Deixaria um pedófilo dormir no quarto com os seus filhos? Respondeu "não"? Então leia este artigo

Há tempos estava na esplanada de um restaurante a almoçar quando vi chegar uma família. Duas crianças, o pai e a avó. Reconheci imediatamente aquelas duas crianças. Sei o nome, quantos anos têm, em que colégio andam, sei que um dos hobbies da menina é patinagem, sei que o menino teve dificuldade nas aulas de natação, sei como é o quarto onde dormem, sei a cor dos lençóis da cama, sei que os dois irmãos tomam banho juntos numa banheira branca de plástico no chão de uma base de duche, sei onde passam férias todos os anos e sei que numas dessas férias ele partiu um dente… Eu, uma perfeita desconhecida para eles, sei tanta coisa sobre as suas vidas, logo desde que nasceram. Vi, aliás, fotografias desses instantes iniciais de vida.

Sei que são filhos de uma criadora de conteúdos digitais, uma influencer, com milhares de seguidores. Naquele momento na esplanada do restaurante ela não estava presente. Não reconheci as crianças por estarem com ela. Reconheci-as mesmo na ausência da mãe.

Aquelas duas crianças têm já uma identidade digital que lhes permite ser facilmente identificadas num simples passeio na rua. Saíram do anonimato sem pedir, porque alguém tomou essa decisão por elas. Alguém que deveria protegê-las, preservando a sua privacidade e evitando que sejam colocadas em risco.

Vi muita gente indignada esta semana com o que aconteceu numa praia de Aljezur. Um casal de espanhóis estaria a fotografar crianças na praia. No telemóvel teriam dezenas de fotos e a GNR foi chamada por suspeitas de pedofilia. Mas muitas das pessoas que hoje se indignam, cedem fotografias dos seus próprios filhos a milhares de desconhecidos. Assim que colocamos uma imagem na internet perdemos o domínio sobre ela, sobre quem a vê, sobre quem a republica, sobre quem a manipula. Não faltam alertas (da UNICEF, da PJ…) sobre como se multiplicam os casos de uso de ferramentas de inteligência artificial para criar conteúdos de pornografia e abuso infantil a partir de fotografias partilhadas pelos pais nas redes sociais. Nem é preciso a criança estar despida na praia, a IA trata de a despir, de lhe dar um caráter sexualizado e de a fazer chegar ao computador de um agressor sexual.

Daí a pergunta do título deste artigo: “Deixaria um pedófilo dormir no quarto com os seus filhos?”. A resposta é obviamente um “não”. Mas quando se partilha nas redes tanta intimidade das crianças, convida-se esses agressores sexuais a entrar, a deitarem-se ao lado delas, naquele quarto com um beliche branco e lençóis marrom; deixa-se que mexam na água da banheira branca de plástico onde elas tomam banho; ou permite-se que as ajudem a vestir (ou a despir) o fato de banho às bolinhas, sem que tenham sequer de ir a uma praia em Aljezur.

Mas além de ser uma ameaça para a privacidade e para a segurança, o ‘sharenting’ - termo em inglês que resulta da junção de share (partilha) e parenting (parentalidade) e que significa partilha excessiva de conteúdo sobre os filhos nas redes sociais - é uma desonestidade dos pais para com os filhos. Vejo partilhas de momentos tão especiais, tão delicados, tão pessoais… que só deveriam acontecer ali, entre as pessoas que efetivamente os vivem. Os filhos acreditam que, naquele instante, estão ali só eles e os pais, mas na verdade estão também milhões de pessoas que visualizaram aquele vídeo ou aquela fotografia.

O tema merece reflexão e consciencialização, porque há uma derradeira pergunta que todos os pais devem fazer:

Quando estas crianças crescerem, quando tiverem os seus próprios telemóveis, redes e as suas próprias relações sociais, como podem perceber os limites do que se deve partilhar -  na net e fora dela - se toda a vida delas já foi partilhada até então?

Pensemos todos primeiro antes de publicar. Na dúvida, postem a foto de um gatinho.