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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quão perigoso é o gang do Rolex?
Um homem suspeito de participar no roubo de um relógio morreu nesta tarde depois de um acidente de mota em Lisboa, acidente que aconteceu na Avenida de Berlim. O homem seguia numa mota quando embateu contra a viatura que tinha acabado de assaltar. O caso já foi, entretanto, entregue à Polícia Judiciária.
A notícia surgiu esta terça-feira. Um morto depois de uma perseguição na Avenida de Berlim, em Lisboa. As horas seguintes vieram com informações que apontavam para um desfecho mortal de um assalto levado a cabo por um grupo organizado conhecido por "gang do Rolex". Um grupo de cidadãos, alegadamente estrangeiros, da América do Sul, que está a realizar assaltos na capital portuguesa. Procuram produtos de luxo: relógios, fios, anéis ou pulseiras. Foi um destes assaltos que terminou com a morte de um dos assaltantes nesta terça-feira. "O Observador" confirmou o que aconteceu. O assalto foi na Avenida Cidade do Porto, perto do Aeroporto de Lisboa. As vítimas seguiam num carro, um BMW de matrícula portuguesa. Eram um homem e uma mulher, também de nacionalidade portuguesa. Por volta da 13h, foram atingidos na traseira do carro por uma mota com um ocupante. Nesse momento, o condutor do BMW saiu da viatura e foi aí que o condutor da mota o ameaçou com uma faca. Segundos depois, aproximou-se outra mota, também com um condutor, que desta vez ameaçou os dois passageiros do BMW com uma arma de fogo. Foi aqui que se deu o assalto. Ao condutor do BMW levaram um relógio Rolex e um fio, à mulher retiraram três pulseiras e também um relógio Rolex. Ao todo, foram seis objetos num valor a rondar os € 100 mil. Os dois assaltantes subiram para as motas e arrancaram, mas o condutor do BMW deu início a uma perseguição que acabou por embater numa das motas poucos metros mais à frente. A mota despistou-se, o ocupante caiu e acabou por morrer. Aconteceu mesmo à frente do quartel de regimento de sapadores bombeiros na Avenida de Berlim. A polícia procura ainda o outro suspeito e depois deste incidente, foi possível recuperar quase todos os bens. Faltou apenas o relógio retirado à mulher. No episódio de hoje, falamos deste gang do Rolex, que já acumula outros assaltos em Lisboa. Vamos também falar sobre a criminalidade na capital portuguesa. Recebemos Bruno Pereira, subintendente da PSP e presidente do Sindicato Nacional da Polícia. Eu sou o Miguel Cordeiro e esta é a história do dia de quinta-feira, 27 de agosto. Olá, Bruno Pereira.
Olá, Miguel.
Quando é que ouviu falar pela primeira vez deste gang do Rolex?
Já ouvia há alguns meses. A única coisa que muda tem a ver exatamente com um grupo ou vários grupos indiscutivelmente organizados, com um móbil muito bem definido. Do ponto de vista, qual é o foco, o objeto pretendido pela atividade criminosa, não é como aqueles grupos que "venha o que vier, eu quero estar em Monte de Semear". Um pouquinho como grupos que são muito dedicados e muito particularmente dirigidos a bancos ou a caixas de valores. Estes, indiscutivelmente, têm um foco muito concreto que é: bens de elevado valor, com uma particularidade como poucos têm, porque sabemos bem que um Rolex tem valores, além do valor pecuniário, tem um valor simbólico muito grande e sabemos bem a dificuldade que é para se aceder e conseguir comprar um bem destes. É extremamente complicado e, portanto, é um universo muito restrito de pessoas. O que há é, indiscutivelmente, um grupo que sabe o que tem que fazer, sabe onde é que se tem que dirigir, sabe que tipo de monitorização e vigilância tem que fazer, escolhe muito bem as pessoas. Aliás, como são tão poucas, é muito simples, e as lojas que os vendem são muito poucas também. É nessas mesmas lojas que esses mesmos clientes ou donos desses mesmos relógios costumam ir para conseguir, por exemplo, arranjar um problema qualquer no relógio ou coisa parecida. Não sendo fácil sinalizar uma vítima, este tipo de monitorização é mais fácil de fazer e também permite, ao mesmo tempo, que nós consigamos estar mais atentos e dirigir determinado tipo de medidas corretivas, pedagógicas e preventivas, quer junto de quem os vende, quer junto de quem possa deter este tipo de objetos. O que me leva exatamente ao plano daquilo que são, e devem ser, as precauções acrescidas face ao recrudescimento do fenómeno, porque já temos tido imensos episódios. Este é apenas, se calhar, não sei, não tenho número de cabeça, mas certamente já temos mais de duas dezenas de assaltos em Portugal.
