Nos últimos dias (e horas), milhares de pessoas vindas de Marrocos estão a entrar em Ceuta - com a cidade espanhola a declarar-se em "absoluta emergência humanitária e social". Vêm sem controlo das autoridades, com a Guardia Civil a só conseguir tomar conta dos feridos: chegam "molhados e vitoriosos, como se celebrassem o Mundial", descreve o El País. O governo de Espanha vai reforçar os meios.
Algumas destas pessoas atiraram-se ao mar em Marrocos, tendo nadado até águas espanholas, segundo os dados das autoridades de Ceuta. A agência EFE também relata que milhares de pessoas entraram hoje a pé em Ceuta saltando a vedação que separa o território espanhol de Marrocos.
Os agentes da Guarda Civil de Espanha "limitam-se a observar e deixar passar a multidão que cruza a fronteira, surpreendidos pelo grande número de pessoas que a atravessam", acrescenta o El País.
A passagem está a ocorrer junto ao designado "espigão", um muro largo de pedra que entra nas águas que separam Ceuta de Marrocos e que tem também uma vedação.
A maior parte das pessoas que chegam a Ceuta são jovens com menos de 30 anos, incluindo centenas de menores de idade.
IN CRE I BLE #Ceuta cientos de marroquíes a la carrera tras llegar a nado al espigón del Tarajal#FronteraSur #Haraga #Inmigracion pic.twitter.com/qVA6MwDuxU
— KARIM PRIM (@KARIMPRIM) July 30, 2026
Una oleada de personas, miles de ellas, ha cruzado sin control de Marruecos a Ceuta. La Guardia Civil y los medios de emergencia, superados, solo se ocupan de los heridos. Los agentes han tenido que abrir las verjas, porque querían evitar que se forme un tapón… pic.twitter.com/pYFnAmbgLw
— EL PAÍS (@el_pais) July 30, 2026
O presidente da Cidade Autónoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, pediu já ao governo de Espanha para ser declarada no território a situação de "emergência nacional", com envio de meios do Estado central para gerir a "crise migratória".
"Estamos numa situação de absoluta emergência humanitária e social que exige uma atuação consequente através de um comando único que garanta uma resposta enérgica, decidida e imediata", disse Juan Jesús Vivas, em declarações a vários meios de comunicação social espanhóis.
O presidente do governo da cidade sublinhou ainda que, perante a dimensão do problema, Ceuta não tem meios suficientes para responder - e lembrou que este território e o de Melilla, outro enclave espanhol na costa norte de Marrocos, são as únicas fronteiras terrestres de Espanha e também de toda a Europa com África.
Marrocos atribui entradas massivas em Ceuta a "organizações criminosas". Espanha reforça meios
Por seu lado, Marrocos atribui a entrada massiva de migrantes na fronteira com Ceuta a "organizações criminosas" e classifica como "exemplar" a colaboração com Espanha em matérias migratórias, disseram esta quinta-feira fontes da embaixada marroquina em Madrid à agência Europa Press.
As fontes sublinharam que as recentes tentativas de entrada irregular em Ceuta, enclave espanhol no norte de África, "não respondem, de forma alguma, ao desejo das autoridades marroquinas de favorecer a imigração irregular" e que tudo indica que estes movimentos se devem, antes, à exploração de redes criminosas dedicadas ao tráfico de seres humanos e ao tráfico de migrantes.
"Marrocos não favorece nem incentiva a imigração irregular dos seus nacionais. São organizações criminosas que se aproveitam da vulnerabilidade destas pessoas, alimentando expectativas falsas e expondo-as a sérios riscos para as suas vidas e integridade", afirmaram.
Já o governo de Espanha disse que vai reforçar meios na cidade de Ceuta devido a esta entrada de milhares de migrantes de forma irregular, vincando ainda que há boa "cooperação" por parte de Marrocos.
Segundo o Ministério da Administração Interna espanhol, vão ser reforçados meios - humanos e outros - para garantir tanto a segurança e o controlo migratório como a atenção humanitária necessária com o fim de "não se colocar em risco nenhuma vida humana", sobretudo no mar, e assegurar "permanentemente a segurança em todo o território da cidade autónoma".
Fontes do ministério, citadas pelos meios de comunicação social espanhóis, disseram que o ministro Fernando Grande-Marlaska está em contacto com as autoridades de Ceuta e irá na sexta-feira à cidade autónoma. Segundo as mesmas fontes, ao contrário do que aconteceu no passado, o governo de Marrocos "está a cooperar de maneira leal e permanente com Espanha e a colaborar estreitamente" nesta crise.
Pedro Sánchez confirmou, numa mensagem publicada na rede social X, que o governo está empenhado em dar uma resposta imediata à situação em Ceuta: "Estamos a mobilizar todos os recursos necessários, a trabalhar com as autoridades marroquinas e internacionais e a preparar as medidas necessárias para o regresso à normalidade o mais rapidamente possível", afirmou o primeiro-ministro espanhol.
El Gobierno de España está volcado en dar una respuesta inmediata a la situación en Ceuta.
Estamos movilizando todos los recursos necesarios, trabajando con las autoridades marroquíes e internacionales, y preparando las medidas necesarias para recuperar la normalidad lo antes…
— Pedro Sánchez (@sanchezcastejon) July 30, 2026
Relatos de migrantes que entraram em Ceuta nos últimos dez dias citados por meios de comunicação social espanhóis falam num "efeito chamada" provocado por uma sentença do Supremo Tribunal de Espanha do início deste mês segundo a qual migrantes que chegam ao país por mar, de forma ilegal, não podem ser devolvidos imediatamente às autoridades de outro Estado.
Essa entrega a autoridades de outro país não se aplica no caso do mar, só a quem entra em Espanha "superando os elementos de contenção fronteiriça estabelecidos, como vedações", decidiu o tribunal.
Todos os partidos representados no parlamento de Ceuta pediram hoje, numa declaração conjunta, que seja totalmente encerrada a fronteira com Marrocos.

Crise anterior em Ceuta levou Espanha a mudar posição sobre Saara
A cidade de Ceuta, que declarou hoje estar a enfrentar uma "crise humanitária" perante uma chegada massiva de imigrantes desde Marrocos, viveu um episódio semelhante em 2021 que levou Espanha a mudar de posição sobre o Saara Ocidental.
Lusa | 15:03 - 30/07/2026