O novo mapa do poder passa por cabos submarinos, energia e Inteligência Artificial. Portugal tem uma localização privilegiada, mas isso pode não ser suficiente para deixar de ser periferia e tornar-se um ator
Concluído a 21 de julho, o novo cabo submarino Nuvem passou a ligar Sines à costa leste dos Estados Unidos da América, através das Bermudas e dos Açores. Desenvolvido pela Google, percorre cerca de sete mil quilómetros e foi concebido para transportar enormes volumes de dados, respondendo à expansão da computação em nuvem e da Inteligência Artificial. Não é apenas mais uma obra de engenharia. É uma ligação estratégica que coloca Portugal diretamente na disputa pelo futuro digital e ajuda a explicar por que razão o Atlântico está a recuperar uma importância que ultrapassa a geografia.
Os cabos submarinos transportam a esmagadora maioria do tráfego internacional de dados e tornaram-se ativos estratégicos para economias, empresas e Estados. A União Europeia passou a classificá-los como componentes de infraestruturas críticas, reforçando os mecanismos de segurança e resiliência perante vulnerabilidades e dependências crescentes. Em agosto, Bruxelas deu mais um passo nesse sentido ao lançar uma nova iniciativa para reforçar a proteção dessas ligações, numa altura em que a segurança das redes digitais passou a ser também uma questão de autonomia estratégica.
Portugal não controla essa transformação, mas está numa posição particularmente favorável para dela participar. O País já possui ligações de grande capacidade com África e o Brasil e conta agora com uma nova ligação direta aos EUA. A costa portuguesa, os Açores e a localização entre a Europa, a América e África conferem-lhe uma relevância que cresce à medida que a economia mundial se torna mais dependente de redes digitais, energia e conectividade. A questão, portanto, já não é saber se Portugal tem uma localização privilegiada. É perceber se consegue convertê-la em poder de decisão.
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Convergência de circunstâncias
A oportunidade é real, mas não deve ser confundida com influência efetiva. Portugal não se tornou uma potência atlântica por acolher um cabo submarino, nem a sua geografia resolve, por si só, as limitações económicas e as fragilidades das suas redes. O que existe é uma convergência de circunstâncias que pode aumentar a relevância portuguesa: a segurança das comunicações transatlânticas, a expansão da Inteligência Artificial, a procura de energia de baixo carbono e a necessidade europeia de reduzir dependências estratégicas.
É precisamente nessa convergência que Portugal pode encontrar uma nova margem de influência.

A energia é um dos elementos centrais dessa equação. A Agência Internacional de Energia (AIE) considera que Portugal tem uma das produções de eletricidade com menor intensidade carbónica entre os países membros da organização, resultado da expansão das energias hidroelétrica, eólica e solar. A transição energética reforçou a segurança do abastecimento e reduziu a dependência de importações, mas a própria AIE alerta para um problema que limita o potencial português: a capacidade das redes elétricas não está a acompanhar o ritmo de expansão das energias renováveis e da eletrificação. Há já constrangimentos que afetam a ligação de nova produção e de novos consumidores.
A contradição é importante. Portugal dispõe de recursos energéticos que podem atrair indústria e investimento, mas precisa de reforçar as redes que permitem transformar essa vantagem em capacidade económica. Produzir energia limpa é uma coisa; ter rede, armazenamento, interligações e capacidade industrial para transformar essa energia em valor acrescentado é outra.
A fragilidade das interligações ficou exposta com o apagão de abril de 2025 e continua presente no debate europeu. Portugal e Marrocos anunciaram em agosto que pretendem procurar apoio da Comissão Europeia e investimento privado para uma nova ligação elétrica, enquanto a Península Ibérica permanece muito abaixo da meta europeia de interligação elétrica com os países vizinhos.
O projeto ainda está numa fase inicial e não está definido se a ligação será direta ou se dependerá da rede espanhola. A discussão, contudo, revela uma realidade estrutural: a geografia portuguesa pode ser uma vantagem, mas a posição periférica do País nas redes europeias continua a ser uma vulnerabilidade.
