Crise do Master põe STF no centro da disputa eleitoral - 03/10/2026 - Política - Folha

A crise do Master que desgastou a imagem do STF (Supremo Tribunal Federal) ao longo de 2026 colocou a corte no centro das campanhas dos candidatos, e a divisão interna entre os ministros ganhou ares de polarização eleitoral.

Com a integridade moral de seus integrantes posta em dúvida, o tribunal pela primeira vez monitora o cenário da eleição sob o temor concreto de que pedidos de impeachment contra eles possam prosperar a partir do próximo ano.

Quatro magistrados ouvidos reservadamente pela Folha afirmam que, independentemente de quem for o vencedor da disputa presidencial —Lula (PT) ou Flávio Bolsonaro (PL)—, o Supremo vai continuar a ser um dos principais focos de tensão da política nacional.

A leitura é a de que o tribunal terá dificuldade de sair dos holofotes, especialmente se houver uma "bancada anti-STF" forte no Congresso Nacional, o que já será possível mapear a partir deste domingo (4).

O ano de 2027 é considerado crucial diante da possibilidade de as investigações do Master avançarem ainda mais sobre ministros da corte à medida que vão sendo descortinadas novas mensagens dos celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Ainda em fevereiro, quando o ministro André Mendonça assumiu a relatoria do inquérito, seus auxiliares já admitiam que o caso invadiria a campanha e que o ministro poderia proferir decisões capazes de embaralhar o xadrez político às vésperas da eleição.

Isso se comprovou ao longo das operações que miraram governistas e bolsonaristas, mas chegou ao ápice quando ele divulgou um relatório da PF (Polícia Federal) que aponta o ministro Alexandre de Moraes como interlocutor de Vorcaro, em 1º de setembro.

O grupo aliado a Moraes —formado por Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin— diz que Mendonça agiu com viés político ao expor as mensagens quase um mês antes do primeiro turno, e com procedimentos supostamente alheios aos trâmites legais.

O decano chamou o relator de "pixuleco eleitoral". A avaliação é a de que, ao jogar Moraes, um algoz do bolsonarismo, na fogueira, Mendonça agiu para beneficiar a candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou para a corte.

Do mesmo modo, a ala de Mendonça, composta principalmente por Kassio Nunes Marques e Luiz Fux, acusa o grupo oposto de tentar blindar Lula e prejudicar a campanha de Flávio.

Na sessão em que começou a ser discutida a abertura de investigação contra Moraes, em 15 de setembro, a ministra Cármen Lúcia chegou a lamentar que, a 20 dias das eleições, a sociedade estivesse voltada a questões processuais do Supremo, e não à análise das propostas de cada candidato.

Fora do tribunal, as críticas à atuação da corte entraram na pauta dos candidatos, em especial dos de direita, que passaram a anunciar em suas campanhas promessas de acabar com um suposto excesso de poder do STF.

Os ministros se viram na mira das disputas político-eleitorais, e o presidente do STF, Edson Fachin, veio a público dizer que ataques ao Poder Judiciário não poderiam ser utilizados como pauta política.

O ministro Dias Toffoli, cujo nome também consta no material derivado do celular de Vorcaro, chegou a falar que o voto obtido a partir de ataques ao STF é fraudulento e capaz de levar à inelegibilidade, mas essa discussão não avançou na Justiça Eleitoral.

Ao prospectar os possíveis resultados da disputa presidencial, ministros avaliam que a vitória do senador significaria o retorno a uma agenda de conflitos diários entre o Palácio do Planalto e o STF, como ocorria na gestão Bolsonaro.

Já no caso da reeleição de Lula, magistrados de diferentes alas da corte afirmam que a relação continuará sendo cordial, mas apontam que o tribunal estará sob pressão para arbitrar novas frentes de conflito entre o governo e o Congresso.

FolhaJus

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Na entrevista da última quinta (1º) ao podcast Flow, Lula defendeu mandatos para ministros do Supremo e novo modelo de indicação para tornar a corte menos política. "Mandato não pode ser eterno. Quero criar um conselho para escolher o ministro. Não pode ser o presidente da República", disse.

O resultado da eleição também será crucial para definir um novo perfil do Supremo, já que, ao longo do próximo mandato, três ministros se aposentam: Fux em 2028, Cármen em 2029 e Gilmar em 2030.

A quantidade de magistrados que o novo presidente indicará para a corte também passou a ser considerada um ativo eleitoral. Há outra vaga em aberto desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, há um ano, e a derrota histórica de Jorge Messias.

A eventual eleição de Flávio Bolsonaro pode significar uma virada conservadora na correlação de forças do Supremo, hoje formado por uma maioria de ministros indicada por governos do PT. Kassio e Mendonça são os únicos nomeados por Bolsonaro.

Outro ponto de atenção dos ministros é a eleição de deputados e senadores que podem encampar pautas como mandatos para membros do STF, limitação de decisões monocráticas e propostas que facilitem a tramitação de pedidos de impeachment de ministros da corte.

Um dos momentos decisivos é esperado para fevereiro, quando o Congresso iniciará os trabalhos sob nova composição e elegerá a mesa diretora do Senado, cujo presidente é o responsável por dar ou não andamento a esses processos.

De olho no futuro, aliados de Moraes temem que, a depender desse resultado parlamentar, o ministro nem chegue a assumir a presidência do Supremo em setembro de 2027.

Auxiliares de três ministros avaliam ainda que um novo governo Lula tenderia a buscar acomodação política para evitar atritos com os Estados Unidos e contornar possíveis sanções, enquanto de Flávio Bolsonaro é esperada uma postura de apoio às ações de Donald Trump.

A judicialização de discussões políticas é prevista pelo STF seja quem for o vencedor, mas a cúpula do tribunal entende que as políticas públicas previstas pelo filho do ex-presidente têm mais chance de contrariar a jurisprudência da corte, por exemplo, em matérias de meio ambiente.