Descolonizar o Aeroporto

Há dez anos, sem a maçada de um debate público ou a auscultação da cidade, um governo derrotado em eleições e arranjado em putsch parlamentar rebaptizou o mais importante aeroporto do país. Projectada e inaugurada sob Salazar, a Portela virou então altar da religião oficial do regime: o anti-fascismo de opereta. Fina ironia: para mártir anti-fascista e novo patrono do aeroporto, António Costa convocou Humberto Delgado, admirador ardente, em tempos, de Hitler e Mussolini.

Esta tolice enche as medidas do regime, mas é indigna da cidade — e do país. Quando os povos se levam a sério, o habitual é que as principais infraestruturas honrem individualidades de impacto e reconhecimento globais — não pequeninas notas de rodapé ou actores secundários, oriundos de bulhas políticas intestinas e sem impacto além-fronteiras. Assim, Paris tem Charles de Gaulle, herói da Resistência e figura centralíssima da vida mundial ao longo de décadas; Déli tem Indira Gandhi. O Rio tem Santos Dumont, pioneiro da aviação. Budapeste tem Liszt. Ora, não há pessoa minimamente lida que ignore quem foi Indira, de Gaulle, Dumont ou Liszt. É diferente com Humberto: passe-se Vilar Formoso e ninguém, nem o mais lusófilo dos lusófilos, saberá dizer-nos se a personagem eminente foi líder político, chef de cozinha ou decorador de interiores.

É certo, reconhecimento não é mérito: a história da espécie humana está repleta de figuras excepcionais a quem é negada a justa valorização. Não é o caso de Humberto Delgado. General sem conquistas nem actos de heroísmo em campo de batalha, Delgado nunca tinha sido, até às presidenciais de 1958, mais que um pequeno apparatchik do salazarismo. Estivera, ainda demasiado jovem para imprimir a sua marca, no 28 de Maio; dedicou as décadas que se seguiram ao alpinismo e a uma auto-promoção incansável. O seu caminho foi-se fazendo no milieu fascizante que, contra a vontade de Salazar, sonhava com um regime mais à italiana, ou até à alemã; com mais de totalitário e menos de autoritário, com mais militarismo e menos catolicismo social, mais revolucionário e menos conservador.

Homem de ambição vulcânica e apurado faro político, Delgado teve sempre a arte de ser as coisas certas no momento certo. Com a Europa rendida à moda do passo de ganso e das camisas negras, castanhas e azuis, Delgado foi Adjunto do Comando Geral da Legião Portuguesa e Comissário Nacional Adjunto da Mocidade. O texto célebre em que se referiu a Adolfo Hitler como “revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar, quando à vontade de um ideal se junta a audácia, a valentia, a virilidade numa palavra” foi publicado em Junho de 1941, em pleno auge do poder alemão. No ano seguinte, falhada a Blitzkrieg a leste e com o vento a virar-se contra o nazismo, Delgado reinventar-se-á como simpatizante da causa aliada.

A carreira de Humberto Delgado foi uma sequência dessas epifanias de hora H. Passado o “Obviamente, demito-o”, as eleições e a fuga para o estrangeiro, as ideias do General continuaram a obedecer a um admirável sentido de oportunidade. Delgado, que fora um inflamado crente no “colonialismo” e na mission civilisatrice, não hesitou em mudar-se para a Argel da FLN, então Meca do anti-colonialismo e do terceiro-mundismo. Não parece ter pesado na consciência do General o conluio com os autores dos massacres de Pieds Noirs e de Harkis que então — antes e durante a sua estadia — vitimaram entre 150,000 e 200,000 pessoas.

Estranhamente, também não preocupou ao democrata e anti-comunista comprometido — veterano, aliás, do campo nacionalista na Guerra de Espanha — a aliança com a URSS  e as tiranias que a orbitavam: em 1963, para o segundo congresso da sua “Frente Patriótica de Libertação Nacional” — uma açorda de oposições que o incluía a ele, aos socialistas de Mário Soares e ao PC de Cunhal — Delgado recorreu à boa vontade da liderança checoslovaca. Escolha surpreendente para um ajuntamento de tão beneméritas convicções democráticas. Com a respectiva “Primavera” ainda a cinco anos de acontecer, a Praga que abraçou Delgado não era propriamente um doce jardim liberal. O regime prendeu 200,000 dos seus próprios cidadãos por motivos políticos. Matou coisa de 4,500. O ditador Novotný, um dos últimos estalinistas, estava nos antípodas da democracia e das liberdades.

Humberto Delgado é um falso herói. As circunstâncias da sua morte não chegam, por si mesmas, para tapar a realidade de um carácter torto, oportunista e desprovido de princípios. Delgado era um homem capaz de apertar todas as mãos e de dizer todas as coisas em nome de um projecto de poder e vaidade pessoais. Definitivamente, o seu nome não serve para o aeroporto da capital portuguesa. Pelo contrário, a escolha de Delgado para padrinho do aeroporto de Lisboa nasceu de um abuso: da democracia, porque se fez sem ela e, logo, contra ela; e da história, porque acabou a ser a pedra angular de uma impostura. Foi decidida em manifestação de prepotência — e como parte de um projecto de colonização ideológica do espaço público.

A recomendação apresentada ontem pelo CHEGA na Assembleia Municipal de Lisboa não foi um acto de revanche. Limitou-se a afirmar quatro ideias-base. Primeira: que Humberto Delgado não possui estatura histórica, humana nem política para ser uma face do país. Segunda: que não faltam a Portugal homens e mulheres incomparavelmente mais dignos dessa celebração que Delgado. Terceira: que os espaços públicos mais significativos não devem ser arenas de bazófia sectária nem de cristalização de narrativas ideológicas pueris, mas dar voz a consensos naturais sobre o que somos enquanto nação. Quarto: que, em democracia, a vox populi costuma ser boa conselheira, que há decisões que os lisboetas devem tomar directamente e que a melhor forma de garanti-lo é pedindo-lhes opinião. Um plebiscito sobre o assunto seria a melhor forma de encerrá-lo.

Porque o país ainda não cresceu, a recomendação do CHEGA foi chumbada. Tenhamos paciência: mais cedo ou mais tarde, a semente do bom-senso acabará por germinar. E, com sorte, talvez consigamos descolonizar o aeroporto.