Num momento em que instabilidades macro e os impactos da AI fazem preço nos mercados, o melhor é diversificar e se concentrar nos fundamentos das empresas, diz Laura Howenstine, diretora da Wellington Management, gestora americana com US$ 1,2 trilhão em AUM.
Howenstine é responsável pelo fundo de ações Global Quality Growth, que busca investir seus US$ 7 bilhões globalmente em empresas de crescimento, com valuations atrativos e dividendos elevados.
Em relação ao benchmark – o MSCI All Country World Index – o fundo está underweight EUA e overweight Europa. “Muita gente pensou que a Europa sofreria bastante com o conflito entre EUA e Irã, mas estamos vendo sinais importantes de resiliência da economia,” Howenstine disse ao Brazil Journal.
Para ela, o desempenho das bolsas de diferentes países está menos correlacionado que no passado por conta da “desglobalização”.
Ela acredita também que é preciso buscar oportunidades em AI além das empresas de semicondutores e hardware.

Entre as principais posições do fundo estão a Nvidia e a TSMC, mas houve uma redução marginal desses investimentos recentemente. No Brasil, o fundo investe na Sabesp, mas Howenstine não quis detalhar o valor nem a tese.
Abaixo, os principais trechos da conversa:
Com todas as variáveis geopolíticas que temos hoje, está mais difícil fazer uma análise baseada em fundamentos?
É um momento desafiador porque o desempenho dos mercados tem sido influenciado por dois fatores que são bem diferentes entre si – e, ao mesmo tempo, provocam muita volatilidade.
Um deles é o conflito entre os EUA e o Irã, e toda instabilidade macroeconômica associada a isso. O outro é a inteligência artificial.
Vemos a AI como um superciclo de tecnologia, mas os investidores ficam o tempo inteiro tentando classificar as empresas como vencedoras, beneficiadas pela tecnologia, beneficiadas pela infraestrutura, perdedoras etc. Isso muda muito rápido, e gera grandes impactos nos preços das ações.
Veja o que aconteceu com as empresas de software. No começo do ano, a tese dominante é que elas seriam destruídas pela AI. Mais recentemente, o mercado viu que algumas companhias têm valuations atrativos e poderão monetizar a AI em seus produtos e serviços. Navegar em meio a isso é um desafio.
A boa notícia é que o crescimento dos lucros, de forma geral, tem sido positivo – e tem ido além do setor de tecnologia e para fora dos EUA, no Japão, na Europa e em mercados emergentes.
Como está a exposição do fundo à AI?
Reduzimos um pouco os investimentos em empresas de semicondutores, mas, de forma geral, buscamos ser neutros em nossa exposição à AI (em relação ao benchmark).
A demanda é real e excede a oferta. Mas precisamos prestar atenção às valuations. Além disso, os vencedores podem ser encontrados em setores diferentes dos de hardware e semicondutores – podem ser empresas que estão usando AI para se tornar mais eficientes. Estamos procurando casos assim nos preços adequados.
O fundo está overweight EUA e underweight Europa. Por quê?
Essa posição é um reflexo de onde estamos encontrando ações com a melhor combinação de crescimento, qualidade, valuation e retornos de capital para os acionistas (via dividendos, por exemplo).
Muita gente pensou que a Europa sofreria bastante com o conflito entre EUA e Irã, mas estamos vendo sinais importantes de resiliência da economia. Os dados de produção industrial estão mais fortes, indicando recuperação.
Nossa visão para investir não é top-down, mas, dentro desse cenário macro positivo, encontramos empresas capazes de gerar bons retornos aos acionistas – com valuations mais atrativos, na média, que nos EUA.
Nossas principais posições estão nos setores financeiro, industrial e de saúde.
Também vemos oportunidades no Japão, que foi um mercado difícil de investir na maior parte dos últimos 25 anos, em razão dos desafios demográficos, baixo crescimento e baixa inflação.
Agora vemos sinais de recuperação da economia, então investimos no setor financeiro.
Como os riscos geopolíticos influenciam suas decisões de investimento?
Um ponto interessante é que estamos vendo menos correlações de desempenho entre os diferentes mercados de ações por causa do que podemos chamar de um processo de desglobalização.
Houve tanta globalização nos primeiros 20 anos dos anos 2000, e agora vemos um movimento na direção oposta.
Num cenário assim, a melhor decisão é ter um portfólio diversificado – entre setores, geografias, perfis de empresas.
Além disso, num ambiente de instabilidade, é preciso procurar características que permitam fazer projeções com confiança para as companhias. O que dá segurança pode ser o fato de a empresa ter boa parte da demanda fora do seu país, por exemplo.
Não descartamos nenhum mercado a priori. Olhamos para as empresas e tentamos encontrar os motores de crescimento e qualidade.
Giuliana Napolitano