Cidadão ou espião: a história secreta de um contratado de origem russa morto pelo FBI

INVESTIGAÇÃO || Morte de Ilya Beloozerov pelo FBI envolta em mistério

Hernando, Mississippi, EUA — Ilya Beloozerov estava em fuga.

Esvaziou a sua conta bancária, cancelou o telemóvel e fugiu a toda a velocidade da sua vida tranquila nos subúrbios da Virgínia, nos Estados Unidos.

Após alguns dias na estrada, este cidadão americano nascido na Rússia fez amizade com um casal que vivia num parque de estacionamento junto a um McDonald’s. Disse-lhes que lhes daria 30 mil dólares para comprarem uma carrinha e o levarem até à Califórnia.

Beloozerov tinha uma mala cheia de dinheiro, quase uma dúzia de computadores portáteis e uma viagem aparentemente impossível de rastrear. Só faltava encontrar um local para se livrar do automóvel (um SUV) que tinha conduzido desde a Virgínia.

Mas enquanto finalizava os planos da sua fuga pelo país, numa manhã ensolarada de outono, uma equipa de agentes federais cercou-o à porta de um hotel Super 8 em Hernando, no Mississippi, e ouviram-se tiros. Quando o fumo se dissipou, a 4 de outubro de 2024, o corpo de Beloozerov jazia estendido no pavimento, entre estilhaços de vidro da janela do seu carro. Tinha sido atingido por, pelo menos, cinco balas.

Quase dois anos depois, as autoridades federais não revelaram nada sobre quem era Beloozerov nem por que razão o abateram.

Mas uma investigação da CNN, que incluiu a análise de extratos bancários, documentos pessoais e entrevistas com colegas de trabalho, amigos e familiares, descobriu que Beloozerov levava uma vida dupla secreta, desconhecida da sua família e das pessoas de confiança — mas altamente alarmante para as autoridades federais.

Por trás da sua imagem pública de pai carinhoso que gostava de jogar xadrez, o emigrante possuía uma autorização de segurança dos Estados Unidos, mantinha pelo menos um perfil num site russo de encontros e, de acordo com passaportes caducados, tinha viajado nos últimos anos tanto para a Rússia como para a Ucrânia. Entre os seus pertences na altura da sua morte encontravam-se um cartão da Segurança Social e vários documentos de identificação pertencentes a diferentes homens falecidos, uma forma comum de criar identidades falsas.

Nos últimos dois anos da sua vida, Beloozerov trabalhou para uma empresa que produzia imagens de satélite de alta resolução, incluindo informação sensível sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Semanas antes de ter sido morto, segundo apurou a CNN, a sua entidade patronal contactou as autoridades com receios a seu respeito.

Em entrevistas com agentes federais e, posteriormente, com a CNN, a sua família rejeitou a ideia de que Beloozerov pudesse ter sido um espião. Ele nunca trairia os EUA partilhando informações secretas, afirmaram.

Mas, por vezes, alimentaram dúvidas. Afinal, Beloozerov tinha crescido com um forte sentimento antirrusso, sendo filho de um dissidente da era soviética, e, já adulto, apoiava veementemente a Ucrânia — chegando mesmo a enviar um pacote de ajuda aos soldados na linha da frente.

Será que poderia ter sido convencido a ajudar o esforço de guerra ucraniano de outra forma? Uma coisa era certa, afirmaram: ele nunca ajudaria a Rússia.

"É absolutamente claro o quanto ele era pró-Ucrânia", afirmou o filho de Beloozerov.

Desde a morte de Beloozerov, as perguntas sobre o motivo pelo qual estava a ser perseguido pelo FBI e por que razão os agentes o mataram têm atormentado os seus familiares e amigos. O FBI, que enfrenta pouca responsabilização pública em tiroteios fatais, recusou-se a comentar esta notícia.

