Ele transformou uma condição de saúde em um negócio de R$ 100 mil | G1

Hoje, lidera uma startup que desenvolveu um aplicativo capaz de descrever ambientes, identificar objetos e auxiliar na navegação de pessoas cegas e com baixa visão. A empresa já alcançou faturamento mensal de R$ 100 mil.

"Eu enxergo preto e branco, mas não enxergo nítido", conta o empreendedor. Com a tecnologia criada pela própria empresa, ele diz que conseguiu uma experiência inédita. "Hoje, com o nosso aplicativo, eu consigo fazer essa autodescrição, enxergar todas as cores. Então hoje eu enxergo o mundo bastante colorido."

A ideia começou ainda na faculdade, em Maceió, onde Arthur cursava Análise de Sistemas aplicada à área da saúde. Segundo ele, a motivação inicial era justamente encontrar soluções que pudessem ajudá-lo no dia a dia.

Foi nesse período que conheceu Júnior, colega de turma que também tinha deficiência visual. Juntos, os dois começaram a desenvolver um dispositivo baseado em ecolocalização, tecnologia inspirada no funcionamento de morcegos e golfinhos. O sistema emitia sons capazes de identificar obstáculos e ajudar na locomoção dos usuários.

O primeiro protótipo era um crachá equipado com sensores e motores de vibração. Quando um objeto era detectado, o equipamento enviava sinais táteis ao usuário, indicando a direção e a distância do obstáculo.

Apesar dos avanços técnicos, transformar a invenção em negócio não fazia parte dos planos iniciais. Isso mudou durante a festa de aniversário de uma criança cega de três anos. Ao conhecer o projeto, o menino fez um pedido que marcou os fundadores.

"Ele disse: eu queria enxergar como vocês enxergavam", relembra Arthur. "A gente estava pensando em um monte de coisa pra fazer, menos no que a gente sabia fazer."

Startup desenvolveu um aplicativo capaz de descrever ambientes, identificar objetos e auxiliar na navegação de pessoas cegas e com baixa visão. — Foto: Globo

A partir dali, os amigos decidiram investir na tecnologia assistiva. O impulso para transformar o projeto em empresa veio em 2022, quando a startup foi selecionada pelo programa Startup Nordeste, do Sebrae. Além de mentorias, a empresa recebeu R$ 78 mil para acelerar o desenvolvimento do negócio.

"Se não fosse o Sebrae, a gente não estaria aqui, porque a gente não teria começado. A gente não teria dinheiro para começar e não saberia o que fazer com esse dinheiro", afirma o empreendedor.

Mas a trajetória da startup enfrentou momentos difíceis. Em outubro de 2023, pouco antes do início das vendas, Júnior faleceu em decorrência de um problema de saúde. Dois meses depois, Arthur recebeu o diagnóstico de câncer na garganta. Sem os fundadores à frente da operação, a empresa praticamente interrompeu as atividades.

A retomada aconteceu graças aos próprios usuários. Uma mãe procurou Arthur para pedir que o dispositivo voltasse a funcionar para o filho, que dependia da tecnologia. O encontro convenceu o empreendedor a não abandonar o projeto. Pouco tempo depois, a startup venceu uma competição de inovação e retomou o crescimento.

Hoje, a solução funciona diretamente no celular. Com recursos de inteligência artificial, ecolocalização e navegação por áudio 3D, o aplicativo é capaz de descrever cenários, identificar pessoas e auxiliar usuários em deslocamentos.

Entre os clientes está Jouciclecia Almeida, que usa a ferramenta para tarefas simples do cotidiano.

"Eu consigo tranquilamente só apontar a câmera do meu celular e ela vai me dizer, mesmo com potes idênticos, que ali é o açúcar, que o outro é o café", relata.

Ela afirma que o maior benefício foi recuperar a independência.

"Um dos principais pilares que ele transformou na minha vida é justamente a autonomia", diz. "Eu não consigo me ver hoje sem ela."

Segundo Arthur, esse também é o principal objetivo da empresa.

"Autonomia. Pra mim sempre vai ser essa palavra. Ela define tudo o que eu faço", afirma. "É a minha felicidade ver aquela pessoa fazendo as coisas sozinhas, de maneira autônoma."

Atualmente, o aplicativo possui mais de mil assinantes e cerca de 100 mil cadastros relacionados a empresas e eventos. Para o empreendedor, o foco agora é ampliar o alcance da tecnologia e impactar ainda mais pessoas.

"Eu não sei o que vou conseguir fazer, mas eu sei que vai ser um negócio muito melhor do que eu estou fazendo hoje."