John Coltrane libertou-se da morte em cada sopro que exalou. O saxofonista norte-americano teve uma breve passagem pela Terra, morreu aos 41 anos, mas foi de tal forma marcante que a sua genialidade é proclamada por músicos das mais distintas correntes, do jazz à pop, do rock ao rap. Assinalam-se esta quarta-feira 100 anos desde o nascimento do astro que desenhou o futuro do jazz empunhando apenas um saxofone e um desejo enorme de consumir o mundo.
Nascido a 23 de setembro de 1926, Hamlet, Carolina do Norte, nos Estados Unidos, Coltrane nasceu no mesmo ano que outro dos músicos mais importantes do século XX: Miles Davis, que será um dos homens responsáveis por trazer o saxofonista para os holofotes do jazz.
A sua infância foi marcada por crescer no seio de uma família religiosa e envolvida com os direitos dos negros nos Estados Unidos. Ambos os pais tocavam música de forma amadora, sendo o pai alfaiate e a mãe costureira Os avós de John Coltrane por sua vez eram pastores metodistas, o que levou o jovem a crescer sempre rodeado de música, quer fosse em casa com os pais a tocar ou a ouvir rádio ou os salmos e hinos na igreja. Tocou vários instrumentos de sopro na banda escolar até se decidir definitivamente pelo saxofone.
Durante a adolescência mudou-se com a família para Filadélfia, uma Meca musical dos Estados Unidos, com uma forte comunidade negra e onde o jazz era rei e senhor. Aos 19 anos entra na Marinha e, em 1945, é enviado para o Havai, integrando a banda militar Melody Masters. De volta ao continente, inscreve-se na Granoff School of Music onde aprende a teoria clássica que mais tarde irá desafiar, mas que primeiro estudou afincadamente.
O centenário de Coltrane não ficou esquecido. Há concertos, exposições, reedições e novidades a chegar ao mercado, incluindo as Tiberi Tapes, gravações privadas feitas pelo saxofonista Frank Tiberi durante a primeira metade dos anos 60 de forma a poder transcrever os solos de Coltrane e estudá-los e ensiná-los aos seus alunos. No total Tiberi gravou mais de 60 horas de concertos numa altura em que Coltrane estava no auge.
Mas acima de tudo, Coltrane deixou discípulos. Não há saxofonista que não reconheça nele um mestre, mesmo aqueles que fogem ao seu estilo, ou estudante de jazz que não o considere como um dos mais geniais músicos a agraciar um disco.
Ricardo Toscano, um dos principais nomes do jazz nacional, tocou - e continua a tocar - A Love Supreme em várias ocasiões, o CCB organizou uma série de concertos para celebrar o legado de Miles Davis e de John Coltrane em maio deste ano e a Orquestra de Jazz do Hot Clube celebra o centenário com Meditations: Nos Passos de John Coltrane, projeto em que cinco compositores contemporâneos foram desafiados a criar obras inspiradas no legado do saxofonista.
Chullage, um dos principais nomes do hip hop nacional tem em Coltrane uma das suas principais referências musicais, tendo até escrito versos sobre a transcendência do saxofonista no verso assombroso de "Chakras", do projeto Classe Crua: "Há uma festa no terraço duma casa sem alicerces / Fuck'em, fecho a matraca, e alinho os chackras / Escrevo linhas sacras, cansado de tantos wankers / Falinhas e bácoras meu pensamento entra no train / A curtir Coltrane e mando rimas só por treino / Giants Steps, A love supreme / Estou fora do frame ponho os fones, subo o gain, expulso o pain / E mando um grito".
E esta admiração só foi possível porque há 100 anos nascia John William Coltrane.
Uma vida de música, espiritualidade e luta
Em 1955, com 29 anos, casou com Juanita Grubbs - que mais tarde viria a adotar o nome Naime, nome eternizado numa das mais famosas composições de Coltrane - e ambos tiveram uma filha, de seu nome Syeeda. Coltrane aperfilhou ainda Antonia, filha de Grubbs de um outro relacionamento. 55 é também o ano em que John Coltrane é convidado por Miles Davis a integrar o seu novo quinteto que incluía ainda Red Garland no piano, Paul Chambers no contrabaixo e Philly Joe Jones na bateria. Desta quinteto resultaram alguns dos melhores discos da carreira de Miles Davis: 'Round About Midnight, Walkin' e Cookin'.
Este Primeiro Grande Quinteto desagrupou-se devido ao abuso de drogas e heroína por parte de Coltrane. Miles Davis tinha tido também o seu problema de adição e não despediu o saxofonista por pudor, apenas porque precisava de músicos que funcionassem ao mais alto nível, capazes de tocar mais do que uma vez por noite - por vezes quatro e cinco sets numa noite - e de aguentar sessões de estúdio em cidades diferentes todos os dias.