"Ninguém deveria morrer assim", disse a sua ex-mulher e mãe do seu filho de 18 anos, ela própria uma imigrante nascida na Rússia. "Preciso de compreender porquê."

Quem era Ilya Beloozerov?

Nascido na União Soviética em 1974, Beloozerov foi criado pela mãe, Lena, e pelo padrasto, Nikolai Beloozerov — um dissidente soviético e matemático —, no seio de uma comunidade de intelectuais no sudoeste de Moscovo. A URSS vivia em plena transição: as forças armadas do país tinham invadido o Afeganistão e Lena temia que Ilya fosse um dia obrigado a combater. A identidade de Nikolai como dissidente tornava perigosa a permanência no país. Assim, a família partiu, chegando aos Estados Unidos em 1987 e estabelecendo-se na Virgínia.

Fotografias de família mostram um jovem Ilya Beloozerov. CNN

As opiniões antissoviéticas de Nikolai tiveram um impacto duradouro no jovem Beloozerov: "Ilya (identificava-se) como filho de um dissidente soviético — essa era uma característica marcante", disse a ex-mulher de Beloozerov, que pediu para ser identificada pelo pseudónimo Marina, por receio pela sua segurança e pela da família.

Beloozerov parecia ter abraçado a vida nos Estados Unidos. Foi incluído na lista de honra da escola militar onde os seus pais lecionavam e, mais tarde, frequentou a Virginia Tech. Por vezes, escrevia cartas políticas a jornais, numa das quais parecia rejeitar as suas raízes russas: "Imigrei para a América com a minha família porque me cansei de ser uma cobaia em experiências socialistas-coletivistas no 'império do mal'", escreveu numa carta de 1994 ao Roanoke Times.

Publicação original da carta. Fonte: Roanoke Times via Newspapers.com
Réplica da publicação com texto traduzido para português com recurso a ferramentas de Inteligência Artificial. 

Beloozerov construiu uma carreira na área das tecnologias da informação, tendo trabalhado para a IBM em Boulder, no Colorado, no final dos anos 90, de acordo com um currículo online, antes de regressar à região de Washington. Conheceu Marina, que vivia na Rússia, através de um site de encontros cristão em 2005 e, em 2007, ela mudou-se para os Estados Unidos. Casaram-se e tiveram um filho.

Beloozerov era excêntrico. Um membro da família recordou que ele tentou vender um carro no eBay no final da década de 2000, na esperança de ser pago em barras de ouro e armas. Marina descreveu como ele gostava de manter uma arma ao lado da cama enquanto dormia.

Lyubov Campion, que conhecia Beloozerov desde o final da década de 2000 e comunicava principalmente com ele por e-mail, disse que a maioria das amizades de Beloozerov acontecia online. "Ele disse-me: 'Tenho muitos amigos, mas nunca os conheci'", recordou Campion. "Ele não tinha amigos reais, tinha amigos virtuais."

Antigos colegas descreveram Beloozerov como um tipo normal que, por vezes, se encontrava com eles para jantar e tomar uma bebida depois do trabalho.

"Nós limitávamo-nos a manter os nossos empregos, a fazer o trabalho do dia-a-dia, a ir beber uma cerveja e depois a voltar para casa. Ir trabalhar, repetir", disse Tony Johnson, que afirmou ter trabalhado com Beloozerov numa empresa de informática num contrato com o governo em meados da década de 2010.

Beloozerov e Marina divorciaram-se em 2012 e concordaram em partilhar a custódia do filho.

A sua página do Facebook, que a CNN analisou antes de grande parte do seu conteúdo ter sido removido, mostrava quase exclusivamente fotografias do filho: os dois em restaurantes, a jogar xadrez e ténis, a andar de bicicleta ou a visitar jardins zoológicos interativos. Em 2018, publicou: "O amor entre pai e filho é para sempre." No ano seguinte, o filho foi viver com ele a tempo inteiro na Virgínia.

