Um eclipse de cada vez

É como as dietas, que falham ao longo do ano por isto e por aquilo – no fundo, porque dão muito trabalho e exigem muita vontade –, mas se suspendem em agosto porque, caramba, férias são férias. Tudo o que não se faz sem querer no resto do ano, não se faz de propósito em agosto. A preguiça é mais ou menos a mesma, mas o Verão amnistia tudo. O “merecido descanso” torna meritório o ato de pôr ao sol a barriga com que se foi empurrando a vida o resto do tempo. 

Neste “doce fazer nada”, os problemas vão e vêm sem serem resolvidos. Sem sequer (a não ser que nos obriguem) aprendermos alguma coisa com eles. A crise seguinte eclipsa a anterior e, assim, nenhuma delas precisa realmente de ser resolvida. Basta esperar que passe e o sol voltará a brilhar – nunca para todos mas, com sorte, para os suficientes. 

Assim vamos. Luís Neves foi recrutado para emprestar ao Governo a respeitabilidade da Polícia Judiciária e acabou a manchar a Polícia Judiciária com a cultura de informalidade e jeitinho que já estava bem viva no Governo. Com isso, animou os apetites de uma coligação ampla de gente duvidosa, que vai do Chega a advogados de traficantes de droga, arguidos em casos de grande corrupção e autores de “manifestos” pela domesticação da Justiça, que têm razões de sobra para não gostar de Luís Neves e querer enfraquecer a PJ. Devíamos aprender alguma coisa sobre a utilidade de manter instituições importantes a salvo do mundo sujo da política e dos partidos, mas deixemos essa lição para outro dia. 

O Governo avança triunfal num festival de compras militares apadrinhadas por Bruxelas – mas pagas com dívida pública –, num setor manchado por conflitos de interesses, portas giratórias e muita opacidade, onde a contratação em circuito fechado é um vício recorrente. Isto é sério e merece debate sério, mas ficamo-nos antes pelo anúncio frívolo de um processo frívolo contra o Chega. Das fardas aos submarinos, das messes à “Tempestade Perfeita” no centro do Ministério, a Defesa é uma central permanente de cambalachos. Mas o Chega acha útil fazer-se porta-voz de uma empresa privada com fome de comissões. Na maioria ou na oposição, a agenda parece limitar-se a puxar a negociata à sua sardinha, porque limpar a casa daria muito trabalho. 

Os impostos devidos pela EDP no negócio artificioso da venda das barragens do Douro estão a dois meses de caducar, alerta o Movimento Cultural da Terra de Miranda, essa tribo de irredutíveis mirandeses que, face à cumplicidade inerte do Estado, ficou com o exclusivo da defesa do interesse público. O Ministério das Finanças promete que isso não acontecerá, numa resposta vaga e incapaz de detalhar o que está a ser feito para garantir a cobrança. Mas, se acontecer, essa capitulação do Estado a um feudo predatório é em outubro, pelo que não precisamos de nos preocupar com ela hoje. 

O que importa é que os avisos tenham sido eficazes e o eclipse de ontem não tenha provocado nenhum caso de cegueira lenta – já temos muito disso, e sem astros a ajudar. E importa, fiéis à quadra, esclarecermos o grande escândalo de agosto: como pode a água do mar estar mais fria no Algarve do que a Norte [não sabemos se “a Norte” inclui a costa de Melides, porque aí ninguém consegue chegar à praia]?  

Como lesado algarvio que esta semana também sou, vivo embrenhado nesta magna questão. Se fosse deputado, anunciava CPI. Potestativa. Não sendo, consola-me que o próprio primeiro-ministro, que abdicou das suas férias para manter o dedo no pulso da Nação, tenha sido visto no Algarve a inteirar-se pessoalmente da crise. Ainda não foi anunciado qualquer fundo de compensação às vítimas, pelo que é provável que o grave problema de falta de nortada (que se lixem as alterações climáticas a que poderá estar associado) acabe por não ter outra consequência que não entreter-nos por uns dias.  

É aproveitar enquanto dura. Todos os nossos problemas continuarão à nossa espera quando voltarmos. Aí, teremos de encontrar outro pretexto para ignorá-los. Para já é agosto e estamos autorizados. Boas férias.