De quando em quando, um novo objeto é elevado ao status de xodó nas redes sociais por supostos efeitos de lifting facial. Há alguns anos, foi a vez dos rolinhos de jade ou de quartzo, que pareciam pequenos rolos de pintura feitos de pedras. Houve também a era do gua sha, um pedaço de pedra, madeira ou plástico que também prometia desinchar o rosto e pescoço.
Sob a mesma premissa, a bola da vez são as escovinhas faciais: pequenas escovas com suporte de madeira e cerdas macias e abundantes. Os adeptos e adeptas garantem que a escovinha é capaz de modelar até os rostos mais inchados.
Essa sensação de rosto modelado e desinchado, porém, é passageira, na melhor das hipóteses. Segundo a dermatologista Marina Bragheto, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e professora no Instituto Boggio de São Paulo, a massagem mecânica desse objeto pode aumentar temporariamente a circulação sanguínea no rosto, o que favorece a movimentação dos líquidos superficiais.
A sensação pode ser de um rosto descansado, mas é temporário e superficial. Isso porque, segundo Bragheto, a massagem não é capaz de penetrar nas camadas profundas da pele, nem modificar sua estrutura.
"Um lifting verdadeiro acontece quando conseguimos estimular a produção de colágeno ou reposicionar tecidos, algo que depende de procedimentos médicos específicos", ela diz.
Ou seja, no curto prazo, algumas pessoas podem perceber a pele mais viçosa e levemente desinchada, frutos da melhora da circulação local promovida pela massagem mecânica. Mas os estudos sobre efeitos a longo prazo são limitados.
Não existe comprovação científica de que a escovinha e acessórios do tipo contribuam de fato para o rejuvenescimento da pele, promovam lifting facial ou estimulem produção de colágeno, afirma Bhertha Tamura, mestre e doutora em dermatologia pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. "Esses dispositivos são mais utilizados para proporcionar uma sensação de cuidado e relaxamento do que para promover resultados clínicos", diz.
A dermatologista observa que outras técnicas, como microagulhamento que usam dispositivos específicos, demoraram anos de estudos clínicos para comprovar sua eficácia. "Não há fundamento científico para acreditar que simplesmente passar uma escova ou um rolo sobre o rosto seja capaz de gerar esse tipo de resultado", avalia.
Isso não quer dizer que a escovinha precise ser limada da rotina. Usada sem exageros, pode fazer parte da aplicação de produtos na pele, quando as cerdas forem de silicone. Mas ela é um produto complementar.
Eli Delf, esteticista do Jacques Janine, recomenda usar o item em conjunto com sérum ou outro produto que facilite o deslize. O ideal é que acessórios do tipo sejam usados sobre a pele limpa e seca, ela observa. Também é importante mantê-los sempre limpos para evitar o acúmulo de resíduos.
A esteticista indica ainda fazer a massagem pela manhã, que traz um inchaço característico logo ao acordar. Delf faz uma observação: "Embora a pele possa parecer mais firme e o rosto mais descansado logo após o uso, esse efeito é temporário".
Existem, ainda, algumas contraindicações. Pessoas com rosácea, dermatite, acne inflamada, infecções na pele ou que tenham realizado procedimentos dermatológicos recentes devem evitar o uso até que a pele esteja totalmente recuperada.
O atrito na pele pode causar aumento da vermelhidão e tende a sensibilizar mais e agravar essas condições, observa Delf.
Mesmo em pessoas sem essas condições, se usada em excesso ou aplicada com pressão exagerada, a escovinha pode causar irritações e comprometer a barreira protetora da pele.
Segundo Bragheto, os pilares de uma pele saudável continuam sendo a proteção solar diária, a limpeza adequada, a hidratação e o uso de ativos com eficácia comprovada. A escovinha não substitui nenhuma dessas etapas e seus benefícios são muito mais discretos do que costuma ser mostrado nas redes sociais.
Colaborou Nathalia Durval
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