Só deste gang ou de este tipo de gangs semelhantes?
Não sabemos se é deste gang, mas deste tipo de gangs, porque eu quero acreditar que não seja apenas um e que ele não atue só em território nacional. Um bocadinho vou fazer o transporte para o tipo de criminalidade transnacional, porque interessa, inclusivamente, a estes grupos itinerantes, transitar do ponto de vista de território. Para quê? Para ser mais difícil nós conseguirmos fazer o tracking, conseguirmos fazer o acompanhamento. E depois temos que conseguir identificar, porque o problema muitas vezes é conseguir chegar até à identificação deles. E depois da identificação, chegar à localização deles. Um simples grupo de carteiristas que sabemos que atua de forma bastante organizada e que atua por toda a Europa, nomeadamente os países do Centro-Sul, meritoriamente, e normalmente deslocam-se aquilo que são as grandes metrópoles onde há, efetivamente, uma concentração, uma densidade populacional, quer residente, quer flutuante, muito grande, exatamente para passar mais despercebidos, mas conseguir obviamente exponenciar a sua atividade. Eles nunca passam mais de algumas semanas, no máximo alguns meses, a atuar em cada país ou em cada cidade.
E neste caso, do gang do Rolex, pode ser uma situação parecida?
Pode ser uma coisa muito parecida, no sentido de que há Rolex Não só em Portugal, há Rolex em Espanha, há Rolex em França. Portanto, acreditando que não seja um grupo numeroso, mas que efetivamente tenha este expertise, esta experiência acumulada, saber o que tem que fazer, conseguindo mensurar bem as liabilities, ou seja, as vulnerabilidades de não poder estar muito tempo e um saco ou dois serem suficientes pra que eles possam movimentar sem serem apanhados.
Neste caso, aconteceu na estrada com um carro, motas. Mas qual é o modus operandi? O que nos pode dizer da forma como atua este grupo ou estes grupos em que está envolvido o Rolex?
Isto tem acontecido muito, esta espécie de falso acidente ou um toque. Para quê? Para obrigar a pessoa desde logo a desfocar-se, porque a primeira preocupação se nos baterem o carro é o quê? Ficarmos em alvoroço. É assim: "Meu Deus, já me bateram outra vez o carro". Então o meu foco vai completamente estar direcionado numa direção, posso dizer. Isso, quer queiramos quer não, cria uma janela de oportunidade fantástica pra que eles possam atuar. E normalmente eles atuavam, se não estou equivocado, muito com a utilização de motas. Para quê? Porque atuando dentro do centro da cidade e uma cidade com as condições geográficas e urbanísticas que a nossa cidade tem, sendo uma cidade linda por ter sete colinas.
Cheia de trânsito.
Claro. E pra além disso, uma movimentação com moto é a melhor forma de nós não podermos movimentar, porque à partida não vamos ver esse tipo de pessoas andar na rua à noite. Não quer dizer que não possam ir jantar e sair, mas como vimos, eles atuam em plena luz do dia. E portanto, atuando em plena luz do dia, sendo mais facilmente identificados ou sinalizados numa situação destas, pode ser rapidamente comunicada às autoridades. O que eles vão querer fazer é o quê? Sair dali muito rapidamente e ter uma escapatória muito rápida e conseguir, no limite, se efetivamente se pararem ou confrontarem com as forças policiais, conseguirem aproveitar exatamente aquilo que uma moto lhes consegue dar em termos de mobilidade.
Mas nem todos os casos acontecem no trânsito.
