Da "Odisseia" aos Iron Maiden: o rasto dos eclipses na cultura e na arte

Kubrick, Os Simpsons, Tintim, Shakespeare, Bonnie Tyler... os eclipses estão em obras de arte de todos os tipos

O espanto perante os eclipses manifestou-se nos quadros de Ribera, nos frescos da Biblioteca do Mosteiro do Escorial, na música dos Iron Maiden ou nos filmes de Stanley Kubrick, que representaram simbolicamente estes fenómenos aos quais a Bíblia e a Odisseia atribuíram um significado profético.

O episódio mais repetido na criação artística é, sem dúvida, o escurecimento do céu no dia da crucificação de Jesus, que inspirou quadros como o barroco "Cristo crucificado", de Ribera, a decoração da abóbada da Biblioteca do Mosteiro de San Lorenzo del Escorial, do maneirista Pellegrino Tibaldi, ou a "Crucificação com eclipse solar", do expressionista Egon Schiele.

Na realidade, o facto de a morte de Jesus ter ocorrido durante a Páscoa, que, segundo a tradição judaica, coincide com a lua cheia, torna astronomicamente impossível um eclipse solar como o descrito pelos evangelistas, tal como recorda o livro do Centro Superior de Investigações Científicas (CSIC) "Eclipses: o sol e os seus eclipses na ciência, na história e nas artes", coordenado por Rafael Bachiller.

Mas, além dos milagres, o poder evocativo deste fenómeno tem-se transformado em puro fascínio em obras plásticas como os quadros de Howard Russell Butler, que, na década de 1920, representou de forma tão precisa os eclipses totais, com a sua coroa solar, que serviram de fonte de estudo para os cientistas.

Mais recentemente, a artista escocesa Katie Paterson criou uma instalação com quase dez mil imagens de eclipses, captadas desde 1778 até aos dias de hoje, dispostas numa esfera de espelhos que reflete as suas imagens nas paredes da Arts Council Collection, em Londres.

Eclipses na música: Borodin, Charles Mingus ou Bonnie Tyler

A relação da música com os eclipses passa pelas composições rituais em culturas ancestrais para responder aos sinais dos deuses na China antiga ou entre os maias e os astecas, mas também tem sido associada musicalmente a ideias de escuridão, transformação ou mesmo ao amor acima do racismo.

Assim, a composição de jazz "Eclipse", de Charles Mingus, evoca uma relação entre pessoas de diferentes origens raciais em plena era da segregação nos EUA; "Total eclipse", do grupo de hard rock Iron Maiden, alerta para uma natureza que se voltará contra a humanidade que a destrói, e "Total eclipse of the heart", de Bonnie Tyler, que morreu recentemente, fala de uma separação dolorosa.

O clímax de um eclipse e aquele alcançado através do rock progressivo, também muito influenciado pela astronomia, inspirou igualmente composições do Alan Parsons Project e dos Pink Floyd.

Na música clássica, Händel introduz uma ária no oratório "Sansão" para simbolizar a cegueira provocada por Dalila, enquanto na ópera "O Príncipe Ígor", de Borodin, este fenómeno representa um mau presságio.

Da "Odisseia" a "Tintim", passando por Shakespeare

Um caráter de presságio funesto que também se repetiu na literatura, a começar pela "Odisseia". Embora não apareça no filme de Christopher Nolan, Homero escreveu como o profeta Teoclímeno adverte os pretendentes da sua futura morte no meio do escurecimento do dia. De acordo com estudos recentes, isso poderá referir-se a um eclipse total de sol que ocorreu na Grécia a 16 de abril do ano 1178 a.C.

A história de banda desenhada "O Templo do Sol", na qual Tintim escapa de ser sacrificado pelos incas ao prever um eclipse, também se relaciona com um facto real.

Este episódio lembra o estratagema com que Cristóvão Colombo conseguiu que os indígenas da Jamaica o ajudassem com provisões, depois de os ter intimidado com um eclipse lunar, que ele sabia que iria ocorrer a 29 de fevereiro de 1504. Augusto Monterroso deu uma nova interpretação a esta história em "O Eclipse".

Outro relato famoso é da autoria de Isaac Asimov. O autor de ficção científica conta em "Anoitecer" como, no planeta Lagash, um eclipse que ocorre a cada 2 059 anos mergulha o planeta numa noite total que provoca a loucura coletiva.

No romance "Eclipse total", Stephen King descreve os horrores de uma cidade do Maine através de um homicídio num desses estranhos dias de trevas.

Shakespeare testemunhou, ao longo da sua vida, vários eclipses em Inglaterra que inspiraram fragmentos da sua obra, como a cena de "Rei Lear" em que estes fenómenos são responsabilizados pelos males do reino.

Kubrick, A Mulher Falcão, Crepúsculo e Os Simpsons

Também o cinema e a televisão têm aproveitado o grande impacto visual destes fenómenos. E se há uma imagem mítica que mostra o alinhamento da Terra, do Sol e da Lua, é a abertura de "2001: Odisseia no Espaço" (1968), de Stanley Kubrick. "Assim Falou Zaratustra", de Richard Strauss, soa de fundo numa cena que culmina com o aparecimento do monólito.

Um eclipse profético no filme de Mel Gibson "Apocalypto" (2006) interrompe um sacrifício humano. Entretanto, em "A Mulher Falcão" (1985), Michelle Pfeiffer e Rutger Hauer — ela condenada a ser um falcão durante o dia e ele um lobo à noite — só poderão reencontrar-se quando a Lua encobrir o Sol.

Uma fantasia romântica que recria também a saga dos vampiros adolescentes é "Crepúsculo", que intitula "Eclipse" um dos seus filmes em 2011.

E, claro, a série de televisão "Os Simpsons" recria num episódio as manobras de Homer para esconder de Marge que a pequena Maggie desapareceu, aproveitando o facto de a sua mulher ter ficado temporariamente cega por olhar diretamente para um eclipse sem proteção, uma ação nada recomendável.