A estrutura, habituada à multidão, hoje carrega um silêncio incompatível com um lugar que tem significado de casa para muitos pernambucanos.
- É estranho. O Arruda é o lugar onde as pessoas se encontram, que vivem o Santa Cruz. As pessoas têm como parte da identidade delas. É um sentimento de tristeza e estranhamento. Para além das histórias dos grandes públicos, o que faz falta é a presença contínua, estar aqui o tempo todo, ver as mesmas pessoas, aquele ritual de todo jogo. Bate a saudade de viver o clube. Vir ao Arruda faz parte da paixão pelo Santa Cruz - diz o jornalista e torcedor Thiago Vieira.
Estádio do Arruda — Foto: Reprodução
O último jogo do Santa Cruz com público no Arruda foi o empate em 1 a 1 diante do xará Santa Cruz-RN, pela Série D de 2025.
Desde então, o clube transferiu jogos para a Arena de Pernambuco, localizada em São Lourenço da Mata, distante mais 20 quilômetros da casa tricolor. A justificativa inicial era a realização de uma reforma definitiva, custeada pelos investidores da SAF no estádio.
As prometidas reformas não saíram do papel. O Santa Cruz está em processo de troca no grupo de investidores, e o estádio, diferentemente da proposta apresentada pelos futuros antigos acionistas, não entrará na nova oferta da SAF.
O que aconteceu
Um dos acessos do estádio do Arruda, manchado e com vazamento — Foto: Marlon Costa/AGIF
O Arruda, atualmente, não pode receber público porque não possui os laudos necessários dos órgãos de segurança, obrigatórios para a presença dos torcedores. Neste ano, o clube ainda jogou duas vezes no estádio, mas com arquibancadas vazias.
O mesmo lugar que chegou a receber mais de 96 mil pessoas e é o segundo maior estádio particular do país - atrás apenas do Morumbis, do São Paulo -, reduziu-se a um espaço de treinamento para o elenco profissional do Santa Cruz.
Em abril deste ano, o clube pernambucano tentou reabrir o estádio para um público reduzido - cerca de 15 mil pessoas -, mas os órgãos públicos, como Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, não autorizaram a expedição dos laudos. Três meses depois, o cenário continua igual.

Laudo da Defesa Civil sobre o Arruda aponta "risco alto em toda a estrutura" e pontos com "risco muito alto"
A reportagem do ge conversou o presidente da Comissão Patrimonial do Santa Cruz, Adriano Lucena, para saber se há uma previsão de realização de obras e de reabertura do estádio.
- A gente precisa ter muita certeza para dar uma data. A nossa data é a data do trabalho, do compromisso do fazer. E fazer, no Santa Cruz, precisa de recursos. O Arruda envolve uma parte financeira extremamente significativa. Então, num clube de futebol que não coloca o seu plantel rigorosamente em dia, como fazer intervenções no estádio que envolve muitos recursos? - conta.
Arruda com portões fechados para Santa Cruz e Decisão — Foto: Marlon Costa/Agif
- Por exemplo, nós temos hoje um projeto para executar o fechamento da arquibancada ali nas cadeiras. Custa R$ 500 mil. É um espaço que tem um volume de dinheiro significativo. Para você ter uma ideia, na nossa última renda (contra o Ituano), a Comissão Patrimonial ficou com R$ 15.480. Como a gente vai fazer? A gente precisa viabilizar mecanismos - justifica Adriano.
- Estou falando de uma (obra). Os banheiros, os acessos, a pintura, a parte elétrica, a parte logística do estádio... Então, o volume de dinheiro é muito maior do que isso - completa.
O que é necessário para a reabertura?
Área externa do estádio do Arruda — Foto: Reprodução
Ainda de acordo com Adriano Lucena, o Santa Cruz só poderá reabrir o Arruda para a torcida quando conseguir o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). Este documento comprova que o local cumpre as normas de segurança contra incêndio e pânico.
Para conseguir o AVCB, por sua vez, o Santa Cruz precisa aprovar o projeto de combate a incêndio e pânico. O que ainda não aconteceu - e não há possibilidade de o Corpo de Bombeiros liberar o Arruda, com menor que seja a capacidade, sem antes aprovar o projeto, reforça Lucena.
"O que precisa ser feito é aprovar o projeto de combate a incêndio. O projeto precisa ser entregue ao Corpo de Bombeiros e o Corpo de Bombeiros analisar se está correto. Depois que o projeto é aprovado, vem o segundo passo, que é executar o que foi aprovado. Fazer o projeto, do ponto de vista financeiro, é insignificante perto da execução", diz Adriano Lucena.
Ferragens expostas nas arquibancadas do Arruda — Foto: Reprodução
- O Corpo de Bombeiros só libera a abertura do estádio com o AVCB. E o AVCB só sai com o projeto entregue e aprovado. Não tem a menor condição de o Corpo de Bombeiros liberar de forma parcial sem que o projeto esteja aprovado. Ele pode, na análise dele, até permitir uma abertura parcial, mas isso só acontece depois da aprovação do projeto - acrescenta o dirigente.
O Santa Cruz contratou uma empresa para identificar as intervenções necessárias no estádio e qual será o custo para iniciar a reforma. Para o Arruda voltar a operar numa capacidade acima de 50 mil torcedores, o diretor projeta um investimento de R$ 4 milhões no José do Rego Maciel.
A segurança do Arruda