"Ele amava o nosso filho de forma obsessiva", confidenciou Marina

Ilya Beloozerov numa fotografia sem data. Cortesia da família Beloozerov

Após o divórcio, Beloozerov manteve relações com mulheres russas e ucranianas nos Estados Unidos e no estrangeiro. Além do seu perfil num site de encontros russo, tinha outro num site de encontros internacional. Um antigo colega recordou que Beloozerov tinha viajado para a Rússia para visitar mulheres com quem namorava, e um passaporte que expirou em 2018 mostra que ele visitou a Ucrânia durante quase duas semanas em 2015 e que lhe foi concedido um visto para a Rússia com validade de mais de um ano no ano seguinte.

"Ele gostava da Ucrânia, dizia-me sempre que queria viver na Ucrânia", disse Campion, que imigrou para os Estados Unidos vindo da Ucrânia.

Beloozerov também falou longamente com Marina sobre a sua solidariedade para com o país após a invasão russa em 2022. "Ele sentia, de forma veemente, veemente e de todo o coração, solidariedade pela Ucrânia", disse Marina.

O filho de Beloozerov, que pediu para ser identificado pelo pseudónimo Alexander, devido às circunstâncias delicadas em torno da morte do pai, disse que o pai chegou mesmo a enviar um pacote de apoio às tropas ucranianas contendo dinheiro, lanternas e equipamento tático. Os soldados enviaram de volta um cartucho de tanque vazio e um vídeo a agradecer-lhe.

"Ele era extremamente anti-Rússia e anti-autoritarismo, e era um grande apoiante da Ucrânia", disse o filho de Beloozerov.

Ele era extremamente anti-Rússia e anti-autoritarismo, e era um grande apoiante da Ucrânia.

Em dezembro de 2022, Beloozerov foi contratado pela Maxar Technologies, que fornecia imagens de satélite a clientes comerciais, incluindo a CNN, e a clientes governamentais, como a Ucrânia e os Estados Unidos. A empresa, agora chamada Vantor, produz imagens que podem documentar movimentos de tropas no campo de batalha, mostrar arsenais de armas e dar uma visão dos danos após um ataque.

Beloozerov era administrador de sistemas num contrato para o Departamento de Defesa, uma função que exigia, no mínimo, uma habilitação de segurança de nível «secreto», disse à CNN um antigo colega da Maxar envolvido na contratação de Beloozerov. O filho de Beloozerov afirmou que este detinha uma das autorizações de segurança de mais alto nível, que exigia uma investigação de antecedentes a cada cinco anos.

Um escritório da Maxar Technologies em Herndon, Virgínia. CNN

Nada parecia estar errado com Beloozerov ou com o seu trabalho, disse o filho. Mas, nos últimos meses da sua vida, começaram a surgir sinais de alerta.

Beloozerov começou a esvaziar progressivamente a sua conta bancária, levantando 11 500 dólares em agosto de 2024 e quase 9 000 dólares nesse mesmo setembro. No início de agosto, comprou um bilhete de ida e volta para a Letónia com data de partida a 17 de setembro. Pouco tempo depois, reservou bilhetes para a Estónia com a mesma data de partida, antes de cancelar e receber um reembolso.

Extratos bancários: documentos do banco de Beloozerov, obtidos pela CNN, revelam os seus últimos salários da Maxar Technologies e uma atividade significativa de levantamentos nos seus últimos meses.

Rapidamente percebeu que tinha despertado o interesse das autoridades.

Beloozerov teve problemas por duas vezes ao tentar embarcar em voos para a Europa, disse o seu filho. Não é claro em que voos ele estava a tentar embarcar. Na primeira vez, disse que tinha sido interrogado por agentes da TSA [Transportation Security Administration, agência estatal de controlo nos aeroportos] e regressou a casa. Na segunda vez, contou ao filho que tinha sido detido e interrogado pelo FBI, acrescentando: "Eles vêm atrás de mim."