Depois de ter sido despedido, Coltrane livrou-se do vício da heroína ainda em 1957. De acordo com as notas de A Love Supreme, o músico teve uma epifania espiritual que biógrafos acreditam estar relacionada com o ter ultrapassado a sua adição. "Com a graça de Deus, tive um despertar espiritual que me levou a uma vida mais rica, preenchida e produtiva. Nessa altura, em agradecimento, pedi humildemente que me fosse concedido o dom e o privilégio de fazer os outros felizes através da música."
1957 foi também o ano em que Coltrane tocou com o grupo do pianista Theolonius Monk, um dos maiores revolucionários do jazz e outro dos mentores que ajudou o saxofonista o seu som único, com várias notas disparadas a uma velocidade estonteante sem sacrificar o volume das notas. Data também deste ano o primeiro disco como líder (um disco menos conhecido chamado Coltrane). Mas em 1958 edita Blue Train e Soultrane, dois dos seus discos mais importantes. Em simultâneo volta a integrar a banda de Davis e em breve estará nas sessões de gravação do disco mais vendido da história do jazz: Kind of Blue, o disco insígnia de Miles Davis, que escancarou as portas do modalismo (umas das várias revoluções iniciadas pelo trompetista). 1959 é também o ano em que Coltrane edita Giant Steps, pela Atlantic, um marco da música do século XX , em grande parte graças à sua composição título que muitos estudiosos consideram a planta de todo o jazz que estava por vir.
Os anos seguintes são estrondosos. My Favorie Things é um portento em que Coltrane transfigura standards de forma magistral particularmente a canção de Rodgers e Hammerstein escrita para o musical The Sound of Music numa viagem trascendental. Olé Coltrane é um mergulho na música espanhola - no ano anterior Miles Davis gravara uma versão do Concierto de Aranjuéz - e africana (gravou na mesma altura Africa/Brass, disco inaugural com a Impulse!). Há também dessa época o disco Coltrane Plays the Blues e a soberba colaboração entre Coltrane e Johnny Hartman, único disco que o saxofonista gravou com um vocalista. Em apenas seis anos, John Coltrane participou em dez dos discos mais importantes da história do jazz.
Mas apesar de toda a magnificência do que tinha vindo antes, ninguém estava preparado para o que Coltrane ofereceria à humanidade em 1965. Depois de anos a tocar com a nata da nata, destilou o quarteto perfeito. Ele como líder e compositor, McCoy Tyner como o pianista que o entendia melhor do que ninguém e criava texturas que permitia a todos os seus camaradas brilhar, Jimmy Garrison a funcionar como a veia pulsante que garantia a circularidade do som e Elvins Jones como o ribombar da marcha em curso. Este foi o quarteto que gravou com Johnny Hartman, Ballads, Live at Birdland e, em 1965, A Love Supreme, uma carta de amor a Deus e à humanidade, a obra-prima de Coltrane e um dos marcos incontornáveis de toda a arte do século XX. Ainda hoje este disco é alvo de reedições que esgotam e é uma porta de entrada para milhares de ouvintes no mundo do jazz norte-americano.
Em 1963, Coltrane iniciara uma relação com a pianista Alice McLeod que viria a adotar o apelido do marido. Desta relação nasceram três filhos (John, Ravi e Oran), tendo Coltrane perfilhado Michelle. Depois de casarem, em 1966, Alice Coltrane entra para a banda do marido e depois teria uma carreira a solo na qual unia o jazz à música indiana, numa continuação do trabalho que vinha a desenvolver com John.
Esta espiritualidade e procura por um caminho iluminado acompanhavam o ar dos tempos. A década de 60 foi um dos períodos de maiores lutas pelos direitos civis pelos afro-americanos. Enquanto Coltrane soprava a sua raiva, paixão e preocupação em disco Martin Luther King Jr e Malcolm X percorriam os Estados Unidos a pregar e Muhammad Ali recusava-se a apresentar-se para a recruta.
Esta consciência cívica e política levou Coltrane a explorar novas formas de música, abrindo o seu quarteto à entrada de mais músicos, incluindo Pharoah Sanders, Archie Shepp ou Freddie Hubbard e gravando discos menos presos à forma e mais abertos ao improviso. É daqui que nasce, um ano depois do hiper-estruturado A Love Supreme, o incrivelmente livre Acension, disco em que onze músicos trocam solos entre si ao longo de 40 minutos.
Os dois anos seguintes não foram os mais bem conseguidos de Coltrane. Notava-se que procurava um novo som, mas que este lhe fugia por entre os dedos (a excepção será Meditations, em que se voltou a unir ao quarteto Tyner-Jones-Garrison, mas juntando ainda Pharoah Sanders e Rashied Ali como segundo baterista).
Coltrane acabaria por morrer em julho de 1967, no dia 17, uma segunda-feira azul. Foi vítima de um cancro do fígado. Mas construiu uma casa com alicerces profundos, sopro a sopro.