Pedro Sánchez vai dar explicações aos deputados um mês depois da entrada ilegal de mais de 70.000 pessoas em Ceuta em 30 de julho, naquilo que o próprio primeiro-ministro qualificou no dia seguinte, numa deslocação à cidade, como uma "violação da integridade territorial de Espanha" e pela qual responsabilizou as máfias de tráfico de seres humanos que deturparam uma sentença recente sobre devoluções de migrantes que chegam a Espanha a nado.
Mais de 90% das pessoas que entraram ilegalmente no enclave espanhol no norte de África, que tem fronteiras com Marrocos, saíram de Ceuta nas horas e dias imediatos, mas pelo menos 5.000 permanecem na cidade, incluindo milhares que estão nas ruas, e a agenda política e mediática em Espanha foi e continua a ser dominada por este assunto.
Sánchez, que está a ser criticado por ter ido de férias logo em 01 de agosto durante três semanas, voltou a falar publicamente de Ceuta na segunda-feira, numa entrevista à rádio Cadena Ser em que reiterou a acusação às máfias criminosas e, contra a perceção e opinião generalizadas em Espanha, voltou a ilibar Marrocos de qualquer responsabilidade.
Por outro lado, considerou que Espanha e a Europa foram alvo de um ataque em Ceuta que usou a imigração e em que estiveram também envolvidos Israel e Rússia, com a amplificação nas redes sociais de desinformação relativa ao ocorrido.
Durante o último mês sucederam-se as visitas de ministros a Ceuta e os anúncios do Governo para gerir a crise migratória, humanitária e económica gerada na cidade.
Na terça-feira, 31 de agosto, o Conselho de Ministros aprovou um "plano de choque" de 309 milhões de euros para Ceuta e o Governo anunciou que já foram criados e instalados 3.400 lugares de acolhimento temporário de migrantes e que espera chegar aos 6.000 nas próximas duas a três semanas.
Esses espaços são imprescindíveis para retirar as pessoas das ruas, assim como para fazer o registo de todos os casos e abrir os processos com vista ao repatriamento ou concessão de asilo. A instalação desses lugares depende da disponibilização de espaços por parte das autoridades locais e exige logística para os dotar das condições necessárias, disse o Governo.
Na semana passada, o executivo avançou com o "comando único" da crise em Ceuta, liderado pelo ministro de Política Territorial, Ángel Victor Torres, como as autoridades locais vinham pedindo.
Apesar de todas as medidas e declarações, o Governo tem sido criticado pela lentidão na resposta à crise, a que se somam as acusações de submissão a Marrocos.
Membros do Governo, citados no domingo pelo jornal El Pais, que não identificou os ministros em causa, admitiram que o executivo não conseguiu "gerir bem" esta crise.
"Depois de conseguirmos que regressassem em poucas horas mais de 90%, que foi o mais difícil, não dimensionámos bem o problema que restava. Mas vai-se resolver", disse um ministro ao El País, sublinhando que "ainda vão acontecer muitas coisas antes dos votos", numa referência às eleições legislativas em Espanha previstas para o primeiro semestre de 2027.
"É difícil acreditar que, num país que está a virar à direita e que considera que a imigração descontrolada é um problema, um acontecimento como a instrumentalização da imigração por parte de Marrocos em Ceuta não venha a ter efeitos eleitorais ainda mais nefastos para o Governo", defendeu o politólogo Manuel Mostaza Barrios, num artigo publicado no jornal El Mundo na segunda-feira com o título "Ceuta, princípio do fim de Sánchez?"
Este jornal divulgou no mesmo dia uma sondagem na qual 62,9% dos inquiridos qualificou a gestão da crise de Ceuta pelo Governo como má ou muito má, incluindo mais de 25% dos eleitores que nas últimas eleições votaram em Pedro Sánchez e no Partido Socialista (PSOE).
Segundo a mesma sondagem, se as eleições fossem agora, o PSOE teria 25,4% dos votos e perderia 20 deputados (passaria a ter 101 num parlamento com 350).
Já o Partido Popular (PP, direita) e o Vox (extrema-direita), que assumem que fariam uma coligação ou aliança pós-eleitoral para derrubar Sánchez, alcançariam uma maioria absoluta clara. O PP passaria de 137 para 143 deputados e o Vox quase duplicaria a representação parlamentar, dos atuais 33 lugares para 61.
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