Potenciar ativos estratégicos
É aqui que a geopolítica começa a encontrar a política interna. Um país pode ter sol, vento, costa, portos e uma localização privilegiada, mas nenhum desses ativos produz influência por si só. O valor estratégico depende da capacidade de os articular numa política coerente.
Sem redes elétricas adequadas, a energia renovável perde parte do seu potencial económico. Sem proteção e redundância, os cabos submarinos continuam expostos. Sem capacidade para atrair talento e investimento produtivo, os centros de dados podem gerar capacidade tecnológica sem produzir uma transformação proporcional na economia.
Portugal precisa, por isso, de abandonar uma visão sectorial dos seus ativos estratégicos. Energia, conectividade digital, portos, espaço, segurança marítima e diplomacia atlântica não são áreas isoladas. Num mundo em que a competição entre potências passa cada vez mais pelo controlo das redes e dos recursos estratégicos, fazem parte de uma mesma equação.
O Atlântico é um bom exemplo dessa mudança. Durante décadas, a centralidade económica e política da Europa deslocou-se para outras geografias, enquanto a globalização parecia reduzir a importância das fronteiras e das rotas estratégicas. A realidade atual é diferente. A guerra, a competição tecnológica, as ameaças às redes essenciais e a necessidade de proteger cadeias de abastecimento voltaram a atribuir valor à geografia.

O País já tinha uma posição atlântica relevante. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) reconhece há muito a importância estratégica do território nacional, em particular dos Açores, pela sua localização e pelo papel que desempenham nas ligações entre a América do Norte e a Europa e na proteção das linhas de comunicação do Atlântico.
O que está a mudar não é a geografia portuguesa, mas o valor estratégico que o mundo atribui a determinadas redes e rotas. Essa transformação abre possibilidades, mas também impõe escolhas.
O País pode limitar-se a receber investimentos e projetos definidos por outros, beneficiando das vantagens económicas imediatas. Ou pode integrar esses ativos numa visão nacional e europeia mais ambiciosa, transformando a sua posição atlântica numa ferramenta de segurança energética e digital, de atração de atividade económica de maior valor acrescentado e de maior capacidade de negociação dentro da União Europeia.
A segunda opção é mais difícil porque exige continuidade política. Um cabo submarino não é uma estratégia digital. Um parque solar não é uma política energética. Um porto não é, por si só, uma estratégia marítima. E uma localização geográfica favorável não se converte automaticamente em influência internacional.
O desafio português está precisamente nessa passagem: deixar de olhar para cada ativo como uma oportunidade isolada e começar a tratá-los como partes de uma arquitetura comum.
O que fazer com a vocação?
A Europa procura reduzir dependências tecnológicas, energéticas e de conectividade num contexto internacional mais instável. Portugal pode contribuir para esse esforço através de ativos que já possui e de outros que está a desenvolver. Mas, para isso, precisa de responder a uma questão que é menos geográfica do que política: que papel pretende desempenhar na nova disputa pelo Atlântico?
A resposta não está em atribuir ao País uma influência que ainda não possui, mas em reconhecer a que pode conquistar se souber transformar localização em capacidade, recursos em atividade económica e capacidade em influência.
Num cenário internacional marcado pela competição tecnológica, pela transição energética e pelo controlo das redes críticas, Portugal pode ganhar um valor que ultrapassa a sua dimensão económica e demográfica
O desafio, portanto, não está em descobrir uma vocação atlântica que o País já possui, mas em decidir o que fazer com ela. Num cenário internacional marcado pela competição tecnológica, pela transição energética e pela disputa pelo controlo das redes críticas, a posição portuguesa pode ganhar um valor que ultrapassa a sua dimensão económica e demográfica.
O risco seria assistir a esta transformação como espectador, deixando que outros definam o valor estratégico dos ativos que atravessam o seu território e as suas águas. A oportunidade está em fazer o contrário: compreender que a nova geopolítica não se decide apenas nos grandes centros de poder, mas também nas redes que ligam continentes, nas rotas que sustentam economias e na capacidade dos países para transformar a sua posição no mapa em margem de decisão.
Portugal não precisa de se imaginar como potência para reconhecer o valor estratégico da sua posição. Precisa de decidir se quer ser apenas passagem ou se está preparado para transformar essa posição em influência.