Entretanto, a Maxar identificou uma irregularidade relacionada com o emprego de Beloozerov, notificou as autoridades e despediu-o, disse um porta-voz da empresa à CNN. O porta-voz, que se recusou a discutir o papel de Beloozerov na empresa, afirmou ainda que nenhum dado foi comprometido.

Nos seus últimos dias juntos, Alexander disse que Beloozerov lhe pediu para ir ao seu escritório e devolver o seu portátil e cartões de segurança por ele.

Beloozerov disse ao filho que tinha mentido ao FBI — mas não forneceu detalhes — e receava vir a enfrentar acusações criminais, recordou Alexander. Alexander disse que tinha visto um e-mail enviado por Beloozerov a solicitar representação legal, caso fosse acusado de prestar falsas declarações a um agente federal.

Entretanto, disse Alexander, o seu pai tomou novas medidas para deixar o país. Comprou um telemóvel novo, preparou o carro e transferiu ambos os veículos para o nome de Alexander. Alexander disse que Beloozerov não dormia em casa, com medo de que o FBI o detivesse. A certa altura durante essa semana, Beloozerov entregou a Alexander um disco rígido e disse-lhe que tinha enterrado 50 000 dólares no quintal para "quando chegasse a altura".

A primeira suspeita de Marina de que algo estava errado surgiu na quinta-feira, 26 de setembro de 2024, quando não conseguiu contactar Beloozerov nem o filho. Enviou um e-mail ao ex-marido, exigindo saber por que razão ele tinha cancelado os planos de telemóvel dele e do filho.

Ele não respondeu. No dia seguinte, ela dirigiu-se ao apartamento dele na cave, em Manassas, Virgínia, para ver como estava o Alexander, que na altura tinha 16 anos. Beloozerov não estava lá, mas o filho dela sim. Os dois almoçaram juntos e depois ela voltou para casa.

A última pessoa a falar com Ilya Beloozerov foi Kennon Green, que vivia na sua carrinha no parque de estacionamento de um McDonald’s quando Ilya se aproximou dele com uma proposta: 30 000 dólares para o levar ao sul da Califórnia. Dias depois, Ilya foi morto a tiro pelo FBI no parque de estacionamento de um hotel. Para compreender o que aconteceu, a repórter Isabelle Chapman encontrou-se com a família de Ilya e apurou que a resposta pode estar no trabalho de Ilya como contratado do Departamento de Defesa.

Antes de deixar a cidade na sexta-feira de manhã, Beloozerov encontrou-se com Alexander para jantar. E depois, no parque de estacionamento de um centro comercial perto do apartamento deles, eles despediram-se.

"Ele disse: 'Espero ter feito um bom trabalho a educar-te. Lamento que tenha de ser assim – boa sorte na tua vida'", contou Alexander. O pai também lhe disse: "Cria uma conta no Facebook e eu entro em contacto contigo."

No domingo, um agente do FBI ligou a Marina, perguntando-lhe quando tinha visto o ex-marido pela última vez e fazendo-lhe perguntas sobre os outros familiares dele. Ela ficou chocada.

"Quando o FBI te liga a perguntar pela tua família, ficas mesmo surpreendida", disse a Marina. "Fiquei paralisada."

Quando Marina ligou ao filho, ele disse-lhe que Beloozerov tinha partido e que não tinha a certeza se voltaria. Na segunda-feira, o filho deles juntou alguns pertences e foi ficar com ela.

Na terça-feira, Marina escreveu um e-mail a Beloozerov com apenas um assunto: "Ilya, quando é que tui (sic) voltas???"

No dia seguinte, escreveu novamente a Beloozerov, informando-o de que teria de apresentar um pedido de custódia de emergência. "Tens intenção de voltar e quando?", perguntou ela.

Mais tarde nessa noite, escreveu outra mensagem. O filho deles sentia a sua falta. "Por favor, volta", implorou-lhe.

