Desdém à mesa

Para a maioria dos que comem, comer é uma actividade útil a que assiste mais proveito quanto maior for o prazer que se sinta. É o prazer que normalmente desperta em nós pensamentos de utilidade, embora também haja quem finja o que deveras sente, e ache que a utilidade é a origem do prazer.  Existe além disso uma minoria grande que pensa que comer é um dever para com o nosso corpo, e para com a humanidade.   Para esta minoria, se não comêssemos, ou se comêssemos certas coisas, não conseguiríamos realizar quaisquer boas acções.

Estas duas posições são as teorias mais representativas sobre alimentação.  Resta um resíduo de excêntricos: os que pensam que jejuar durante seis meses faz os outros reparar numa coisa que se passa a milhares de quilómetros de distância, e os que comem grandes quantidades de croquetes em público na esperança de poder ver o seu nome impresso em molho inglês.  Seja como for, os pensamentos sobre comida não permitem conclusões seguras acerca das virtudes de quem os tem.  Ninguém, mesmo que resista à comida, resiste a ter pensamentos próprios sobre comida.

Podemos no entanto chegar a noções sobre virtudes sem ter de examinar os pensamentos dos seus portadores putativos, e as suas declarações sobre utilidade, prazer, dever, proveito e fama; nem aliás as suas maneiras à mesa, que variam com as culturas e irritam sempre as outras culturas.   Basta para o caso considerar o momento em que quem come acaba de comer aquilo que tem pela frente.  O momento em que se acaba de comer diz mais sobre quem comeu do que as ideias gerais que professará entre garfadas.

Há dois modos drásticos de acabar de comer.   O mais comum parece ser o das pessoas que por sistema nunca acabam a sopa, o resto ou a fruta.   Pode haver razões para isso, e no resto; no entanto, porque deixam a comida no prato, concluímos que a comida está para eles associada a surpresas desagradáveis, ou à debilidade dos seus cálculos de vontade.  Mas há um segundo modo, também drástico, que consiste em comer absolutamente tudo o que está no prato.  Nesse caso é a meticulosidade que dá um brilho sinistro aos pratos vazios, e que nos faz suspeitar da unção dos meticulosos.

É entre estes dois modos que se situa o desdém à mesa.  O desdém à mesa não exclui o interesse por aquilo que se come; e por isso para o desdenhoso a refeição não fica a meio.  Manifesta-se porém pela recusa em dar a esse interesse meticulosidade e unção; e assim o desdenhoso, comendo tudo, deixa sempre uns bocadinhos no prato.  O desdenhoso cultiva uma forma de desatenção; a sua atitude sugere que comer não é um assunto para teorias, e não tem de ser uma coisa que se faz por ter certos princípios, excepto talvez o da desatenção cultivada.