Vinte mulheres, com uma média de idades de 70 anos, preparavam-se, ao final da manhã deste domingo, no Porto, para desfilar peças de roupa que estavam esquecidas num armário e que ganharam uma nova vida, depois de recuperadas.
From Granny To Trendy é um projeto dedicado a mulheres Vintage for a cause via Facebook
Foi o culminar de um programa de capacitação para mulheres desempregadas com mais de 50 anos, focado em envelhecimento ativo, circularidade têxtil e empoderamento feminino, promovido pela marca de moda circular "Vintage For a Cause".
Ao longo dos últimos meses, estas mulheres (do Bonfim, Porto, e de Esposende) encontraram-se regularmente para aprender a reconverter roupa usada em novas peças. As que vestiram no desfile foram o resultado direto desse trabalho.
O desfile intitulado "From Granny To Trendy" (de avó a tendência) aconteceu no âmbito do Open Day Circular, no The Social Hub, no Porto.
O objetivo é promover a autonomia, a autoestima e a saúde mental, formando participantes que depois atuam como co-facilitadoras em atividades intergeracionais.
Nos bastidores, as mulheres preparavam-se durante a manhã para o desfile, maquilhavam-se, arranjavam o cabelo, conferiam os últimos detalhes e ensaiavam os passos, nesta fase orientadas pela estilista Katy Xiomara.
O ambiente é de expectativa, mas também de descontração.
Para algumas, como Esperança Maria, Maria Luísa Costa e Leonilde, aquele momento representa o resultado de meses de aprendizagem e trabalho. Para todas, o desfile é mais do que a apresentação de roupas, é a etapa final de um processo que junta reutilização, criatividade e inclusão social.
A iniciativa nasceu da "Vintage for a Cause", criada em 2013 por Helena Silva com o objetivo de promover a reutilização de roupa e, ao mesmo tempo, a inclusão social de mulheres com mais de 50 anos afastadas da vida ativa.
À Lusa, Helena Silva explicou que o projeto cresceu e deu origem aos Clubes Circulares. A metodologia foi sendo adaptada e replicada em diferentes localidades e para diferentes públicos.
A ideia é simples: pegar naquilo que já existe e descobrir o que ainda pode ser feito, mas, neste caso, o que se transforma não são apenas as roupas.
Esperança Maria contou à Lusa que a costura faz parte da sua história desde criança, a mãe era costureira e foi com ela que aprendeu a conviver com tecidos, linhas e cortes.
Trabalhou em confeções, numa fábrica de malhas e na agricultura, hoje está reformada.
Um acidente obrigou-a a parar e a mudar as rotinas. Foi então que encontrou este projeto e voltou a mexer em tecidos. Mas encontrou também algo que ia para além da costura: um grupo.
"Tenho amigas, tenho. Somos amigas, gostei muito", disse.
É uma frase curta, mas resume uma parte importante do que acontece nestas oficinas, em que a roupa é apenas o ponto de partida.
Maria Luísa Costa, de 70 anos, está reformada, mas não se identifica com a ideia de passar os dias sem desafios.
"Não gosto de estar naquelas universidades seniores", explicou à Lusa.
Maria Luísa prefere atividades que lhe permitam aprender de outra maneira, experimentar e descobrir até onde consegue chegar, e foi isso que encontrou no clube de reutilização de roupa "From Granny To Trendy, .
Durante meses, o grupo reuniu-se regularmente, cortaram, coseram, experimentaram, desfizeram e voltaram a fazer.
"Foi um ano, uns meses muito interessantes, muito divertidos", disse.
Leonilde, de 67 anos, já conhecia o projeto, gostou desde o primeiro dia e decidiu voltar.
Quando a Lusa lhe perguntou o que lhe trouxe a experiência, respondeu sem hesitar: "Adorei."
Depois, acrescentou aquilo que parece ser ainda mais importante: "Isto ajudou-nos muito na nossa vida. Ajudou a conviver".
Fez um vestido decorado com rendas e prepara-se para desfilar com ele.
O desfile é o momento final de um percurso que durou meses, cada mulher entra em cena com uma peça que ajudou a transformar e que, no final, leva para casa.
Ao longo dos anos, Helena percebeu que havia outra dimensão a acontecer: As mulheres aprendiam técnicas, mas também recuperavam autoestima, criavam amizades e construíam redes de apoio.
"Eu consigo" tornou-se uma das mensagens fundamentais do projeto, explicou a responsável à Lusa.
A metodologia foi sendo adaptada e replicada em diferentes localidades e para diferentes públicos, surgindo assim os Clubes Circulares, hoje, em outras atividades e nos quais podem participar crianças, jovens, adultos, comunidades migrantes ou pessoas mais velhas.
Helena Silva guarda várias histórias das mulheres que passaram pelos programas. Uma das que mais recorda é a de Felicidade e Conceição. Conheceram-se numa das oficinas e tornaram-se amigas inseparáveis.
"Criaram o próprio projeto, continuam ligadas à rede de costureiras e chegam mesmo a passar férias juntas", contou Helena.
É uma consequência que não estava necessariamente prevista quando entraram na primeira sessão, mas é precisamente esse tipo de resultado que a organização considera mais difícil de medir e, talvez também, um dos mais importantes.
"Uma oficina pode ensinar a coser, mas não consegue, por si só, explicar o que significa para alguém voltar a ter um grupo de amigas", sublinhou.
Há outra história que Helena Silva contou com um sorriso: "A organização decidiu, num determinado momento, aumentar o grau de dificuldade de uma atividade, mas algumas participantes não gostaram e saíram".
Mas, em vez de abandonar a atividade, fizeram aquilo que talvez seja "uma das maiores provas de que o projeto funcionou: criaram o próprio clube".
O crescimento do projeto passou pela adaptação da metodologia a diferentes localidades e públicos e pelas parcerias estabelecidas ao longo do percurso. Os resultados são também avaliados cientificamente, numa parceria com o Politécnico do Porto.
"Há números, mas há também outros indicadores que procuram medir aquilo que acontece com as pessoas: autoestima, autonomia, qualidade de vida e sentimento de pertença", salientou Helena Silva.
Segundo os dados apresentados pela organização, cerca de 93% das participantes consideraram que aumentaram significativamente a sua perceção de qualidade de vida.
É um número importante, mas basta observar a sala para perceber que há coisas que uma estatística não consegue contar.