Chegou o homem que promete mudar tudo no Reino Unido

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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Chegou o homem que promete mudar tudo no Reino Unido.

I'm about to visit His Majesty the King to offer my resignation and close the book on my time as Prime Minister.

Rei morto, rei posto. As monarquias funcionam assim, no Reino Unido até a política parece seguir a mesma regra. Ouvíamos Keir Starmer, o ex-primeiro-ministro, depois de apresentar formalmente a demissão ao rei, e logo o Partido Trabalhista, sem precisar de novas eleições, apresentou ao rei o novo PM.

Here is Andy Burnham with his wife, Marie-France van Heel.

That's right, being met there by the Query to the King.

Andy Burnham, ex-presidente da Câmara de Manchester, um dos políticos mais populares da atualidade, cumprimentou o rei e apresentou-se ao serviço.

We will make this moment a circuit breaker for Britain, bringing forward the biggest changes in the last 40 years.

Fazer as maiores mudanças dos últimos 40 anos, desenhar um novo modelo político e econômico. Este não é um homem com falta de ambição. Eu hoje vou conversar com a jornalista da Internacional do Observador, a Madalena Moreira, para percebermos que plano é este, o que mais prometeu Andy Burnham, as pistas que deixou naquilo que disse e, sobretudo, naquilo que escolheu não dizer. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 21 de julho. Olá, Madalena.

Olá, Pedro.

Vou fazer aqui uma inconfidência. Nós estávamos, antes de começar a gravar a história do dia, a falar de um especial que também está a ser preparado aqui no Observador, no momento em que estamos a gravar esta conversa, que tem a ver com a estética visual de Andy Burnham, o novo primeiro-ministro britânico. O que chamou a atenção na roupa que ele usou nesta cerimônia de tomada de posse?

Ele hoje aparece de fato e é isso que chama a atenção, porque é muito invulgar ele aparecer de fato e gravata. Este é um homem que se veste sempre de camiseta preta ou azul escuro, ele diz que é azul escura, e um blazer.

Ou seja, aquela estética do homem de esquerda.

Exatamente, aquela estética do homem da classe trabalhadora, que não são os engravatadinhos de Westminster, neste caso.

A questão é que quando se vai ao rei, é como ir à madrinha, tem que se vestir como deve ser.

É exatamente isso, e ele fez aqui essa questão. Mas depois há muitas outras coisas que ele faz questão de quebrar a tradição. Se não posso quebrar a tradição no fato e gravata, então vou quebrar a tradição em outros aspectos.

Então, e onde é que ele quebrou a tradição?

Há uma coisa muito óbvia, que é: ele fala à frente do número 10 de Downing Street, aquela imagem icônica de um primeiro-ministro britânico sem o púlpito. Pela primeira vez, há um primeiro-ministro que está ali a falar sem notas, sem teleponto, sem púlpito. Ele fala só com o microfone à frente e as suas próprias palavras. E é uma figura que ele cultiva de "sou próximo das pessoas". Esta separação institucional entre primeiro-ministro e os eleitores, ele quer acabar com isso ao máximo. Ele tem uma multidão à sua volta que tem idosos, tem crianças, tem bebês de colo, é gente como a gente. E é esta imagem que ele quer cultivar, mesmo quando está de fato para ir ao rei.

Que foi o caso. E, portanto, ele é um comunicador, porque naturalmente só um comunicador é que consegue fazer isso à vontade e com naturalidade. Caso contrário, teria de estar mesmo aos papéis, como se costuma dizer. E, portanto, ele já mostrou um bocadinho ao que vem. Já tínhamos essa imagem do homem da classe trabalhadora, agora é um primeiro-ministro que se quer mostrar junto do povo, junto dos eleitores e portanto, a quebrar algumas barreiras. Que outras coisas é que ele mostrou neste primeiro discurso de abertura que nos dá uma percepção de quem é o novo primeiro-ministro inglês?