Os últimos dias de Beloozerov

Quando um homem careca com sotaque russo se aproximou de Kennon Green num McDonald’s, este pensou que talvez tivesse encontrado uma solução para os seus problemas.

Green geria um parque de estacionamento para camionistas de longo curso junto à autoestrada do Arkansas, perto da fronteira com o Tennessee e o Mississippi. Ele e a sua mulher, Megan, viviam num camião estacionado ali. Uma noite, em setembro, Green foi à casa de banho do restaurante de fast-food. Beloozerov, que estava a trabalhar num portátil numa cabine, aproximou-se dele. Os dois conversaram até altas horas da noite. Beloozerov disse a Green que se chamava Eli e que tinha uma ex-mulher e um filho em casa. Contou a Green que trabalhava num Burger King.

O parque de estacionamento que Kennon Green geria junto à autoestrada do Arkansas. CNN

Por fim, Beloozerov perguntou se Green poderia levá-lo até ao sul da Califórnia. Beloozerov tinha uma condenação por condução sob o efeito do álcool, disse ele, e tinha medo de conduzir sozinho aquela distância. Se Green estivesse disposto a fazê-lo, Beloozerov dar-lhe-ia 30 mil dólares em dinheiro: 10 mil dólares adiantados para uma carrinha e 20 mil dólares quando chegassem, disse Green.

Green concordou.

Beloozerov estacionou o seu SUV no parque de estacionamento de Green durante a noite. Depois, Green, a sua mulher e Beloozerov passaram os dias seguintes a planear a viagem e a fazer refeições que Beloozerov pagava em dinheiro, retirado de uma bolsa que trazia ao pescoço, cheia de notas de 100, 50 e 2 dólares.

"Comíamos bife ao pequeno-almoço e lagosta ao almoço", disse Green. "Ele era simplesmente encantador."

Foram ao Cavender’s, uma cadeia de lojas de roupa western, e Beloozerov comprou umas botas de cowboy novas para Green. Comeram biscoitos num sítio que Green sempre adorou.

A 3 de outubro, Green disse que comprou uma Ford F-150 vermelha usada com o dinheiro de Beloozerov. Depois, contou Green, pararam no Red Lobster antes de seguirem para Hernando, no Mississippi.

Os três fizeram o check-in num hotel da cadeia Super 8. Beloozerov ficou no quarto com Green e a sua mulher. Green avisou Beloozerov que, se ele pusesse as mãos na sua mulher, "matava-o como se fosse frango frito".

Na manhã seguinte, o trio planeava tratar de alguns assuntos antes de seguirem para a Califórnia — incluindo livrar-se do SUV de Beloozerov e tratar das matrículas para a nova carrinha de Green.

"Finalmente acabou", pensou Green consigo mesmo, referindo-se à sua situação de sem-abrigo. Tinha um telemóvel novinho em folha e uma carrinha nova. Com o dinheiro que Beloozerov lhe tinha prometido, esperava terminar os estudos para se tornar camionista e "ser um verdadeiro marido e sustentar a minha mulher".

De manhã, Green ajudou Beloozerov a rapar a cabeça e arrumou as suas roupas num saco de plástico. Depois, os três desceram até ao átrio, na esperança de tomar o pequeno-almoço antes de seguirem viagem.

"Espera aí, Eli", disse Green a Beloozerov. "Tenho de recuperar o meu depósito." Beloozerov saiu sozinho para o parque de estacionamento.

Green é surdo de um ouvido. Quando os tiros ecoaram, pensou que fosse o trânsito numa ponte próxima.

Depois, no parque de estacionamento, Green disse ter visto uma dúzia de agentes federais armados.

Não conseguia ver Beloozerov. Mas, pouco depois, soube que o seu amigo estava morto no chão.

Os agentes entrevistaram Green e a sua esposa debaixo da marquise do hotel, oferecendo-lhes o almoço e perguntando-lhes o que sabiam sobre Beloozerov. Os agentes revistaram os pertences do casal.