Nem todos os casos acontecem no trânsito. Têm acontecido casos à saída de áreas comerciais, por exemplo, à saída de lojas. E eu alerto exatamente para que as pessoas, quando vão a esses sítios, ou sítios efetivamente onde possam ser referenciadas ou comentadas por, enfim, uma loja, uma relojoaria, uma ourivesaria, que eventualmente venda, porque como digo também, casas que vendam Rolex ou relógios desta ordem de valor, quer pecuniária, quer simbólica, são poucas. E, portanto, aqui deve acrescer uma preocupação maior, redobrada, e eu acho que nós não temos uma cultura de segurança, isso é inquestionável. Nós não estamos propriamente predispostos a ter uma postura de vigilância com aquilo que possam ser janelas de risco. E, portanto, leva que nós aligeiremos aquilo que devia ser uma conduta preventiva que nós devíamos ter, não estou a dizer todos os dias, a toda hora, em todo momento, em todo sítio, mas se tem alguns sítios, algumas horas, tendo em conta exatamente o risco que acresce pelo fato de ter um relógio que pode valer 150, 200, 250 mil euros, eu acho que as cautelas nunca são poucas. Portanto, devemos ter aqui cautelas redobradas. Acho que muitas vezes somos nós que nos colocamos numa situação permissiva ou mais propícia a que a janela de oportunidade possa ocorrer, porque uma coisa é certa, se o assaltante vir que o risco é muito grande, ele recua, não vai atuar. É natural.
A nível de informações sobre este grupo, já sabe quantos suspeitos existem, quantas pessoas terá o grupo, se são todos da mesma nacionalidade ou ainda são muitos pontos de interrogação?
Eu não consigo dar uma resposta a isso, porque não tenho a investigação a meu cargo e nem estou aqui em representação institucional da Polícia de Segurança Pública, nem da Polícia Judiciária. Provavelmente serão os dois órgãos policial que terão, coadjuvando o Ministério Público, naturalmente, essas investigações. Sei que já houve detenções que ocorreram, quer pela PSP, quer pela PJ, o que mostra que não há um grupo só. E mais, que isso não foi fator inibidor para que outros grupos, ou outros membros do mesmo grupo, ou outros grupos, que se dediquem exatamente à mesma causa, possam efetivamente vir atuar em território nacional. E é aqui a grande diferença de nós conseguirmos, por via da eficácia na intervenção, na eficácia, na responsabilização, e por isso é que faz toda a diferença. Nós falamos muito em investigação criminal e as investigações criminais mudam consoante o tipo de crime que temos pela frente. Há umas que podem, efetivamente, ser demoradas, até porque muitas vezes elas são retroespéticas, portanto, andam pra trás. E estamos a falar de pessoas normalmente nacionais, ou residentes, ou pessoas facilmente localizáveis. Estou a falar, por exemplo, da criminalidade de colarinho branco ou coisa parecida. Mas daquilo que é a criminalidade de cenário, nós temos que ser, seja o polícia que for, rápidos a atuar. Exatamente por quê? Porque quanto mais tempo demoramos, baixamos exatamente aquilo que são os níveis de sucesso potenciais em conseguir chegar aos autores e responsabilizá-los com uma prova concludente, inequívoca e cabal.
Bruno Pereira, já regressamos a esta conversa, fazemos apenas uma curta pausa. Estamos de regresso à História do Dia. Bruno Pereira, olhemos para a capital portuguesa, este tipo de assaltos, à procura de produtos de elevado valor, como relógios, pulseiras, fios que falámos aqui. Isto tem aumentado nos tempos recentes?