Ele passa muito por marcar a diferença para o Keir Starmer. O Keir Starmer sai do poder como o primeiro-ministro mais impopular da história moderna do Reino Unido, e ele, sendo trabalhista e sendo o herdeiro político de Keir Starmer, quer marcar a diferença com: "Eu não tenho o peso morto político que o Keir Starmer adquiriu ao longo dos últimos dois anos devido às medidas que foi implementando". Mas ao mesmo tempo, politicamente, há aqui uma continuidade, porque ele não foi eleito diretamente. O Labour foi eleito em 2024 e ele tem que fazer esta manutenção. O que ele faz? Ele tem um plano a longo prazo, que nós não sabemos o que é, já lá vamos.

É muito longo prazo, na verdade.

É muito longo prazo.

Para aquilo que é a política habitual, em que se governa há seis meses, às vezes.

Principalmente no Reino Unido, em que literalmente se tem governado há seis meses. Mas o que ele faz aqui é procurar medidas instantâneas perto da população. O principal obstáculo na política britânica neste momento é o estado da economia. Eles estão numa estagnação econômica há uma década, desde o Brexit, e os sete primeiros-ministros da última década não conseguiram resolver esse problema. E, portanto, o que ele vem aqui é: eu vou resolver esse problema imediatamente com medidas concretas, fáceis de compreender junto do eleitorado mesmo, ou seja, coisas que toda gente consegue perceber como é que isto vai afetar o meu bolso, dando exemplos: corte de impostos sobre o consumo de combustível e eletricidade, fim do pagamento de passes nos autocarros ou até mesmo isenção de impostos nos escalões mais baixos do IRS. Ou seja, coisas concretas que ele reconhece. Isto vai dar margem de manobra às famílias, mas isto não resolve os problemas. E aí entra o grande objetivo de Andy Burnham, a sua grande ambição a longo prazo.

E essa ambição é reestruturar, de certa forma, a economia britânica. É um plano a 10 anos, nós falávamos deste prazo que ele dá, a 10 anos, que é uma coisa ambiciosa para qualquer primeiro-ministro que se candidata, porque os mandatos normalmente são bastante inferiores a isso, e no Reino Unido, até agora, nenhum deles tem conseguido cumprir os mandatos até ao fim, portanto, digamos que é mais ambicioso ainda. Quando ele fala desta reestruturação da economia, o que ele pretende fazer? Ele foi claro sobre o que país é que ele prevê?

Nós sabemos qual é o plano genérico dele, e a questão aqui é que ele não encontra o problema nos últimos 10 anos. Ele encontra o problema nos últimos 40, que é basicamente a política moderna. E ele quer uma reestruturação total, e ele vai aqui beber às suas origens, que não são as suas origens, mas é pelo que ele é conhecido, que é como autarca de Manchester. O que ele quer é devolver, chama-se mesmo o processo de devolução, é devolver capacidades governativas às autarquias, ou seja, retirar poderes nacionais.

Descentralizar.

Descentralizar, é a regionalização.

E ele acha que esse é o segredo?

Ele acha que o segredo está aqui, e que a reestruturação econômica passa por isto, passa pela aposta nas capacidades locais, na reindustrialização do que ele diz que são as partes esquecidas do Reino Unido, onde a política é feita por Londres para Londres. E o que ele aqui tenta, da sua experiência em Manchester e com os seus apoiantes e aliados políticos em Liverpool e nas outras grandes cidades, é mostrar que também há potencial econômico aqui e se nós queremos reestruturar a economia do país, temos que apostar aqui, temos que ir à fonte, à origem do problema. E ele tem agora uma digressão planeada, chamemos de uma digressão, porque ele vai andar a viajar por estas cidades em que ele quer apostar, ir à origem do problema. Aqui voltamos muito ao ele querer estar em contato com a população, querer apostar nestes sítios. E passa muito por isso. Depois há aqui também uma componente mais política de se ele conseguir estes planos a 10 anos, também há uma intenção de reestruturar o sistema eleitoral britânico. Portanto, estamos aqui a falar que ele quer mesmo mudar os últimos 40 anos de política que definiram o ponto a que o Reino Unido chegou agora.

Portanto, ambição não lhe falta. Em termos concretos, este primeiro discurso, percebemos exatamente para onde é que ele vai e como é que ele vai, sobretudo, como é que ele vai financiar aquilo que são os objetivos dele.