"O que é que ele poderá ter feito?", pensou Green.

Green disse que os agentes do FBI lhes disseram que Beloozerov tinha armas, embora ele tenha afirmado que nem ele nem a Megan viram nenhuma.

"Ele não tinha nenhuma arma no quarto do hotel", disse Green. Perguntou a um agente o que tinha acontecido ao seu amigo.

"Vai demorar muito tempo até que alguém saiba do que se tratava isto", disse Green que o agente lhe tinha dito.

Consequências e perguntas sem resposta

Beloozerov foi morto numa sexta-feira de manhã. Naquela noite, Marina estava a preparar o jantar na sua casa em Rockville, Maryland, quando um agente da polícia local bateu à sua porta com a notícia: o seu ex-marido estava morto. Apesar da sua relação complicada, ela ficou devastada.

"Senti imediatamente tanta ternura, amor e pena por ele, e raiva por não termos podido despedir-nos. Não pudemos pedir perdão um ao outro", desabafou Marina.

O filho de Beloozerov disse que, embora ele e o pai fossem próximos quando era jovem, tinham-se afastado nos últimos anos. A morte de Beloozerov trouxe uma nova perspetiva sobre a relação entre ambos.

"Ele não gostava muito de pessoas, não tinha muito amor por ninguém, exceto por mim", disse Alexander. "O meu pai era um pai fantástico — sinto muito a sua falta. Foi preciso muito tempo e a sua morte para eu compreender tudo isso."

Várias semanas depois, após a autópsia, o corpo de Beloozerov chegou a uma agência funerária em Rockville. Marina ficou horrorizada com o que viu. Tinha sido alvejado pelo menos cinco vezes — no braço direito, na perna esquerda, no pé direito e duas vezes no abdómen, relata Constance DiAngelo, uma patologista forense que analisou as fotografias do corpo de Beloozerov tiradas na agência funerária, a pedido da CNN. Tinha uma grande ferida no braço direito que, segundo DiAngelo, poderia ter sido causada por uma espingarda. Havia marcas no rosto que ele pode ter sofrido ao cair no chão.

Certidão de óbito de Beloozerov. O documento oficial do Mississippi obtido pela CNN revela alguns dos pormenores em torno da sua morte.

Apenas algumas pessoas compareceram ao funeral de Beloozerov — uma cerimónia com caixão fechado — num cemitério de Maryland, em outubro de 2024. Num e-mail enviado a Marina, a agência funerária sugeriu evitar a visita da família, afirmando que isso poderia "perturbar emocionalmente [o seu filho] ainda mais, uma vez que algumas das lesões de Ilya não podem ser ocultadas".

A família depressa descobriu que os agentes federais ainda estavam a tentar desvendar as atividades de Beloozerov.

Seis semanas após o funeral de Beloozerov, o FBI bombardeou Marina com perguntas durante uma entrevista de várias horas no escritório local da agência em Washington. Beloozerov tinha opiniões fortes sobre a guerra na Ucrânia? Tinha voltado à região? Teria sido aliciado para ajudar os ucranianos?

Marina foi categórica com os agentes federais ao afirmar que o seu ex-marido nunca poderia ter revelado segredos a outro país.

"Ri-me e disse: 'Do que é que estão a falar?'", recordou Marina. "O Ilya nunca poderia ser um espião, um agente ou um infiltrado malicioso. Esse não é o Ilya que eu conheço."

Mas, com o passar do tempo, começou a questionar-se se a simpatia dele pela Ucrânia o teria levado a partilhar informações secretas para apoiar os esforços de guerra daquele país.

"Acho que ele poderia ter sido persuadido a ajudar a Ucrânia sem prejudicar os EUA. É nisso que consigo acreditar", acrescentou.