É uma forma, indiscutivelmente, que não tínhamos. E é curioso, até já perguntei isso, porque outros nomes que tínhamos no passado também deixamos ter. Veja se não deixa de ser curioso. Isso tem tudo a ver exatamente com o endurecimento de medidas que este tipo de alvos adotaram. Nós hoje quase não temos assalto a um banco. Nós hoje quase não temos assalto a uma carrinha de valores, é muito raro. Por quê? Deixaram de ser rentáveis e o risco passou a ser muito grande. Tal como, por exemplo, podendo fazer um paralelismo, porque acho claramente que não tem que ver com um grupo organizado, foi mais um bocadinho a ocasião, ainda que siga os mesmos trâmites do ponto de vista de preparação, houve um indivíduo, um senhor amador, que por acaso eu conheço, de forma indireta, por outra pessoa, que tem um talho. E ele tinha exatamente a mesma rotina todos os dias de ir entregar o dinheiro ao banco, depositar o dinheiro. Bem, é muito fácil, será até mais fácil do que o portador do Rolex, eu conseguir identificar alguém, um operador econômico, um comerciante, um talhante, que todos os dias faça exatamente a mesma coisa. O que é que vai acontecer? Eu aumento a janela de oportunidade Exatamente porque a pessoa que me identificou três, quatro ou cinco vezes seguidas a ir ao mesmo banco, à mesma hora, todos os dias, com um saco na mão, vai perceber exatamente o que eu faço e o que eu levo ali. Portanto, crie condições para que eu possa ser assaltado. E no caso concreto, o senhor até foi baleado porque resistiu e procurou até o máximo resistir, e nem o fato de ter arremessado o dinheiro para dentro do banco, na antecâmara, porque ele foi interpelado na antecâmara do banco, não chegou a matar a caixa multibanco. Ele lançou o dinheiro lá para dentro e nem isso inibiu os autores, que eram dois, segundo percebi, de efetivamente ir à procura do dinheiro e lhe dar um tiro. No caso do gangue do Rolex, é um grupo indiscutivelmente e provavelmente estrangeiro. Já tivemos informações públicas que poderiam ser sobretudo da América do Sul, mas há quem diga também, se eu não estou equivocado, que possam ser também magrebinos. Temos aqui grupos de distinta natureza, de distinta origem, a atuar, porque percebeu exatamente que é um bom filão, permito-me a expressão mais coloquial, e que é muito rentável. Agora, lembrar outra coisa, é que escoar dinheiro é muito fácil, é só branqueá-lo, é ir a um restaurante, é comprar roupa. Este tipo de produtos não é. E talvez o ponto que aqui fará a diferença é tentar perceber que recetadores possíveis é que possam existir, não devem ser muitos, a pagar no mercado negro por este tipo de produtos.
E há zonas da cidade mais preocupantes ou onde há mais este tipo de assaltos?
Eu acho que não há nenhum padrão. Eu acho que o padrão passará exatamente por, como eu tinha dito, áreas comerciais onde de repente possam haver lojas, relojoarias que possam ter que ver, ou o facto de realmente serem pessoas que normalmente deambulam em determinadas zonas da cidade, normalmente zonas mais nobres, restaurantes mais caros, Avenidas da Liberdade desta vida, ou semelhantes, onde efetivamente seja mais fácil uma pessoa com este objeto ser detetada, ser referenciada, ser acompanhada, ser monitorizada e ser visada por este tipo de crime.
Temos de falar deste caso específico desta terça-feira, porque depois do assalto houve uma perseguição por parte da vítima, acabou por interceptar o assaltante, que depois acabou por morrer ao despistar-se. Foi uma resposta ao assalto que sofreu, esta vítima, mas isto é algo que as autoridades de certa forma desaconselham, esta perseguição.
Vou dividir a análise em dois pontos. Primeiro, do ponto de vista do direito e do ponto de vista do meu conselho. Do ponto de vista do direito, a pessoa já não age em legítima defesa, mas age ao abrigo também de uma causa de exclusão da ilicitude, isto do ponto de vista técnico-jurídico, é a ação direta, que é o direito que todos nós temos enquanto cidadãos, quando nos vimos desapossados de algo ou de um direito, reavê-lo. Temos o direito de procurar, neste caso, reaver o objeto que nos foi roubado. Isto está previsto no Código Civil, que por remissão do Código Penal permite a aplicação também analógica e é aplicável no direito penal. A pessoa age de forma legítima. Não vou pôr em causa, porque pode haver responsabilidade, se ela não foi longe demais na ação furtiva que levou por diante aquando da perseguição. Não deixa de ser uma tragédia, independentemente de estarmos a falar de um criminoso, pode até ter sido ele a precipitar o próprio atropelamento, porque caiu, porque ali muito perto. Não sabemos, isto tem que ser devidamente avaliado, creio eu, pela PSP. Não sei quem é que depois se foi tomar conta da ocorrência, do ponto de vista do acidente. Não sei se haverá uma investigação conjunta, quer relativamente ao facto do roubo, seguida da perseguição e do atropelamento, que redundou numa morte. Pode ser dolosa ou negligente, ou no limite, ser dolosa ou negligente justificada. Agora, quanto ao conselho, isto foi um caso claramente isolado. É normal as pessoas reagirem procurando defender-se. Não é normal vermos uma morte resultante disso. E acho que teve a ver com o caso particular, porque a pessoa estava dentro do seu carro, era o que tinha à mão, foi a maneira que tinha para perseguir quem o tinha acabado de roubar. Depois foi o desenrolar que acabamos de desnuvolar ou desfiar. Agora, eu percebo porque é que a pessoa procura reagir. Eventualmente, todos nós procuraríamos fazê-lo. E ligar imediatamente para as autoridades. Agora, as pessoas podem se colocar numa situação de perigo. Eu não sei se eles estavam armados, agora não me recordo.
