Ligação da MNTC à Carris foi maior. Contratos entregues à empresa de manutenção atingiram mais de 2 milhões de euros

São afinal, pelo menos, 11 os contratos que a Carris assinou, desde 2019, com a MNTC, conhecida comercialmente por Main, e que era a empresa de manutenção do Elevador da Glória quando, a 3 de setembro de 2025, descarrilou, originando 16 vítimas mortais e 24 feridos. Esses 11 contratos resultaram num negócio total para a MNTC de mais de dois milhões de euros.

Alguns desses contratos só este ano foram tornados públicos, no portal Base, pela Carris que fez o levantamento de todos os contratos com a MNTC que, entretanto, deixou de ter relacionamento comercial com a empresa de transportes públicos detida pela Câmara Municipal de Lisboa, conforme noticiou o Observador.

Quando aconteceu o acidente do Elevador da Glória, a MNTC foi escrutinada e será agora arguida, de acordo com o Público, no processo de investigação do Ministério Público, que já fez saber que deverá ter conclusões apenas no primeiro trimestre do próximo ano, o mesmo prazo indicado agora pelo GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários) para concluir o que se passou a nível técnico.

Nesta investigação técnica, o GPIAAF indica que, além das peritagens dos sistemas técnicos, “a investigação tem procedido também ao aprofundamento da análise dos fatores imateriais pertinentes, como sejam os fatores humanos e organizacionais envolvidos no acidente, procedimentos e práticas de manutenção, bem como o enquadramento legal da operação, entre outros aspetos”. Os processos de manutenção do modo elétrico estão, aliás, a ser alvo de uma auditoria externa pedida pela Carris e que está a ser feita pela Exceltic, que foi iniciada em abril deste ano.

Manutenção da Carris passou por várias fases. Iniciou externalização em 2005, mas a dos ascensores só aconteceu em 2012

Se, na altura do acidente, havia apenas um contrato, referente a manutenção da Glória, no portal Base, logo a seguir ao acidente a Carris disponibilizou um outro. O primeiro era de outubro de 2024 e tinha um valor total de 995 mil euros, mas era referente a um contrato firmado em 2022; o segundo era de 221 mil euros e era de um contrato de agosto de 2025, um mês antes do acidente, mas só publicado após o desastre.

Só em outubro do ano passado a Carris publicou, no mesmo portal, um contrato firmado com a MNTC em julho de 2025, num total de 467 mil euros, para serviços de manutenção preventiva e corretiva de carros elétricos históricos e carros elétricos articulados Siemens. Contrato não relacionado com os elevadores históricos. Foi preciso esperar por este ano para que surgissem mais dois contratos no portal Base da Carris com a MNTC e tendo o Elevador da Glória no centro.

São duas contratações essenciais para investigar a manutenção ao longo dos anos do Elevador da Glória. Um diz respeito à reparação geral do Elevador da Glória, em 2022, e o o outro para a reparação intercalar do elevador em 2024, que deram à MNTC negócios de 69.115 euros e de 57.388 euros respetivamente. O Observador já tinha noticiado que a MNTC trabalhava com a Carris, pelo menos desde 2018, quando foi contratada para a reparação do elevador da Glória após um acidente de 2018, mantido em segredo. Esse contrato não foi colocado no portal Base.

Os registos públicos dos contratos públicos da MNTC com a Carris para o Elevador da Glória só começam em 2022, quando foi contratada, por concurso público, para a Manutenção dos Ascensores da Bica, Lavra e Glória e Elevador de Santa Justa, pelos tais 995 mil euros.

O primeiro contrato que surge no registo das compras públicas entre estas duas entidades é o referente a uma reparação de oito carros elétricos no Museu da Carris e que levou a um negócio de 19.544 euros. É de 2019.

Manutenção, reparação e substituição do cabo da Glória feitas pela mesma empresa, a MNTC, desde pelo menos 2022

Ou seja, no levantamento feito pelo Observador no portal Base, há 11 contratos entre MNTC e Carris, no valor total de mais de 2 milhões de euros (mais concretamente 2.132.441 euros), quase metade de todos os contratos públicos assinados pela MNTC disponibilizados no portal Base. Há 48 contratos da MNTC com organismos públicos — a começar em 2017 — num total de 4,8 milhões de euros. Quando se deu o acidente estavam registados no Base 42 contratos por 3,79 milhões de euros.