Havia uma coisa de que ela tinha a certeza: ele nunca ajudaria os russos. Falava frequentemente com a Marina sobre o seu respeito por quem protestava contra o presidente russo Vladimir Putin, como o falecido líder da oposição Alexei Navalny.

"A sua posição sobre a guerra na Ucrânia e sobre a situação política na Rússia era, para mim, muito clara: ele não a apoiava de forma alguma", disse Marina. "Ele só via coisas más do lado da Rússia."

Alexander não estava convencido de que o seu pai tivesse revelado informações confidenciais.

"As pessoas vão acreditar no que quiserem acreditar", acrescentou. "E a aparência dos factos é esta: ele era um russo com contactos, a fugir dos federais. Que pessoa no seu perfeito juízo, que não fosse um agente russo, faria isso? E a minha resposta é: seria o meu pai."

Apesar de não acreditarem que ele pudesse ter traído o seu país, a família encontrou novos indícios que sugeriam atividades secretas.

Marina deparou-se, entre os pertences de Beloozerov, com uma carta de condução estadual e um cartão da Segurança Social de um homem que morrera há mais de 10 anos. Encontrou também um crachá de trabalho de outro homem falecido. Especialistas explicaram à CNN que este tipo de documentos de identificação pode ser utilizado para criar identidades falsas.

Cartões de identificação encontrados entre os pertences de Beloozerov. As imagens obtidas pela CNN mostram os cartões de identificação de vários homens falecidos.

Esses detalhes coincidem com outras características de uma figura ideal para o recrutamento como espião, afirmou Eric O’Neill, um antigo agente de contra-espionagem do FBI. Com a sua autorização de segurança e o seu trabalho na Maxar, tanto a Rússia como a Ucrânia poderiam ter tentado recrutá-lo.

"Um administrador de sistemas tem as chaves do reino. São as pessoas mais confiáveis nas TI — são elas que podem criar contas, elevar o nível de acesso e ampliar perfis", disse O’Neill. "Ele é como o Santo Graal para um serviço de inteligência estrangeiro."

O’Neill estava, no entanto, menos certo do que a ex-mulher de Beloozerov de que ele nunca ajudaria a Rússia. Afinal, ele falava russo e tinha viajado para o seu país natal para conhecer mulheres — e o governo russo é especialista em recrutar espiões.

"Agora também poderia ser a Ucrânia, certo?", questionou.

Uma coisa era certa: a família e o público não estavam a obter respostas do FBI.

Depois de ter visitado o escritório regional do FBI em Washington, em dezembro de 2024, Marina pouco mais soube da agência.

Publicamente, o FBI limitou-se a emitir o seu comunicado de imprensa padrão em casos de tiroteios envolvendo agentes, afirmando que o departamento "leva a sério todos os incidentes de tiroteio que envolvam os nossos agentes ou membros da força-tarefa" e referindo que a sua Divisão de Inspeção iria investigar.

As autoridades locais também se mantiveram em silêncio. O médico legista de Hernando remeteu os pedidos da CNN para o FBI. O médico legista estadual não respondeu aos repetidos pedidos de informação ou de acesso aos registos. Um porta-voz do procurador-geral do Mississippi disse à CNN que o gabinete decidiu não instaurar um processo judicial após concluir que o uso da força foi justificado, mas recusou-se a divulgar registos relacionados com a sua decisão ou a responder a mais perguntas. O departamento de polícia local não conduziu a sua própria investigação de homicídio — o FBI disse ao departamento para "não se meter no assunto", revelou um agente da polícia de Hernando à CNN.

O capitão da polícia de Hernando, Kyle Hodge, afirmou que o departamento não tinha conhecimento do estado da investigação federal. "Na verdade, não temos autoridade para indagar."

O silêncio em torno da morte de Beloozerov não é uma exceção.

