Vinte e cinco bens culturais e naturais foram acrescentados à lista de patrimônios mundiais da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Os novos reconhecimentos foram eleitos por uma comissão formada por 21 países-membros, que se reuniu no 48º comitê internacional em Busan, na Coreia do Sul.
Parques nacionais, castelos medievais, teatros, mesquitas e outros lugares históricos foram celebrados nesta edição, realizada do dia 19 até esta quarta (29). Com as novidades, a lista da Unesco conta com 1.273 patrimônios mundiais espalhados por 173 países. Das propostas submetidas à avaliação, apenas cinco foram negadas por consenso.
O Brasil foi o único país da América Latina a ganhar um novo patrimônio cultural mundial. Os teatros Amazonas, em Manaus, e da Paz, em Belém, foram listados juntos sob a designação Teatros da Amazônia. Além dos prédios em si, integram o título as praças localizadas logo à frente: o largo de São Sebastião e a praça da República, respectivamente.
As construções, tombadas desde a década de 1960, foram erguidas durante o ciclo da borracha, considerada a idade de ouro da Amazônia. Segundo Deyvesson Gusmão, presidente do Iphan, os dois trazem uma ligação do contexto histórico, econômico e político da época e foram importantes na formação urbana das duas metrópoles. Agora, o país tem 26 patrimônios mundiais.
A Itália também foi representada por seus teatros. Um conjunto de dez construções dos séculos 18 e 19 preserva o neoclassicismo com influências do barroco tardio em Emilia-Romagna, Marche e Umbria. Eles foram construídos no sistema de condomínio, modelo de propriedade coletiva e financiamento público-privado que ampliou o acesso público às artes cênicas. O país europeu lidera o ranking de patrimônios mundiais e acumula 62 títulos.
A arquitetura é um dos principais reconhecimentos na categoria cultural, que teve 19 representantes. Nesta edição, o modernismo ganhou destaque e foi reconhecido pelo seu valor em quatro países. Entre eles, está um complexo de dez edifícios, que inclui museus e hotéis, em Tashkent, capital do Uzbequistão, e o centro de Gdynia, cidade polonesa que apresenta quarteirões planejados do período entre guerras.
Completam a seleção obras do arquiteto finlandês Alvar Aalto compostas por 13 estruturas cívicas comunitárias e sociais espalhadas pela Finlândia, de 1928. O conjunto habitacional modernista de Zehlendorf, construído em estilo Bauhaus de 1926 a 1932 em Berlim, na Alemanha, foi adicionado à série já listada como patrimônio mundial em 2008, que reconhece essas construções.
Cinco patrimônios foram reconhecidos como naturais, a exemplo do Pântano de Okefenokee, entre a Geórgia e a Flórida, nos Estados Unidos, a maior turfeira de água doce de planície na zona subtropical do mundo, responsável por abrigar espécies vegetais ameaçadas de extinção.
Compõem a lista uma propriedade que contém alguns dos peixes fósseis mais preservados do mundo, na Dinamarca; o Parque Nacional Wadi Wurayah (Emirados Árabes Unidos), que abriga 1.099 espécies de fauna e flora; a Reserva marinha de Aqaba (Jordânia), conhecida como o sistema de recifes de coral tropicais mais ao norte do mundo; e a paisagem migratória de Boma-Badingilo, marcando o primeiro reconhecimento do Sudão do Sul.
Outras duas nações africanas receberam seus primeiros reconhecimentos na lista da Unesco: Comores, com suas medinas dos sultanatos históricos, e São Tomé e Príncipe, com suas roças, um sistema agrícola colonial.
Um único sítio foi reconhecido na categoria mista, que une bens culturais e naturais: a área mais ampla do Monte Olimpo, na Grécia. A proximidade da montanha com o mar e sua altitude abrupta produzem um microclima especial, com diversidade de terreno, clima e vegetação. É nessa paisagem onde se acreditava ficar a morada dos 12 deuses olímpicos.
O comitê também aprovou três patrimônios em caráter emergencial, por considerar que eles correm perigo. Um deles é a paisagem migratória de Boma-Badingilo, vasta extensão de savana no Sudão do Sul que abriga a maior concentração de mamíferos terrestres no mundo. Entre as ameaças citadas pela Unesco estão a caça e tráfico ilegal de animais e o desenvolvimento de infraestrutura no local.