Isso é a grande questão, e ainda não conseguimos responder, porque a resposta que ele deu é: "Eu digo-vos amanhã", portanto, terça-feira, este discurso foi feito segunda-feira, portanto, "eu digo-vos amanhã, terça-feira, o que é que eu vou fazer concretamente e, mais importante, como é que eu vou financiar isto." A promessa que ele faz é a disciplina fiscal que Keir Starmer já implementou, ele vai mantê-la, portanto, ele não contempla aqui o aumento de impostos de forma a obter mais fundos. Mas aqui a questão é que ele já prometeu investimentos, por exemplo, na defesa, e ele não nos deu uma fonte de rendimento ao Estado que permita fazer estes investimentos todos que ele prometeu. Mas aqui temos que esperar por terça-feira, por essa promessa que ele fez de como é que eu vou financiar as promessas que eu estou a fazer. Isso é a questão dos 100 mil euros ou das 100 mil libras, neste caso.

100 mil libras ou 100 milhões de libras, não sabemos exatamente.

Muitas mais, provavelmente.

Quanto é que vai custar este plano de Andy Burnham, o novo primeiro-ministro britânico, mas vamos saber hoje, já há algumas respostas a isso. E portanto, quem está a ouvir e gosta deste tipo de assuntos, pode ficar atento, porque hoje, em princípio, se for político de cumprir promessas, hoje já vai dizer qualquer coisa sobre isso. Há uma coisa que ele, quando era autarca, colocou como um dos seus objetivos principais e que ele também trouxe para este discurso. Tu falavas há pouco dele ir beber a sua experiência de autarca, ele também fez isso nalgumas das promessas que fez agora neste discurso.

Sim, é a única primeira, e é uma coisa muito pequena que ele anuncia concretamente, que é ele diz que quer acabar com a situação das pessoas sem abrigo. Só que, como tu dizias, é uma coisa que ele já tentou fazer em Manchester quando ele foi eleito como autarca e ele faz isto logo uma das primeiras medidas. E num primeiro momento, realmente cai para metade o número de pessoas em situação sem abrigo em Manchester, e depois com a pandemia volta a aumentar.

Ele nunca conseguiu resolver.

Ele nunca conseguiu resolver, ou seja, do início do seu mandato para o fim do seu mandato, há uma diminuição muito ligeira, porque cai para metade e depois volta a aumentar. Então comparando o início e o fim, há uma diminuição muito pequena. A justificação dele para isto é: quando eu estava em Manchester, eu tentei fazer isto sozinho e o que acontecia era pessoas em situação de sem abrigo noutras cidades procuravam os apoios de Manchester, então Manchester não conseguia absorver todas as pessoas que iam chegando à procura de ajuda. E ele diz: o que é preciso fazer, é preciso fazer uma solução à escala nacional.

Portanto, foi vítima do seu próprio sucesso, a medida dele, é isso que ele quer dizer.

Isso é a justificação que ele nos dá e isso é a justificação que ele deu oficialmente. Na manhã de segunda-feira, antes de sequer tomar posse, ele foi visitar um centro de acolhimento para pessoas em situação de sem abrigo em Londres e teve uma pequena conversa com os jornalistas em que explica por que ele está a insistir nisto. Mas para além de ser uma medida política que ele diz: "nós precisamos de fazer política a pensar nas pessoas", também diz sobre quem ele é que é esta ambição, esta insistência. Ele tentou ser líder do Labour duas vezes, falhou duas vezes, foi uma terceira, à terceira foi de vez. E aqui também está a insistir numa medida que já falhou antes e que ele não desiste e vai lá outra vez.

Onde havia alguma curiosidade para ouvir Burnham era sobre dois temas que andam sempre a pairar sobre aquilo que é o estado atual do Reino Unido. O primeiro tema, nós falámos já disso, é o Brexit, ele fez alguma referência a isso ou não, e o segundo tema é imigração.

Exatamente. Ele não faz referência a nenhum dos dois temas.

Curiosamente.