O FBI não publica dados sobre a frequência com que os seus agentes matam alguém ou recorrem ao uso da força. A agência conduz a sua própria investigação sempre que um agente dispara uma arma. O local é isolado, as testemunhas são identificadas, as provas forenses são recolhidas e, eventualmente, é redigido um relatório — mas, normalmente, este não é divulgado publicamente. Um tiroteio que esteja em conformidade com a política de uso da força da agência — que permite aos agentes disparar se tiverem motivos para acreditar que as suas vidas ou as vidas de terceiros estão em perigo — é considerado justificado. Um tiroteio que não esteja em conformidade com a política da agência pode resultar em medidas disciplinares, mas essas medidas também não são, normalmente, divulgadas publicamente.

Essa falta de transparência preocupa críticos como Mike German, um antigo agente especial do FBI e defensor de longa data das liberdades civis, que defende que a agência deve ser transparente sobre os tiroteios para demonstrar que é uma "agência responsável de aplicação da lei e não apenas uma polícia secreta".

"Concedemos às forças de segurança a autoridade para tirar uma vida. Não deveria ser pedir muito exigir alguma responsabilização pública quando o fazem", afirmou.

No caso de Beloozerov, uma fonte familiarizada com o assunto disse à CNN que a agência considerou justificado o uso de força letal.

"Não estava mentalmente preparada"

Numa tarde quente de primavera, Marina estava sentada na sua sala de estar, nos subúrbios de Maryland, a saborear uma chávena de chá. Já se tinham passado 18 meses desde a morte de Beloozerov. Marina visitava regularmente o seu túmulo, acendendo uma vela e colocando flores na sua modesta lápide – uma cruz de metal com a palavra "Pai".

Ainda não tinha recebido qualquer informação do FBI sobre as circunstâncias da morte do seu ex-marido ou sobre a investigação da agência.

Mas uma fonte familiarizada com a investigação acabou por esclarecer o caso à CNN. A fonte afirmou que os agentes federais tinham provas de que Beloozerov tentou partilhar informações confidenciais com pessoas que ele acreditava serem ucranianas. Fê-lo num momento crucial do conflito — precisamente quando o governo dos EUA estava a limitar a partilha de certas imagens de satélite com a Ucrânia, porque a administração Biden temia que isso agravasse o conflito com a Rússia, disse a fonte.

Enquanto a agência investigava Beloozerov, disse uma fonte à CNN, os agentes descobriram que ele tinha sido enganado.

Na verdade, disse a fonte, ele tinha estado a comunicar com pessoas que a agência acreditava serem agentes russos – que se faziam passar por ucranianos.

A ex-mulher de Beloozerov visita o seu túmulo. CNN

Marina reagiu a esta notícia, inicialmente, com choque.

"Era para isso que eu não estava mentalmente preparada", disse Marina.

Mas, em breve, a sua surpresa transformou-se em raiva. Raiva contra as pessoas que encorajaram Beloozerov a passar-lhes informações e raiva contra os agentes que o mataram.

"Sei que ele é um criminoso terrível e um inimigo do Estado", disse ela. "Mas acho que ele é uma vítima."

Antes de deixar a cidade, Beloozerov deu um presente a Alexander: um disco rígido com milhares de fotografias da infância de Alexander — ele e o pai na praia, a empinar pipas, a jogar xadrez juntos.

E quando chegou a hora, Alexander foi ao quintal do pai. Com uma pá na mão, desenterrou uma caixa de munições militares debaixo de uma pilha de folhas e terra.

Lá dentro estavam 50 mil dólares em dinheiro.

Editores: Matt Lait e Tim Elfrink
Produtora Executiva: Patricia DiCarlo
Diretor de Fotografia: Sean Clark
Editores de Vídeo: Meg Pearlstein e Sean Clark
Editora Sénior de Imagens: Gillian Roberts
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Editores de fotografia: Tristen Rouse e Austin Steele
Colaboradores: Katelyn Polantz, John Miller, Majlie de Puy Kamp, Casey Tolan, Gianluca Mezzofiore