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Dois minutos do baixo da Praça dos Restauradores até ao alto da Rua de São Pedro de Alcântara. Assim se subia no funicular da Calçada da Glória até ao final da tarde de 3 de setembro de 2025. Há um ano, uma das cabines do Elevador da Glória desceu descontroladamente, bateu contra um edifício e 16 pessoas perderam a vida em poucos momentos. Houve ainda 20 feridos. Exigiram-se respostas rápidas. Tal não é possível, no entanto. No sistema ferroviário, há muitos elementos em jogo, como o estado dos carris, da catenária e do veículo.
A investigação é complexa e implica a recolha e análise de muita informação. É como agora ter de andar de mini-autocarro para subir dos Restauradores até ao Miradouro de São Pedro de Alcântara por ruas estreitas. Demora muito mais tempo do que se pensaria inicialmente.
Para que a vida do Elevador da Glória possa avançar será necessário esperar mais tempo, pelo menos até ao final de março de 2027. É nesta altura que será divulgado o relatório final do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF). Não apontando culpados pelo desastre – isso estará a cargo da Justiça – o documento vai orientar o futuro dos funiculares na capital.
Investigação demorada e a custos controlados
Esperava-se por esta altura o relatório final da investigação ao acidente. Mas o processo está bastante demorado por causa da raridade do Elevador da Glória, reconheceu o GPIAAF a 21 de agosto. O gabinete tem feito um “estudo aprofundado” das características do ascensor devido à “escassa documentação técnica disponível”. Foi mesmo necessário desmontar o veículo por completo para conhecer as suas características, procedimento designado por “engenharia reversa”.
Outra particularidade é o Elevador da Glória ser igual ao Elevador do Lavra. Por causa disso, os dois veículos do Lavra têm servido como “modelos funcionais e laboratório” para estudo dos sistemas e comparação com as cabines acidentadas na Calçada da Glória, segundo a nota informativa divulgada em 21 de agosto.
A “otimização de recursos e eficiência na despesa pública” também tem marcado a investigação. O GPIAAF e o Ministério Público têm realizado todas as peritagens em conjunto por “alguns dos testes a realizar serem destrutivos e irrepetíveis”. Ainda assim, o gabinete garante a independência entre as duas investigações.
Os ensaios e peritagens irão decorrer até ao final de novembro e depois será momento de análise dos resultados, para que sejam integrados no esboço do relatório final da investigação, que apenas será divulgado depois da conclusão das audições prévias.
Suspensão duradoura
Logo no dia após o acidente, a Câmara Municipal de Lisboa, dona da Carris, suspendeu a circulação dos restantes elevadores históricos. Lavra, Bica e Santa Justa estão sem serviço desde essa altura e ainda não têm previsão para o regresso. Apesar da forte componente turística, estes equipamentos também facilitam a deslocação em terrenos inclinados a pessoas com menos mobilidade.
O caso é mais sério nos ascensores do Lavra e da Bica, por causa da antiguidade do sistema e da dificuldade em perceber se será possível modernizar os veículos tal como estão ou se será necessário mudar todo o sistema. Até haver novidades, os dois ascensores também são substituídos por mini-autocarros.
No Elevador de Santa Justa, a situação é diferente. O equipamento foi totalmente remodelado em 2024. Foram instalados novos motores, um novo sistema de comando, um novo sistema de paraquedas e uma unidade que garante o funcionamento do elevador por pelo menos 30 minutos caso haja uma falha de energia. Mesmo garantidas todas as condições de segurança, o elevador só poderá voltar a receber pessoas depois da validação das autoridades.
O Funicular da Graça também esteve encerrado temporariamente depois do acidente na Glória. Mesmo sendo uma instalação inaugurada em 2024, ficou sem funcionar até ao final de abril. O funicular está equipado com o freio de emergência e de carril, que ajudam o freio elétrico (para desaceleração controlada e suave do veículo na aproximação e chegada às estações) e o freio de serviço (usado quando o veículo está parado).
Certo é que quando os elevadores históricos reabrirem passarão a ter supervisão do Instituto da Mobilidade e dos Transportes. Depois de uma decisão de agosto do Conselho de Ministros, o IMT vai preencher o vazio de avaliação de segurança que existia para os sistemas de transporte por cabo construídos antes de 1 de janeiro de 1986, conforme notou o 24notícias em setembro de 2025.
Três arguidos
Antes da divulgação do relatório final do GPIAAF, será conhecido o despacho de acusação do Ministério Público. Por agora, há três arguidos: a empresa que era responsável pela manutenção do Elevador da Glória (MNTC), o sócio-gerante da MNTC, Gustavo Pita Soares, e o antigo diretor de Manutenção do Modo Elétrico da Carris, Filipe Fraga, indicou na semana passada o jornal Público.
Há suspeitas de violação das regras de segurança, agravadas pelas 16 mortes no acidente com o elevador. Os crimes em causa podem ser punidos com penas de três a 10 anos de prisão. A investigação estará focada, entre outros aspetos, na manutenção do elevador e na fiscalização realizada pela Carris.
O inquérito terá ainda identificado outros indícios de falhas de segurança na manutenção, incluindo a possibilidade de os travões terem sido deliberadamente desafinados para evitar bloqueios durante a circulação das cabines, segundo o mesmo jornal.
Muito se falou no rompimento do cabo como a principal causa para o acidente na Glória, ainda para mais porque não era o mais adequado para o transporte de pessoas. Mas o relatório preliminar do GPIAAF também detetou falhas como a ausência de informação sobre o peso dos veículos, a falta de um sistema redundante para frenagens de emergência e a inexistência de documentos e de instruções técnicas sobre a manutenção dos equipamentos.
Mesmo assim, não foi instituído qualquer processo disciplinar na Carris na sequência do acidente, conforme adiantou na terça-feira o jornal Público.
Novo sistema (com muitas dúvidas)
No início da semana, a Carris anunciou que no primeiro trimestre de 2027 vai abrir um concurso público internacional para ser desenvolvida uma solução totalmente nova na Calçada da Glória. A empresa pretende inaugurar o novo serviço em 2029 mas o calendário poderá sofrer alterações decorrentes dos concursos públicos em Portugal.
Na falta de indicações sobre a solução técnica a adotar e do investimento necessário, apenas se sabe que a Carris esteve na região de Barcelona no início de junho. A região catalã conta com vários sistemas de transportes por cabo, como o funicular de Sant Joan e o comboio por cremalheira de Montserrat.
Resta saber se algum destes serviços irá inspirar o futuro dos transportes por cabo na cidade de Lisboa.
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