que é uma mãe incrível e acho que posso fazer parecido com ela. Tento não me comparar, até porque sei que aquilo que nós partilhamos nas redes sociais não é aquilo que se passa em nossa casa, portanto não há ninguém que eu pense “ah, que boa mãe, quero ser como ela”. É uma coisa que eu evito, essa perfeição, até porque todas nós falhamos, todas nós temos coisas em que somos muito boas, outras em que somos ótimas e outras ainda em que não somos assim tão boas e que tentamos colmatar, portanto é a realidade de todas. 

Na tua vida profissional essa missão é mais complicada? 

A nível de trabalho, comparo-me um bocadinho mais, apesar de ser injusto e de obviamente ter essa consciência porque já tenho bastantes anos de trabalho e sei que cada um tem o seu caminho. Há alturas [em que estou] mais para cima, há alturas em que estou mais em baixo, há alturas em que alguém está com muitos projetos, outra pessoa está com menos e isso não define nada. Acabo por sentir essa pressão, também posta por mim própria, e pela comparação nas redes sociais, acho que é o que me afeta mais, é o meu nível de trabalho. Tento recentrar-me, mesmo quando sei que a minha cabeça está a ir para aí, eu penso “calma, ‘bora lá fazer aqui um exercício de pensar nas coisas como elas são e não nesta ilusão que nós temos que os outros é que estão a fazer bem e a fazer melhor".   

Camisola, SKFK.
Vestido Acne Studios, na Stivali. Bolero, Guess. Corset vintage, La Perla. Meias, Falke.

Foto: João Janot / Máxima

Existe o conceito de que os primeiros anos de uma mãe são como uma nova adolescência, até porque se está a encontrar uma nova identidade. Sentiste isso?  

Eu senti que tudo mudou quando fui mãe. Eu mudei e gosto muito mais da versão que sou hoje. Eu sinto que sou uma versão 2.0, uma versão melhorada daquilo que eu era, com mais sensibilidade, mais atenção aos outros, mais... Eu diria mais empatia porque olho para as outras pessoas de uma forma diferente. Eu nunca sei se aquela mãe acabou de deixar o filho a chorar na escola, eu nunca sei se aquela mãe ou se aquela pessoa que está na rua não dormiu nada a noite toda. Eu acho que a maternidade acaba por nos aproximar muito umas das outras. E estranho quem passa pela maternidade e não ganha esta sensibilidade – porque nem todas as pessoas pensam da mesma forma que eu. Mas é uma coisa muito estranha porque a mim aproximou-me e tornou-me amiga de todas as mulheres do mundo. Das mães e não-mães. 

Há algum aspeto da maternidade sobre o qual aches que se devia falar mais? Ou alguma coisa que devíamos deixar de romantizar?  

Acho que não, hoje quase se fala mais da parte má do que da boa, ou seja, estamos a falar aqui do peso da maternidade, aquilo que pode mudar numa mulher, mas tudo aquilo que pode transformar a mulher para melhor é muito maior, ou seja, essa fatia do bolo é um milhão de vezes maior do que a fatia má. Portanto, eu acho que temos de ter noção disso – sabermos o quanto muda a nossa vida, mas para melhor. E o quão bom é nós vivermos em prol de alguém, nós deixarmos de nos priorizar e passarmos a priorizar a outra pessoa durante um tempo. É importante, é bonito, faz parte da vida e é uma aprendizagem mesmo. Não devemos romantizar, não, ou podemos não romantizar, mas acho que é bom também falar da parte positiva, do quão bom é nós darmos tudo por alguém e queremos que essa pessoa consiga viver e seja a melhor pessoa que nós pusemos neste mundo. 

Camisola, SKFK.
Camisola, SKFK. Saia, Pinko.

Foto: João Janot / Máxima

Como acompanhaste o recente julgamento de Lindsay Clancy, a mãe norte-americana que estaria a passar por uma depressão ou mesmo psicose pós-parto e que matou os três filhos, um deles ainda bebé, e que gerou uma enorme reação, em especial entre as mulheres?

Este caso chamou a minha atenção porque achei muito estranha a onda de apoio e tudo aquilo que surgiu à sua volta. Ou seja, porque é que as pessoas de repente estavam do lado de uma mãe que cometeu um crime destes? Depois percebi que havia uma história por trás do caso, que as pessoas se relacionaram com a história dela, com o facto dela, que é alguém com quem não me identifico de forma alguma, estar muito sozinha, dar tudo para aqueles três filhos e ter tido um pós-parto complicado, uma depressão pós-parto não acompanhada… É a realidade de muita gente e muitas pessoas se sentiram ouvidas por ela estar a ser ouvida pelo mundo. 

Chamou a minha atenção: porque é que esta mulher está a ter este apoio? Houve pessoas vestidas de cor-de-rosa em solidariedade com ela, pessoas fora do tribunal a vê-la, ou seja, ela tornou-se quase um "ídolo" de um grupo de pessoas, o que me causou muita, muita estranheza. Depois percebi porquê. 

A saúde mental é um dos grandes desafios dos nossos tempos. Quais são as tuas principais prioridades para conseguir cuidar da tua? 

Neste momento é tentar desligar um bocado das redes sociais, é o básico. Tentar não comparar, ser acompanhada por psicólogas, o que é muito importante também, quando sentimos essa necessidade. E falar das coisas, não ter medo de falar, falar com quem gosta de nós e que nos ouve. Porque às vezes temos poder, não queremos chatear as pessoas, não queremos estar a partilhar certos pensamentos e eu acho que nunca tem mal fazê-lo. Eu também adoro ouvir os pensamentos, os problemas dos outros, ajudar a desconstruir, e é bom fazermos esse exercício ao contrário também e deixar que nos ajudem a nós. 

Camisola, SKFK.
Camisola Jacquemus, na Stivali. Saia vintage, La Perla. Collants, Wolford. Perneiras rosa do arquivo da stylist. Sapatos, Hispanitas.

Foto: João Janot / Máxima

CRÉDITOS

Fotografia: João Janot

Styling: Sara Soares

Vídeo: Bakery

Cabelos: Soraia Tomé (L'Oréal Professionnel)

Maquilhagem: Daniela Inácio (YSL)

Assistente de fotografia: @vt.curator @comuna_rental

Assistente de Styling: Andrea Azevedo

Localização: MVMT Studio

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