Arruda dá sinais de abandono e luta para voltar a receber torcida
Durante a conversa com o ge, o presidente da Comissão Patrimonial tricolor foi taxativo: o Arruda pode, sim, receber público com segurança em determinados setores.
Quando o Santa Cruz desejava liberar o estádio às vésperas da Série C, havia um plano de alocar até 15 mil torcedores entre os setores de cadeiras, camarotes, sociais e parte da arquibancada superior.
A ideia não se consumou porque a direção do clube não conseguiu obter os laudos dos órgãos públicos em tempo hábil. Não liberação que gera o questionamento sobre a segurança do estádio para receber torcida.
O dirigente tricolor alega que o Arruda é um lugar seguro para os torcedores.
"Hoje, tem condições de ter jogo no Arruda com segurança? Óbvio que tem. Sem risco de cair. Não estando nessa áreas abaixo de uma parte de concreto que precisa de intervenções, não tem problema nenhum", sustenta Adriano Lucena.
Obras na área interna do Arruda — Foto: Reprodução
Em abril de 2026, a Defesa Civil de Pernambuco publicou um relatório que classificava o estádio do Arruda com "risco alto" em toda a estrutura e "risco muito alto" entre os portões 5 e 6 do local.
O relatório apontava ainda que a classificação de "Risco Muito Alto" atribuída entre os portões acima descritos decorreu da iminência de desprendimento de materiais, com potencial de causar acidentes com consequências graves aos usuários, não estando relacionado, naquele momento, ao risco iminente de colapso global da estrutura.
Indagado sobre a perícia da Defesa Civil, o presidente da Comissão Patrimonial do Santa Cruz discordou da "concepção" do documento.
- Eu discordo totalmente da concepção. Não vou dizer que o laudo está errado, longe disso, mas eu discordo da classificação. Porque isso gera um pânico onde as pessoas interpretam a questão do colapso. Eu posso até classificar que está em risco alto ou muito alto, mas eu tenho que explicar o que está alto e muito alto. Eu tenho que gerar um desenho mostrando onde é que está. Quando eu gero só uma nota, as pessoas interpretam que o estádio inteiro está em colapso, e não é isso - defende.

Vídeo feito por torcedora mostra goteiras pesadas no Arruda durante jogo do Santa Cruz
Um encolhimento antigo
Maior e mais novo estádio da capital recifense entre os principais clubes de Pernambuco (Náutico, Sport e Santa Cruz), o Arruda completou 54 anos no dia 4 de julho.
Os problemas envolvendo a estrutura são antigos, com capítulos recentes. Em 2022, por exemplo, na data de aniversário de 108 anos do clube, tricolores foram barrados na porta do estádio e não puderam assistir ao jogo contra o Afogados da Ingazeira, pelo Estadual. O motivo? A não liberação do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar para receber torcida.

