Cientistas de EUA e Canadá têm mais estudos publicados - 02/08/2026 - Ciência - Folha

O processo que seleciona a publicação de pesquisas em dois dos periódicos científicos mais importantes do mundo é afetado por uma série de vieses relevantes, facilitando a vida dos cientistas que já trabalham nas instituições de mais prestígio, dos que vivem na América do Norte e, em menor grau, dos que são homens.

Todos esses grupos conseguiram emplacar seus estudos com mais frequência do que os demais nas páginas das revistas Science e Science Advances entre 2015 e 2020, afirma uma análise que saiu no último dia 15 nas páginas da própria Science Advances.

Essas vantagens competitivas, as quais, em princípio, não têm relação nenhuma com a qualidade dos estudos em si, são vistas como notórias há muito tempo cientistas que não contam com elas (como pesquisadores do Brasil, por exemplo). Mas é a primeira vez que tais efeitos são quantificados em periódicos acadêmicos com o porte da Science.

Coordenado por Aaron Clauset, do Instituto Santa Fe e da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, o trabalho teve como base um banco de dados com mais de 110 mil manuscritos (ou seja, o texto "bruto" detalhando uma pesquisa) que foram submetidos às revistas nesse período. A análise dos dois periódicos é importante por eles serem considerados "de interesse geral", publicando trabalhos de uma ampla gama de disciplinas científicas.

O processo de aceitação dos manuscritos para publicação, em ambos os periódicos científicos (ou "journals", em inglês), é similar. O fluxo de trabalho acontece em duas camadas. De início, editores recebem todos os textos submetidos e fazem uma seleção inicial dos materiais considerados relevantes para as revistas e que parecem ter boa qualidade acadêmica.

Outros editores fazem mais uma avaliação antes de decidir, por fim, se repassam ou não o manuscrito para o chamado "peer-review" ou revisão por pares. Essa revisão é feita por cientistas da mesma área de pesquisa do manuscrito analisado e é considerada a mais importante por levar em conta a solidez científica do estudo.

Acontece que a peneira editorial acaba sendo a mais importante, por causa do grande volume de manuscritos submetidos à análise. No período estudado, apenas 17,4% dos textos enviados à Science e 25,8% dos mandados para a Science Advances de fato chegaram à fase da revisão por pares. A proporção de artigos de fato publicados foi ainda menor –6,1% e 10,5%, respectivamente.

Como os editores ainda não estão avaliando em detalhes as virtudes científicas de cada trabalho, isso abre espaço para vieses. Mais importante ainda, o processo não é duplo-cego (do tipo em que os editores e revisores não sabem quem submeteu o estudo e os autores tampouco sabem quem o está analisando). Em vez disso, apenas os cientistas não sabem quem está do outro lado.

As consequências dessa abordagem ficam claras na análise. Para começar, no caso da Science, por exemplo, os editores dão notas para o manuscrito que repassaram para os revisores, e isso também influencia a aceitação. Só 10% dos manuscritos com notas mais baixas acabam sendo publicados, enquanto 72% dos que receberam pontuação alta acabam emplacando.

Além disso, uma série de informações sobre as características dos cientistas que estão disponíveis para os editores e revisores fazem diferença na hora da aceitação. Autores de universidades e institutos de pesquisa de alto prestígio acabam recebendo o aceite em 11,6% dos casos, contra apenas 3,4% dos que vêm das instituições menos renomadas.

As equipes grandes (com dez ou mais membros) têm sucesso em 9,9% dos casos, contra 3,3% dos estudos com até cinco autores.

Grupos liderados por cientistas dos EUA e Canadá têm sucesso em 8,3% das submissões, contra 2,5% das equipes com líderes chineses –a comparação com a China foi feita porque o país asiático hoje responde por boa parte das submissões feitas por cientistas fora da América do Norte, graças à explosão de seu investimento em pesquisa nas últimas décadas.

Curiosamente, mesmo pesquisadores que trabalham em instituições dos EUA, mas têm sobrenomes chineses contam com chances mais baixas de publicação, em média, do que os que têm sobrenomes de outras origens.

A diferença de sucesso entre coordenadores homens e mulheres é bem mais discreta (6,4% versus 5,3%). Para os autores do estudo, é possível que a diferença esteja associada ao fato de que, na geração atual de cientistas, os coordenadores de estudos nas instituições mais renomadas ainda tendam a ser homens.

Por fim, na Science, há claro privilégio para certas áreas. Estudos envolvendo vírus, infecções e o sistema de defesa do organismo emplacam em 9,6% dos casos, contra 1,7% dos que abordam política, economia e gênero.

Conforme as porcentagens de rejeição correspondentes a cada fase já indicam, os vieses estão concentrados na fase editorial, e não na revisão por pares. Isso sugere que, durante o "peer-review", a tendência é que os analistas se concentrem mais no mérito científico do trabalho e menos em fatores de percepção externa.

Se a conclusão estiver correta, trata-se de uma rara boa notícia para o sistema de revisão por pares, hoje combalido pela falta do emprego do duplo-cego e pela precarização, já que tradicionalmente ele costuma ser feito de forma voluntária, num volume crescente de estudos, atrapalhando a qualidade da análise.