Sebastia, na Palestina, que preserva o registro arqueológico de ocupações por diferentes civilizações, desde o século 9 a.C., sofre ameaças devido ao conflito armado no Oriente Médio e o plano de criar um parque nacional. Autoridades palestinas já tinham tentado incluir o local na lista de patrimônios em 2012, argumentando que ele precisava de proteção.
Por último, estão cinco castelos no Monte Amel, no sul do Líbano, que formavam uma rede integrada de defesa e administração desde a época das Cruzadas. Segundo a Unesco, o conflito na região põe em risco sua conservação. O Ministério da Cultura do país afirmou que bombardeios israelenses já haviam destruído um dos castelos. Além disso, outra fortaleza medieval, a de Beaufort, foi capturada pelas forças israelenses durante a guerra contra o Hezbollah.
Israel contesta e afirma que o Hezbollah transformou Beaufort em uma posição militar com túneis. O Ministério das Relações Exteriores israelense fazia uma campanha para que essas duas últimas aprovações fossem rejeitadas pela comissão.
Após avaliações, outros três locais reconhecidos anteriormente foram acrescentados à lista de patrimônios mundiais em perigo. São eles as cidades antigas de Táurica Quersoneso e sua Chora (Ucrânia) e de Tiro (Líbano) e o centro histórico de Paramaribo (Suriname). A Unesco citou como justificativa as guerras nas regiões e, no caso de Paramaribo, construções realizadas sem a avaliação do impacto sobre a área protegida.
Os seis locais na lista de patrimônios em perigo terão acesso a ajuda técnica e financeira para proteger os sítios históricos e se beneficiarão de um apoio mais robusto da comunidade internacional.
Já o país-anfitrião conseguiu a aprovação da expansão de seus getbols, planícies de maré que fazem parte da rota migratória de pássaros, alguns deles ameaçados de extinção. Inscritos em 2021, eles passam de quatro para oito unidades de conservação na Coreia do Sul.
Um novo documento formulado pelo governo sul-coreano e aprovado durante a comissão, chamado de Declaração de Busan, discute medidas para proteger patrimônios contra ameaças emergentes, como as mudanças climáticas e conflitos regionais.
O acordo elencou colaboração como um dos pilares estratégicos para a cooperação global e incentivou o uso transparente e responsável de inteligência artificial na preservação dos bens.
Veja a lista completa dos 25 novos patrimônios mundiais a seguir.
NOVOS PATRIMÔNIOS MUNDIAIS DA UNESCO
CULTURAIS
- Antigo sítio budista de Sarnath - Índia
- Arquitetura modernista de Tashkent: Modernidade e tradição na Ásia Central - Uzbequistão
- Capitais antigas de Asuka e Fujiwara - Japão
- Castelo de Alamūt e fortificações relacionadas - Irã
- Castelos do Monte Amel - Líbano
- Centro modernista da cidade de Gdynia - Polônia
- Complexos funerários da nobreza Xiongnu - Mongólia
- Fortalezas reais capetíneas de Languedoc - França
- Medinas dos sultanatos históricos de Comores - Comores
- Mesquitas rupestres e sítios sagrados associados de Mangystau - Cazaquistão
- Monastério Wat Phra Mahathat em Nakhon Si Thammarat - Tailândia
- Obras de Alvar Aalto - Finlândia
- Praias do desembarque do Dia D, na Normandia, em 1944 - França
- Roças de São Tomé e Príncipe: Sistema agrícola colonial e migração forçada - São Tomé e Príncipe
- Sebastia - Estado da Palestina
- Sistema de teatros de condomínio de estilo italiano dos séculos 18 e 19 na Itália Central - Itália
- Sítios da indústria de porcelana artesanal de Jingdezhen - China
- Teatros da Amazônia - Brasil
- Vila de Sidi Bou Saïd - Tunísia
NATURAIS
- Fósseis de peixes ósseos do Limfjord Ocidental – Evolução e adaptação climática no eoceno inicial - Dinamarca
- Paisagem migratória de Boma-Badingilo - Sudão do Sul
- Parque Nacional Wadi Wurayah - Emirados Árabes Unidos
- Refúgio nacional de vida selvagem de Okefenokee - Estados Unidos
- Reserva marinha de Aqaba - Jordânia
MISTO
- Área mais ampla do Monte Olimpo - Grécia
A jornalista viajou a convite do Ministério da Cultura, Esporte e Turismo da Coreia do Sul