E é claramente uma escolha consciente e eu falava com alguns especialistas que diziam: "Ele tem que saber escolher as batalhas dele". E sendo o Brexit e a imigração dois temas muito controversos e que não dividem só a sociedade britânica, dividem mesmo o partido que ele lidera, porque estamos a falar de um partido de massas, que tanto tem gente mais à esquerda, colados ao Partido dos Verdes, como tem gente mais ao centro, quase colados aos conservadores. E portanto, para equilibrar isto aqui, ele tem que saber agradar, passo a expressão, a gregos e troianos. E portanto, é consciente num discurso que tem apenas cinco minutos na sua tomada de posse, em que ele se quer apresentar como uma figura positiva, ele não falar dos temas que não são positivos, dos temas que dividem, dos temas que fraturam tanto o país como a política. Eu falava com os especialistas britânicos que analisaram o histórico dele, é que no caso da União Europeia, espera-se uma aproximação, e havia um otimismo de ele vai querer regresar.

Reabrir o ACE.

É improvável. Ou seja, não é uma prioridade dele, ele tem as prioridades dele e seria um encargo também a 10 anos, uma readesão à União Europeia seria um plano a 10 anos.

Nem tem mandato, provavelmente, para isso.

Exatamente, claro.

Que é bom que as pessoas não se esqueçam, ele não foi eleito para este cargo. É aquela coisa estranha da política.

Ou seja, a readesão à União Europeia nunca estava no programa do Labour em 2024, portanto, é como tu dizes, ele não teria mandato para o fazer agora. No que toca à imigração, é ainda mais difícil. O Labour adotou uma política muito dura para um partido de centro-esquerda, para um partido trabalhista, mas é um fenômeno europeu, é o fenômeno de os partidos de direita radical terem imposto a sua narrativa, é uma narrativa popular e, portanto, é necessário agir nesse sentido. Mas ao mesmo tempo, é improvável que Andy Burnham ceda mais do que Starmer já cedeu. Ou seja, a política que Starmer impôs está feita, está imposta, é improvável que ele volte atrás nessa política que já foi aprovada e já foi implementada. Agora, os apelos a que ele vá mais além, a que ele implemente medidas mais duras, que ele faça maiores restrições, que ele exija prazos maiores de permanência no Reino Unido para pedir nacionalidade, é improvável que ele vá além, porque, lá está, mais uma vez, é uma luta política que ele não tem qualquer interesse em comprar. Está feito, ele pode dizer: "Viemos, fizemos, vamos olhar agora para as outras coisas que o Starmer não conseguiu fazer", porque na imigração, efetivamente, Starmer conseguiu aprovar programas.

Não deixa de ser um tema, de qualquer forma, que vai ser explorado por Nigel Farage, os populistas da direita radical, que estão de espreita no poder, e mesmo a questão do Brexit, há quem diga também que por muita intenção de reformar a economia do Reino Unido, sem reverter o Brexit, é difícil o Reino Unido voltar à pujança de outros tempos.

Sim, a estagnação deles começa há 10 anos e por muito que se tente dizer: "E houve a pandemia e depois houve a guerra na Ucrânia", quando se volta ao centro da questão, é sempre: eles saíram da União Europeia e não conseguiram sobreviver economicamente sozinhos como faziam há 50 ou há 70 anos.

É verdade. De qualquer forma, temos aqui um primeiro-ministro entusiasmado, que se apresentou de forma diferente e quer resolver os problemas que os outros não conseguiram resolver, quer resolvê-los rapidamente e a partir de hoje vai anunciar medidas concretas e vai explicar como é que as vai pagar. Portanto, vamos estar atentos.

Durante os próximos, pelo menos espera ele e esperemos nós para poder acompanhar, durante os próximos três anos.

Vamos ver, vamos ver o que acontece, Madalena. Obrigado.

Obrigada eu.

Ao longo do dia de segunda-feira, Andy Burnham foi apresentando os novos membros do governo, afastou os principais aliados de Keir Starmer, baralhou algumas pastas e voltou a dar. A partir de hoje, esperam-se mais novidades do homem que, pelo menos, sabe o que dizer para tentar galvanizar um eleitorado que já encolhe os ombros ao sétimo primeiro-ministro em apenas 10 anos. Ele diz que só esse fato é suficiente para exigir que esta geração de políticos suba o nível e esteja à altura dos desafios. Claro que falar é a parte mais fácil da arte de fazer política. O verdadeiro desafio começa agora. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.