No conjunto de um comparativo entre 2023 e 2025, os dados fornecidos sobre Canais de Distribuição e divulgados pela Associação portuguesa de Seguradores (APS), mostram que a transformação da distribuição portuguesa está a acontecer mais pela recomposição dos mediadores do que por uma substituição da mediação por canais digitais ou outros canais de venda direta, que não representa mais de 7% do total das vendas. Já a venda de seguros através da internet cresce, mas ainda representa apenas 1% da distribuição total, enquanto os balcões próprios das seguradoras e o telefone perdem algum peso.
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No entanto, o caso dos CTT merece especial atenção. Passou de 0,3% para 4,2% de quota de mercado de vendas de seguros no ramo Vida em apenas dois anos significando que a rede postal passou de uma presença residual para um canal com uma dimensão já comparável ou superior à de alguns canais tradicionais. Se esta trajetória continuar, os CTT poderão tornar-se uma das principais histórias de crescimento da distribuição de seguros em Portugal.
O que mudou nos CTT foi a aliança à Generali. A parceria foi lançada no final de 2023 e permitiu aos CTT comercializar produtos Vida e Não Vida da Generali Tranquilidade através da rede dos CTT e do Banco CTT. Em 2025, esta parceria entrou claramente numa fase de escala e no relatório de contas da Generali Tranquilidade de 2025 surge bem destacado o facto de terem existido “novos lançamentos de produtos de poupança e investimento para o BCTT (unit-linked e capital garantido)”.
O facto é que, em 2023, os CTT obtiveram 0,3% de um mercado de 11,8 milhões de euros significando cerca de 15 milhões de euros de vendas de seguros Vida. Dois anos depois a quota passou para 4,2% de um mercado total de 16,2 mil milhões, ou seja, 344 milhões de euros. Uma diferença de 329 milhões de euros vendidos pelos CTT, 21 vezes mais em dois anos.
Assim, a Generali Tranquilidade lançava-se decidida nesta possibilidade de contar com um canal popular como os CTT e um canal bancário como o BCTT para expandir. Em 2024, com os canais tradicionais e começando a operação no grupo CTT, vendeu 210 milhões de euros entre produtos unit linked e produtos poupança e de capital garantido. Em 2025 esse valor atingiu 483 milhões de euros, mais 273 milhões de euros.
O acréscimo de 273 milhões de vendas destes produtos pela seguradora e a subida de vendas de 329 milhões dos CTT torna evidente a influência do real aproveitamento da rede do grupo dos correios pela Generali e explicativo da sua entrada no capital do grupo CTT no final de 2023.
Bancos: continuam a dominar o Vida, mas perdem peso em Não Vida
Os bancos continuam a ser, de longe, o principal canal de distribuição de seguros Vida. Em 2025, representaram 72% da distribuição deste segmento, apenas 0,9 pontos percentuais abaixo dos 72,9% registados em 2023. A posição da banca permanece intocável quase três em cada quatro euros de seguros Vida são distribuídos através dos bancos.
No segmento Não Vida, a presença é bastante menor. A quota caiu de 15,8% em 2023 para 14,9% em 2025. No conjunto do mercado, porém, os bancos aumentaram o seu peso de 40,4% para 43,9%. Esta aparente contradição resulta da diferente composição do mercado e da forte exposição da banca ao Vida. A conclusão é clara: a banca continua a ser o canal estruturante do Vida português, embora sem conseguir aumentar a sua quota dentro desse segmento.
Agentes: alguma ameaça em quota no ramo Vida
Os agentes são o canal que mais peso tem na distribuição quando se olha para o mercado como um todo. A sua quota no mercado total regrediu de 36,2% em 2023 para 33,1% em 2025, uma descida de 3,1%.
Essa quebra deu-se no ramo Vida, os agentes passaram de 19,2% para 16,9%. No Não Vida, a evolução foi inversa, embora marginal: de 49,3% para 49,8%. Os agentes significam quase metade da faturação do ramo Não Vida em Portugal
Os números mostram, assim, que a mediação tradicional não está a desaparecer. Apesar do crescimento da distribuição digital e da emergência de novos operadores, os agentes continuam a concentrar uma parcela extraordinariamente elevada da produção, sobretudo nos ramos Não Vida.
Corretores: mais importantes no Não Vida, mas perdem peso no total
Os corretores apresentam uma evolução diferente. Em Não Vida, onde têm tradicionalmente uma posição mais forte, aumentaram a sua quota de 25,5% em 2023 para 26,1% em 2025, um ganho de 0,6 pontos percentuais.
No Vida, pelo contrário, passaram de 3,7% para 3,6%, mantendo uma presença muito reduzida face à banca e aos agentes. No conjunto do mercado, a quota dos corretores caiu de 16,1% para 14,7%.
A leitura é que os corretores continuam especialmente importantes no Não Vida e nos riscos mais complexos, mas não acompanham o crescimento dos agentes quando se considera a totalidade do mercado.
Internet: cresce, mas ainda está longe de alterar o mercado
A Internet está a ganhar espaço, mas continua a representar uma parcela pequena da distribuição. No ramo Vida, passou de 0,2%, em 2023, para 0,7%, em 2025. Nos ramos Não Vida, cresceu de 0,8% para 1,2%.
No total do mercado, a quota duplicou, de 0,5% para 1,0%. É uma evolução significativa em termos relativos, mas ainda pequena em termos absolutos.
A conclusão é importante: a digitalização da distribuição ainda não significa que o cliente esteja a abandonar os canais tradicionais. Até 2025, a Internet continuava a representar apenas 1% da distribuição total, enquanto o conjunto dos mediadores (bancos, agentes, corretores, CTT) concentravam 93,8%.
Telefone: canal estabilizado e em ligeiro recuo
O telefone apresenta uma evolução praticamente estável, mas com uma ligeira perda de importância. No Vida, manteve-se em 0,1% entre 2023 e 2025. No Não Vida, recuou de 1,8% para 1,7%.
No total do mercado, a quota caiu de 1,1% para 0,9%. Trata-se, portanto, de um canal que não acompanha o crescimento da Internet e que parece ter entrado numa fase de maturidade ou estabilização.
Balcões das seguradoras: perda consistente de importância
Os balcões próprios das seguradoras são um dos canais que mais claramente perderam peso. No Vida, a quota caiu de 3,5%, em 2023, para 2,4% em 2025, uma redução de 1,1 pontos percentuais.
Em Não Vida, o recuo foi de 5,0% para 4,3%, enquanto no total do mercado passou de 4,3% para 3,3%.
É uma tendência que contrasta com o crescimento da Internet: os canais físicos próprios das seguradoras perdem importância enquanto os canais digitais ganham algum terreno. Contudo, a transferência ainda é limitada e não representa uma alteração estrutural da distribuição.