Torcedores do Santa Cruz protestam após serem barrados no Arruda antes de jogo
Buraco na arquibancada do estádio do Arruda — Foto: Marlon Costa/AGIF
Buraco em arquibancada do Arruda — Foto: Cabral Neto/ge
Apenas no segundo semestre de 2022 que o Tricolor pôde ampliar substancialmente a capacidade do Arruda. Em agosto, o estádio foi liberado para mais de 40 mil torcedores.
Nessa época, uma partida foi marcante: o jogo de ida das oitavas de final da Série D, contra o Tocantinópolis. Desde a pandemia de Covid-19 que o campo não recebia público desse porte - 40.496 tricolores.
Contudo, houve problemas. Torcedores, entre eles crianças, passaram mal e precisaram de atendimento.

Torcedores do Santa Cruz atendidos pelos Bombeiros em jogo contra Tocantinópolis
O clube optou, então, por transferir o mando de campo para a Arena de Pernambuco.

Presidente do Santa Cruz e investidor da SAF falam sobre reforma do Arruda
A promessa de reforma era a justificativa para a mudança para a Arena de Pernambuco - as obras no Arruda começariam imediatamente assim que a venda fosse sacramentada, garantiam o clube e investidores.
Na proposta vinculante, o estádio tricolor receberia R$ 100 milhões mínimos em investimentos em até três anos. Depois, seria transferido em definitivo para os acionistas. Em razão do desfecho negativo do negócio, que está no radar de outro grupo brasileiro, o Arruda ficou pelo caminho. E vazio.
A capacidade de público do Arruda
- 1972 – 66.040 pessoas; inauguração do anel inferior
- 1982 – 110.000 pessoas (+43.960); inauguração do anel superior
- 1993 – 85.000 pessoas (-25.000*)
- 2001 – 75.000 pessoas (-10.000*)
- 2005 – 65.000 pessoas (-10.000*)
- 2012 – 60.044 pessoas (-4.956*)
- 2015 – 55.582 pessoas (-4.462*)
*Redução por medida de segurança.
Dados compilados pelo jornalista e pesquisador Cassio Zirpoli.
Procurados pelo ge, os órgãos de segurança informaram que não houve qualquer mudança de posicionamento em relação às últimas vistorias. Leia abaixo as notas publicadas em abril:
Nota do Corpo de Bombeiros em abril de 2026
O Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE) esclarece que, conforme a legislação vigente, a realização de vistoria técnica em edificações está condicionada, obrigatoriamente, à existência de um Projeto de Segurança Contra Incêndio e Pânico (PSCIP) devidamente aprovado pela Corporação.
A vistoria tem como finalidade verificar, no local, se as medidas de segurança previstas no projeto aprovado foram corretamente executadas. Dessa forma, trata-se de uma etapa posterior e vinculada à aprovação prévia do referido documento.
No caso do Estádio José do Rego Maciel (Estádio do Arruda), o projeto não está aprovado. Até o momento, as exigências técnicas apontadas pela Corporação não foram integralmente cumpridas, o que impede o avanço do processo.
Nota da Defesa Civil em abril de 2026
A Defesa Civil do Recife concluiu, nesta sexta (17 de abril), relatório sobre o grau de risco do Estádio José do Rego Maciel. O local já havia sido vistoriado em 25 de setembro de 2024. Diante das condições observadas à época, o trecho compreendido entre os portões 5 e 6 foi classificado como Risco Muito Alto (R4), com recomendação de interdição imediata e execução de intervenções estruturais em caráter de urgência, enquanto os demais setores foram enquadrados como Risco Alto (R3).
Nesta semana (de abril), novas visitas ao espaço foram feitas por equipes do órgão municipal, onde os técnicos constataram que os serviços executados foram pontuais e que as recomendações emitidas em parecer técnico anterior não foram integralmente atendidas.
Por isso, a liberação do trecho compreendido entre os portões 5 e 6 fica condicionada à apresentação de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) ajustada, contemplando a descrição dos serviços efetivamente executados, além de parecer técnico estrutural atestando a capacidade de carga da estrutura e suas condições de segurança estrutural. As classificações de Risco Alto (R3) para a estrutura como um todo e Risco Muito Alto (R4) para o trecho interditado entre os portões 5 e 6 também ficam mantidas, condicionadas às mesmas medidas.
O relatório é resultado de vistorias realizadas durante a semana (em abril) no local, incluindo análise presencial da estrutura e uso de drone, realizadas na presença de representantes e engenheiros contratados pelo Santa Cruz.