Havia um dos que estava com uma faca e uma arma de fogo.
Uma arma de fogo. Veja bem, essa é a situação de perigo que a pessoa se pode colocar. É verdade, muitas vezes nós imponderadamente não medimos depois bem o risco, mas esta pessoa poderia provavelmente ser alvejada e poder vir ela própria a morrer e não o assaltante. Desaconselho. Acho, em primeira linha, chamar as autoridades. São elas que têm que atuar, são elas que estão capacitadas para tal. É verdade, nem sempre conseguimos reagir com imediatismo, com celeridade, porque não conseguimos ser omnipresentes. Mas o conselho é: liguem primeiro para as autoridades e procurem, dentro daquilo que é possível, porque ele poderia perfeitamente segui-los e não persegui-los. Pode parecer semântico, mas não é. É segui-los sem se colocar numa situação de risco ou segui-los perseguindo-os, colocando-se numa situação de risco. São planos diferentes.
Referiu há pouco que isto é um novo tipo de incidentes que tem aumentado, a procura por bens de luxo, assaltos a bens de luxo. Lisboa precisa de um reforço de policiamento e se há alguma zona mais precária nesta fase?
Eu diria que a polícia, já o disse várias vezes, até em termos de vários debates públicos, entrevistas públicas que eu tenho feito, a polícia está carente de recursos. Está altamente enfraquecida por força de ausência de políticas públicas, por sucessivos governos, não é deste. Porque a segurança nunca foi, e ainda hoje não é, pese embora hoje se fale muito nela, e pese embora muito se fale naquilo que é a importância que ela alegadamente tem para o turismo, para o investimento, para tudo aquilo que é paz social, mas depois não investimos nela. E achamos que, miraculosamente, como sucessivamente o tesouro da Larinha de Condão, que tudo se mantém igual e que a polícia lá vai conseguir gerir, como tem sido sabido fazê-lo ao longo de várias décadas e mais do que isso. E a isso se deve a queda acentuada nos últimos 20 anos da criminalidade geral e violenta. Se formos ver os dados de há 20 anos, comparação que não devemos fazer, só quero para que se perceba, há uma queda abrupta e essa queda deve-se em grande medida ao mérito e à atuação das forças policiais. Não tenhamos aí nenhuma dúvida. Foi muito difícil chegar até aqui. Digo-lhe que é muito fácil perder-se e voltarmos a recuar. E poderemos recuar de tal forma que Portugal deixe de ser o país de luz que é, de luz no sentido de ser um país atrativo, um país seguro, um país que cativa e um país que continua a trazer mais gente todos os anos, a aumentar cada vez mais o número de pessoas que nos vêm visitar. Diria, os problemas obrigam a uma constante análise e observação por parte das equipas de análise que a polícia tem. Não sei dizer para si se, de acordo com a área nacional, regional, municipal ou local, se determinado tipo de fenómenos estão a crescer e de que forma é que estão a crescer para que eu possa intervir sobre eles, do ponto de vista preventivo e de visibilidade. Do ponto de vista de investigação criminal, quanto mais crimes não conseguimos evitar, mais crimes teremos que investigar, mais pressão sobre o sistema judicial teremos e, quer queiramos, quer não, no fim do dia deixamos de conseguir priorizar. Teremos que priorizar dentro daquilo que já eram prioridades criminais, que são muitas, e não conseguimos chegar a todo lado, não conseguimos, pelo menos, responsabilizar quem temos que responsabilizar e procurar reparar dentro do possível o dano causado a essas múltiplas vítimas.
Obrigado, Bruno Pereira.
Obrigado, Miguel.
Bruno Pereira é subintendente da PSP e presidente do Sindicato Nacional da Polícia. Esta foi a história do dia. A sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Miguel Cordeiro. Até amanhã.