Cestas de vime. Como se fazem? "Com tempo e dedicação!"

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Este é o segundo episódio de A Nossa Cultura, aqui na Feira de São Mateus, em Viseu, uma feira com mais de seis séculos de história que chega este ano à edição 634. E apesar de muita coisa ter mudado ao longo de tantos anos, há tradições da feira de antigamente que continuam a encontrar o seu espaço numa Feira de São Mateus cada vez mais moderna. É o caso do artesanato e das tradicionais cestas, que ainda hoje encontramos à venda no recinto. E é precisamente aqui, no Pavilhão Multiusos da Feira de São Mateus, que fazemos esta nossa segunda paragem para conversar com Fernando Sampaio, artesão que faz as tradicionais cestas da região de Viseu. Viva, Fernando. Obrigado por falar à Rádio Observador. Começamos por estas cestas que temos aqui à nossa frente. São todas feitas pelo Fernando. Que materiais é que são utilizados?

Ao longo de toda a vida, o cesto sempre reinou. Por ele ser tão precioso, o seu reino nunca acabou. Temos aqui tala em mimosa ou castanho e temos o vime.

E como é que se faz uma cesta destas? Pode-me explicar de forma breve o processo?

Faz-se com tempo e dedicação. É preciso transformar, é preciso aplicar, calma e atenção pelo serviço. É preciso a pessoa dedicar-se, porque senão não sai nada.

E por exemplo, esta cesta aqui, que temos à nossa frente.

É uma queijeira maior.

Uma queijeira. Quanto tempo demora o Fernando a construir uma cesta desta?

Eu normalmente não calibrar um tempo para produzir um produto. Eu quando quero fazer qualquer trabalho, costumo fazer em série. Meia dúzia, mais ou menos, ou para 10, e faço em série. Faço todas as tampas ou todas as bases primeiro, depois vou seguindo a estratégia que tenho que seguir.

Uma enorme linha de produção baseada numa só pessoa. E senhor Fernando, quem é que lhe ensinou este ofício? Vem de família?

Isto já vem tradição do meu pai, só que eu mais tarde melhorei. Fiz formação no CEArt e melhorei.

Foi se formar para melhorar aquilo que vinha da tradição familiar.

Exatamente.

E à Feira de São Mateus, há quantos anos vem vender as suas cestas? Lembra-se de como é que era a feira quando começou a vir cá?

À Feira de São Mateus eu já venho há volta de 30 anos, mas depois a coisa foi-se modificando. Hoje tenho um lugar próprio. Antes, vinha às tardes convidado por um senhor do artesanato.

Está-me a dizer que antigamente não tinha um lugar fixo?

Não tinha. Vinha eu mais outros artesãos e vínhamos fazer uma tarde com espaço reservado aí fora e eles pagavam-nos o tempo. Hoje não, hoje temos aqui quem está selecionado, temos um espaço reservado.

E o que encontra nesta feira, como disse, cada vez mais moderna e diferente, é normal, mas o que encontra nesta feira coisas da feira de antigamente?

Aparece de tudo o que é necessário e que possa ser vendável ao público.

E hoje, como é que está a correr as vendas? Hoje em dia ainda se vende muitas cestas, as pessoas vêm à procura desta que é um artesanato tradicional aqui da região de Viseu?

Sim, o meu produto vende-se. Se não for hoje é amanhã, vende-se, tem qualidade e tem prestabilidade, portanto é prestável, é utilitário. Tem qualidade, é seguro, é bem feito, é bonito aos olhos. Tudo funciona de acordo com a minha opinião, porque eu quero reparar uma coisa que por vez estava mal feita.

É o trabalho com brio que merece. Então já percebemos que há efetivamente ainda pessoas à procura, mas e pessoas a fazer este trabalho? Antigamente, calculo que havia mais pessoas a fazer este trabalho aqui na região, mas hoje ainda há quem queira aprender este ofício?

Provavelmente há mais quem queira vender, do que queira produzir. Mas o vender e o produzir são diferentes. As pessoas primeiro deviam produzir e depois vender. E quando é no produzir, não querem vir, não querem perder tempo, não querem meter isto na cabeça. E depois as vendas não podem sair. As vendas têm que ficar comigo ou eu ceder isto a alguém no caso de chegar a um acordo.

É o testemunho de Fernando Sampaio, artesão aqui na Feira de São Mateus. Vem há mais de 30 anos aqui à feira. Fernando, agradeço-lhe muito a sua disponibilidade para ter conversado conosco. E entre tantos concertos, diversões, novidades que todos os anos chegam à feira, há tradições que vão resistindo à passagem do tempo. É o caso da cestaria, um ofício que Fernando, aqui no caso, continua a manter vivo aqui em Viseu. A nossa cultura continua pela Feira de São Mateus, à procura de mais histórias de quem as mantém vivas.